sábado, 5 de julho de 2014

Sobre acidentes e responsabilidade de engenheiros

Recentemente vimos o caso de um viaduto que desabou matando duas pessoas, e não é raro vermos obras que apresentam diversos problemas (desde erros de projeto até violação de legislação sobre incêndios, acústica etc...), os quais eventualmente resultaram em mortes, prejuízos ou outros problemas sociais.

Na discussão destes, é muito comum focarmos em problemas políticos (superfaturamento, atraso de obras, etc...) mas raramente se discute a responsabilidade da engenharia nelas.

Como futuro engenheiro, eu gostaria de saber o que o CREA - órgão que tem o poder de definir quem pode exercer a engenharia - tem a dizer sobre os engenheiros que trabalharam nessa obra, a responsabilidade deles e quais serão as punições tomadas. Muito provavelmente, nenhuma acontecerá, pois tal órgão é conhecido por não querer criar problemas com seus contribuintes ou com quem os contrata.

Coisas raramente acontecem por acontecer em uma disciplina baseada nas ciências exatas, todos os problemas tem uma causa raiz (root cause), certamente posso afirmar que houve negligência (ou imperícia, ou imprudência, ou mesmo a velha e boa irresponsabilidade) envolvida.

Se houve o uso de materiais de baixa qualidade, ou se o projeto foi mal-feito e não levou fatores específicos em conta, presumivelmente houve a aprovação de alguém - necessária para executar a obra: por que este, então, não é punido? Não consigo encontrar outra solução para um profissional que colocou seu nome sob um trabalho, mas que não assume a responsabilidade sobre ele.


Em outros países (aqui isso é feito apenas timidamente) é comum investigar as causas de acidentes ou desastres com morte ou prejuízo ao patrimônio, para que sejam definidos protocolos, leis, normas técnicas ou mesmo para que se reformule a formação das disciplinas envolvidas de forma a prevenir que volte a acontecer.

Posso falar com mais autoridade na área onde eu trabalho (sistemas embarcados e eletrônica): um caso recente foi um bug no software de alguns veículos da Toyota que, após mortes, resultou em uma enorme investigação cujos resultados apontaram várias negligências, mas infelizmente não encontrei informações (muitas delas são confidenciais) sobre punição a culpados.



Da mesma forma, nos anos 80 ocorreu o caso Therac 25, no qual a negligência dos projetistas e desenvolvedores em um equipamento médico, levou várias pessoas a morte por overdose de radiação, simplesmente pois sistemas básicos de segurança e tratamento de erros foram ignorados (o famoso nunca vai acontecer, até que acontece).

Embora aparentemente não haja ligação entre um viaduto, um carro e um equipamento médico, todos esses eram sistemas críticos: lidavam com vidas. Atividade que não combina com gambiarras, jeitinhos, prazos ridículos, superfaturamentos, orçamentos mal estipulados e profissionais sobrecarregados - realidades que infelizmente são comuns.

Como resultado do caso Therac 25, criaram-se metodologias para projeto de software de equipamentos médicos e reforçou-se a importância da engenharia de software - inclusive das tarefas ditas chatas, como documentação, controle de qualidade, teste de software etc... e certamente o caso da Toyota irá resultar em conclusões similares assim que os acordos de confidencialidade terminarem.

E eu gostaria de ver o mesmo acontecendo por aqui: nenhum acidente ou falha de projeto terminando engavetados sem que eles levem ao menos a uma revisão das leis, dos procedimentos ou mesmo do ensino de engenharia (aliás, o problema já começa aqui, na graduação pouco vi sobre como projetar ou planejar - mas muito vi sobre como calcular ou escrever código, o que é completamente diferente).







Temos várias medidas a serem tomadas para combater esses acidentes, inclusive com o uso de um arsenal de ferramentas disponíveis, mas o melhor que poderíamos fazer para evitá-los e, no geral, melhorar a qualidade de qualquer obra ou projeto é - exigir e cobrar responsabilidade de todos os profissionais envolvidos: se uma empresa assina e executa um projeto, todos os envolvidos neste deverão assumir as consequências de eventuais omissões.

sábado, 24 de maio de 2014

Quando a coisa aperta...

Uma mudança recente no vestibular da UFSM  - que foi extinto e substituído pelo ingresso através do ENEM - causou revolta em vários setores da sociedade santamariense. Não vou entrar no mérito da questão social ou da qualidade das avaliações do ENEM, mas sim em outra questão: a reação de alguns órgãos daqui. Prefeitura, associações, câmaras e outros representantes de pequena parcela da sociedade.

É bastante interessante ver que apenas agora, quando se viram acuados (afinal, a fonte de lucro que era o vestibular deixou de existir), eles decidiram reclamar por alguma coisa. Falam que a UFSM é a principal dinamizadora da economia, e de fato estão razoavelmente certos, mas ignoraram os diversos problemas que já existiam aqui e que prejudicavam ela.

O primeiro deles - como qualquer santamariense está cansado de saber - é a péssima qualidade do transporte público. Entra ano, sai ano, e os ônibus continuam superlotados, atrasados e a passagem aumentando (já que nunca houve uma real auditoria na composição dos custos dela). Empresas de ônibus que operam na irregularidade ou na ilegalidade - mas não duvido que os donos delas sejam os primeiros a reclamar da corrupção e da impunidade na qual cavalgam e montam seus negócios.

E nenhuma entidade se mobiliza para melhorar essa situação: pelo contrário, qualquer manifestação sofre repressão em proporções descomunais. Aliás, como muito bem sabemos, a polícia e a justiça estão do lado dessas associações (como é de praxe no Brasil): se alguns setores forem às ruas contra essas mudanças, encontrarão os mesmos tiros, porradas e bombas que os manifestantes inconvenientes (leia-se: os que não vivem na bolha possibilitada pela riqueza do monopólio) encontram? Se algum desses empresários ou negócios da China for investigado, encontrará a mesma punição que um ladrão de galinhas encontra?

Como o transporte público falhou, o transporte particular encontra-se saturado. Existe uma alternativa que poderia desafogar - temporariamente (pois, como vi esses dias, tentar resolver o problema do trânsito aumentando as estradas é como tentar resolver a obesidade aumentando o tamanho do cinto) - o deslocamento para a UFSM, porém, ela precisa ser asfaltada. Mas, novamente, não vimos nenhum desses setores cobrar a realização desta tarefa. Ironicamente, defendem a universidade como fonte de renda para a cidade, mas não defendem a construção dos caminhos que dão acesso a elas. Falta de visão é com eles mesmos.

Também nunca vimos elas lutarem e buscarem que as cidades tenham direitos básicos garantidos pela Constituição - e que também são fundamentais para o desenvolvimento. Aliás, infelizmente essa é uma constante no país todo: muitos dos os órgãos que gozam de algum poder político apenas o usam para satisfação das suas vontades, sem preocupação com a sociedade.

Eu gostaria de vê-los com o mesmo interesse na defesa do ensino público (que permitiria que mais pessoas fizessem um curso superior), da infra-estrutura, dos direitos humanos, da cidadania. Em causas que não são diretamente interessantes aos bolsos deles e que não dão lucro. Mas isso não irá acontecer tão facilmente. Aliás, eu gostaria de não ser pessimista, mas tão cedo isso tudo não vai acontecer.

Posso estender essa crítica a toda a região e, acredito eu, à maioria das regiões brasileiras: há problemas que não cabem apenas a um ou dois municípios, mas a grupos deles. Todas as cidades que são vítimas de estradas de má-qualidade, ou de problemas ambientais, deveriam estar juntas protestando por medidas.

Porém, não há organização para cobrança de melhorias - afinal, nossa política é uma guerrinha de partidos. Combinações e alianças esdrúxulas são aceitáveis como parte de expandir o poder ou de negociar privilégios para alguns grupelhos ao custo de privar outros daquilo que lhes é de direito, mas não de lutar por melhorias de interesse social ou de corrigir injustiças e deficiências do país.

Santa Maria passou a vida toda dependendo da UFSM (paga por todos os brasileiros, não apenas pelos santamarienses, e que nada tem a ver com as vontades e caprichos dos órgãos municipais) e, dessa forma, ficou desacostumada. Por falta de infraestrutura - não apenas aqui, mas na região toda - vê oportunidades passar. Tem dificuldade em manter gente formada. E, desse ponto de vista, considero que mereceu perder o vestibular (e espero que não consigam retomá-lo): talvez agora aprenda a investir no que é necessário para o real desenvolvimento.

sábado, 22 de março de 2014

Não produza ruído

(Se você está insatisfeito com a relação sinal/ruído da internet, a única forma de mudar as coisas é adicionar mais sinal - ATWOOD, Jeff)

A qualidade de boa parte das discussões nas redes sociais é péssima. Vemos uma torrente de agressões, de trollagens e zueiras, de gente que sistematicamente mistura fatos com emoções e ideologias, de gente que emite mentiras e falácias (como os famosos boatos e montagens que todos estamos cansados de ver), entre outros comportamentos nocivos.

Torna-se cansativo, após um tempo, ver gente que intencionalmente distorce a fala do outro para incriminá-lo. Falsas dicotomias abundam: ou você é eleitor do PT ou você é eleitor do PSDB. Ou você é incondicionalmente capitalista ou você é comunista. Ou você está contra mim ou você está a favor de mim. Você precisa ser a favor de soluções drásticas, superficiais e imediatistas.


Os mesmos "argumentos" já batidos são repetidos à exaustão: notícias falsas acabam se tornando verdade, e quem ousa - em um fútil exercício de paciência - questionar a veracidade das afirmações é agredido.

Aliás, é interessante ver que a mesma pessoa, que prega o ceticismo e o método científico, que vomita por todos os cantos que é racionalista e não alienada, cai nesses erros. Compartilha a informação sem verificar se ela é correta, ao mesmo tempo em que critica quem faz isso.

Por sinal, nessas horas entendo que o ensino e a prática de lógica deveriam ser feitas desde o ensino fundamental até a pós-graduação: na melhor das hipóteses, melhorariam a qualidade da discussão, na pior das hipóteses, permitiriam ao menos que pessoas apontassem os erros de lógica e de argumentação.

Alguns fazem isso com nome real: se por um lado isso até parece bom (pelo simples fato dessas pessoas terem a integridade de dar a cara a tapa em vez de se esconder atrás de um fake), na verdade eu sinto pena de gente que diz ostentar um nível educacional supostamente alto ao mesmo tempo em que demonstra total ignorância sobre os temas que discute.

É tristemente interessante ver uma pessoa com um doutorado, ou em um cargo de alta responsabilidade dentro de uma empresa, distribuindo xingamentos gratuitos e papagaiando as mesmas falácias repetidamente.

Há um bom tempo já não me envolvo mais nelas. Nem mesmo as acompanho, e recomendo isso a todos: aproveite o tempo que você vai ganhar para se informar sobre os temas sendo discutidos. Nenhuma discussão é proveitosa quando os argumentadores não estão minimamente aptos a discutir aquilo de forma um pouco mais profunda do que "deu no jornal", "li na Wikipedia" ou "no Blog do Fulano dizia isso".

Melhore sua vida: não se misture com o ruído do bate-boca nas 'discussões' em comentários de sites (aliás, já falei sobre esse tema), redes sociais etc.... Já que reduzir o ruído é difícil (e, de alguma forma, ele sempre existirá), adicione sinal.

Para os moderadores de sites: é obrigação sua eliminar os babacas, mesmo que isso signifique perder cliques.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Não foi um suicídio

Recentemente vimos o assassinato cruel de um jovem, com claras indicações de ter motivação homofóbica: além de ter ocorrido nas proximidades de uma festa gay, não consigo imaginar que um ladrão de galinhas seria tão brutal com a vítima.

Em qualquer outro país minimamente desenvolvido - o que não significa apenas desenvolvimento econômico, ao contrário do que certo governo quer - casos como esse não seriam registrados como suicídio: seriam registrados como assassinato, com possível caso de homofobia.

No fundo, isso não é diferente de qualquer estratégia empregada em ditaduras: fazer tudo virar suicídio para que não pareça ser um problema. Foi assim no Brasil dos anos 70, nas ditaduras na Europa, no nazismo, na União Soviética etc... e passava batido.

Como sempre, o governo (inclusive a Presidenta) não se posicionam: não tomam medidas e - como precisam do apoio da bancada evangélica para execução do seu plano de poder - aceitam que teocratas, convenientemente e deliberadamente ignorando o amar ao próximo e o não julgar que estão nos livros sagrados de suas religiões, interfiram nas leis anti-preconceito (como o PLC 122 que foi sumariamente enterrado).

Teocratas esses que não querem educação para a diversidade e a tolerância - o que é fundamental numa sociedade tão falida que precisa ser obrigada a respeitar os outros sob pena de punição, que precisa de leis e de ameaça de prisão para tudo - e, embora nunca tendo apresentado projetos para tentar melhorar o país, querem aumentar cada vez mais seus privilégios: isenção fiscal disso e daquilo. Direito ao ódio. Impunidade. E conseguem, pois são uma bancada extremamente organizada... mas apenas quando é para para saciar suas próprias necessidades.

Pregam o ódio abertamente em seus templos e nos seus programas bombásticos de televangelismo. Mentem para as pessoas, ignorando completamente os dez mandamentos, a Bíblia e a 'palavra de Deus' da qual se dizem profetas. Na desgraça do outro, veem a oportunidade de manipular e de mentir [2] para arrecadar dízimos cada vez maiores. O que Deus pensaria da ganância e da mentira destes?

E o povo, também, não vai reclamar justiça, afinal para muita gente os gays não são os cidadãos de bem, eles são um mau exemplo para a sociedade, eles querem corromper as crianças. Eles são a culpa de toda a desgraça da sociedade.

Para essas pessoas - inclusive, como já testemunhei, gente com nível superior (ou seja, não se pode falar que essas pessoas não tiveram acesso à educação [1]) - ser gay é uma opção (eu sinceramente gostaria que me mostrassem quando eu escolhi ser ou não gay ou hétero, não lembro de ter aparecido um menu ou um formulário na minha frente) ou uma frescura (por que na minha época, meu pai ia sentar a porrada em mim se eu fosse viado). Para elas, já existe muita propaganda gay (se é para usar esse termo idiota: que estranho, o que eu mais vejo é propaganda hétero, e nem por isso alguém deixa de ser gay).

Quantas mortes por machismo e homofobia, quantas mortes por preconceito, quantos discursos de ódio serão necessários para que algo seja feito? Pelo andar da carruagem, um número infinito, pois fazer algo afeta os planos do governo de não ter nenhuma dissidência, requer que seja violada a tal da governabilidade, e obriga ele a fazer algo.

É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende, acima de tudo, que não o compreenda. -- Upton Sinclair

[1] Costumo afirmar que educação significa, muitas vezes, apenas conhecimento: nada diz sobre caráter e honestidade. Muita gente tachada de burra é mais honesta e sincera do que  pessoas inteligentes que conseguem achar escapatórias e justificativas para tudo, que jogam com palavras para enganar as pessoas e que conhecem todas as artimanhas para não serem pegos. Mas divago.

[2] O pessimista vê em cada oportunidade uma dificuldade; o otimista vê em cada dificuldade uma oportunidade.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

"Não serve para nada"

(Obs.: Nesse texto vou me manter nas exatas, considerando que é a área na qual mais me envolvo, porém muitos dos argumentos podem ser adaptados para as humanas e as sociais)

É relativamente comum ver pessoas reclamando de pesquisas que não servem para nada. Estão jogando dinheiro público fora, reclamam. Estão gastando dinheiro em pesquisas enquanto pessoas morrem de fome, dizem.

Ignorando os óbvios erros de raciocínio (a saber: não são as pesquisas que causam a fome mundial, e um país cuja sociedade vê pesquisa como 'jogar dinheiro fora' está condenado ao atraso), simplesmente: a pesquisa não tem nenhuma obrigação de servir para alguma coisa quando isso não é o objetivo dela.

Muitas pesquisas básicas podem não ter aplicação hoje, mas terão amanhã: sem a mecânica quântica você não estaria lendo esse blog, pois não existiria a microeletrônica, e também estaríamos atrasados na química, na biologia e na medicina (esqueça o diagnóstico por imagem, por exemplo). 

Sem o desenvolvimento da matemática, em áreas como a lógica e a criptografia, não teríamos a computação. Nada do que você usa existiria, não fosse pelas muitas pesquisas que criaram uma base para permitir o desenvolvimento dessas. E já que eu falei em matemática, neste post no Math Overflow encontrei uma lista de aplicações de diversos tópicos da matemática: divirta-se.

Todas essas áreas não tinham aplicação, ou mesmo não existiam, até uns 100 anos atrás. Nada impede que o que não tem aplicação hoje sirva amanhã para, por exemplo, possibilitar viagens no tempo, o teletransporte, ou (sendo mais realista) uma nova forma de projetar equipamentos, de diagnosticar e curar doenças, etc...

E por sinal, muitas dessas teorias nasceram da necessidade de resolver problemas reais. Surgiram da necessidade de justificar fenômenos que a teoria anterior - embora correta até certo ponto - não explicava, ou do desejo de uma forma mais eficiente de resolver um problema. A pesquisa básica realimenta a pesquisa aplicada, e vice-versa.

Infelizmente, essa mentalidade já faz parte de uma cultura imediatista, onde tudo é pautado pela necessidade de dar dinheiro, de ser disruptivo, de mudar o mundo, de gerar grandes sucessos (onde define-se sucesso por ter status, ser influente e ganhar dinheiro). E que, pelo andar da geração Y e posteriores, tão cedo não vai mudar. Mas divago.

A segunda crítica (... gente morrendo de fome ...) é bem comum quando se fala em exploração espacial. Ignora-se toda a pesquisa envolvida nas missões e sondas enviadas para outros planetas. Sem a exploração espacial, você não estaria usando comunicações sem fio e você teria que jogar fora boa parte da aviação (a qual se beneficiou dos sistemas de alta confiabilidade necessários para exploração espacial) - além de outras áreas onde são usados sistemas críticos.

Além disso, essa crítica coloca nos cientistas uma culpa que não é deles, ao mesmo tempo em que ignora que os governos cada vez mais reduzem seus orçamentos para ciência, ignora as dificuldades do fazer ciência, entre outros problemas de um pensamento imediatista. Ignora que a fome e outros problemas da humanidade, em si, é um problema principalmente social, político e econômico, não tecnológico.

E para piorar, ignora todos os benefícios da pesquisa científica a um país que nela investe: formação de profissionais capacitados, desenvolvimento de infra-estrutura etc...

Nenhuma pesquisa bem-feita (ignorando, obviamente, a pseudociência, a pesquisa feita sem planejamento adequado, sem rigor e sem objetivos claros etc...) serve para nada. Na pior das hipóteses, abre caminhos para novas pesquisas; mesmo um resultado de falha pode sinalizar o que não deve ser feito, o que não funciona. Pode ser que não se descubra um caminho novo, mas demonstra quais caminhos são sem saída.

Nem tudo requer uma aplicação instantânea: precisamos - como nunca - da pesquisa básica. É ela que, como o seu próprio nome diz, fornece a base para a inovação tecnológica; fornece ferramentas que poderão ser utilizadas em diversas áreas do conhecimento.

(Foto: Horia Varlan/Flickr, licenciada sob Creative Commons)

sábado, 30 de novembro de 2013

"Review": Moto G

Meu Galaxy Ace morreu há um tempo atrás. Fiquei sem smartphone por um tempo, considerei vários modelos (Razr D3, Razr I, Nexus 4, Optimus L5/L7, e até pensei em dar uma chance à Nokia e seu Windows Phone) e felizmente eu não me precipitei em comprar: apareceu o Moto G.
tl;dr: Pelo preço, considero que é um ótimo aparelho (eu paguei a mesma coisa no meu antigo Ace lá em 2011). 

A maioria dos aplicativos roda perfeitamente (o único que rodou de forma não-ideal foi o Google Earth: notei lentidão no Street View), embora eu não tenha testado jogos pesados: testei Angry Birds, Candy Crush e mais alguns outros.

Não tive problema de crashes; talvez seja muito cedo para dizer, mas não tive problemas de travamento do aparelho (se comparar com o Ace, que bastava olhar torto para travar ou ficar lento).

O Android 4.3 dele é bem padrão, limpo, não padece das modificações realizadas por outros fabricantes. Integra perfeitamente com os serviços do Google.

A câmera é adequada: ao dar zoom na foto fica fácil ver que ela ficou pixelada, que ela perdeu detalhes. Para a maioria dos usos de smartphones (tirar fotos de comida para botar no Instagram e fotos no espelho para colocar no Facebook - aliás, nem precisa de foto no espelho devido à câmera frontal), é razoável. Bem que a Nokia podia licenciar a tecnologia de câmeras dela para os outros fabricantes ou largar o Windows Phone. Alguns exemplos de fotos tiradas com ele:





A câmera frontal não serve para muita coisa, a qualidade dela é baixa. Serve, no máximo, para tirar selfies para colocar no Facebook ou para conversar com vídeo no Skype. Exemplo de foto tirada com ela:

O que eu gostei:

  • Primeiramente: Android 4.3 com garantia de atualização para o 4.4. Só isso já foi um fator pesado na compra.
  • Desempenho excelente.
  • Android limpo (não vem com um apps, a única coisa que vem nele - além dos aplicativos Google - é o (HUEHUEHUEHUE BR BR) BR Apps necessário para a isenção fiscal).

    Justamente isso evitou a necessidade de fazer root: lembro que a primeira coisa que eu fiz no meu Ace foi rootear para arrancar as apps que a Samsung enfia.
  • Duração de bateria. 30 minutos ouvindo música e navegando na internet via 3G e a bateria foi de 100% para 90%: no meu Ace ela já estaria em 70% no máximo. Para um perfil de usuário médio, a bateria aguenta facilmente um dia inteiro.
  • Reconhecimento de voz funciona bem, embora seja um tanto quanto desconcertante falar sozinho e o OK Google Now não seja suportado devido ao hardware necessário (é necessário entrar na app do Google Now).
  • O GPS conseguiu encontrar os satélites com facilidade, coisa que no Ace levava minutos. 

O que eu não gostei:

Obs.: Não vou colocar 'não aceita SD' por que eu comprei ele sabendo dessa limitação, não foi surpresa alguma.
  • O principal problema: suja fácil. É quase obrigatório andar com um paninho para limpeza.
  • Capinha traseira horrível de tirar (só com uma faca ou uma ferramenta mesmo, é muito fácil quebrar a unha no processo).

    Como a bateria não é removível, isso não vai fazer muita diferença, mas talvez não sirva para quem troca freneticamente de chip.
  • Os fones de ouvido que vem com o aparelho são apenas aceitáveis, qualquer pessoa que queira ouvir música mais a sério vai ter que comprar um fone melhor.
  • Bateria lenta para carregar (mais de 3 horas). 

Mas são problemas (excetuando o da bateria) menores e facilmente contornáveis. Para quem usa Linux, boa sorte: ele ainda não é suportado pela libmtp (biblioteca que faz o meio de campo entre o Linux e o dispositivo) e o Android 4 não suporta mass storage (fazer o smartphone aparecer como um pen drive).

Ou seja, ele nem mesmo é reconhecido e talvez não carregue (edit: o problema se resolve se você der boot/reiniciar o PC com o aparelho conectado).  Como workaround, dá para usar o AirDroid para enviar arquivos.

O bug já está relatado: estou com a impressão que é só recompilar essa biblioteca com o device ID do Moto G, mas ainda não testei (nem sei como eu faria isso no Ubuntu sem ferrar o resto do sistema).

Tirando isso, o aparelho é ótimo. Arrisco dizer que é um dos melhores custo/benefício disponíveis no mercado brasileiro hoje (12/2013).

domingo, 6 de outubro de 2013

Da falibilidade (e outras coisas) da ciência

Recentemente, foi noticiado que uma pesquisa falsa tinha sido aceita em diversos periódicos científicos. E outros problemas nas publicações científicas não são de hoje: 5 minutinhos lendo o Retraction Watch demonstram que apenas estamos vendo a ponta do iceberg.

Para quem acompanha o mundo científico, lê artigos etc... não é de hoje: que atire a primeira pedra quem nunca esbarrou em um artigo pessimamente escrito, com introduções que não introduziam, erros graves de argumentação, gráficos e diagramas ilegíveis, desenhos que não seriam aceitos nem em uma aula na 4ª série, falta de tratamento estatístico de resultados. E o pior foi ver isso em um periódico peer-reviewed.

Existem periódicos que se dedicam a publicar qualquer coisa: pagou, passou. O seu nome aparece em um periódico parecido com o de algum de alto fator de impacto, você tem seus nanossegundos de fama, e você pode dizer que publicou internacionalmente.

Aliás, se o seu sonho é publicar algo na Nature ou Science, mas você é um mero mortal, não se preocupe: publique na Nature and Science e tenha seu artigo do lado de deliciosas pérolas, como um suposto experimento para provar a existência de matéria escura, no qual seus autores confundem matéria em uma sala escura com matéria escura!

Voltando ao ponto principal: a ciência não é infalível, não é implacável, não é isenta da possibilidade de corrupção e fraude, afinal, ela é feita por seres humanos facilmente subornáveis. Ainda fica pior quando se envolvem interesses financeiros (bolsas, financiamentos de pesquisa etc...) - tanto é que as ciências onde menos se vêem problemas éticos são as puras (matemática, física, filosofia...), visto que elas não lidam diretamente com dinheiro e um teorema ou descoberta de um novo fenômeno físico não vai gerar uma patente ou um copyright facilmente.

A revisão por pares também é feita por seres humanos: erros e omissões naturalmente acontecem, porém alguns se corrompem por interesse. Eu posso muito bem pedir para o meu amigo revisar meu artigo (leia-se: aprovar direto). Vira uma enorme troca de favores.

Soma-se a isso o fato da pressão por resultados (publish or perish), a necessidade absurda de mensurar a produtividade por meio do fator de impacto (leia-se: quantos artigos Fulano publicou e quantas vezes foi citado) e outros fatores: prato cheio para fraudes - que seriam desnecessárias se a ciência não estivesse tão profundamente metrificada.

Tudo isso foi criado, em grande parte, pela necessidade de publicar cada vez mais e de fatiar uma pesquisa em infinitas partes (a Salami Science), as quais formarão uma centopeia de citações. Oba! Meu fator de impacto aumentou!

Pela voracidade do modelo atual, perdeu-se a possibilidade de fazer uma pesquisa profunda, algo que exija anos de dedicação, algo que gere um impacto do tamanho do trabalho de um Einstein ou Darwin.

Por fim, aquele que eu julgo ser o principal problema: muitos resultados publicados não são reprodutíveis, por diversos motivos: materiais e métodos incompletos ou inacessíveis, não se divulgaram os algoritmos usados para tratamento dos dados/simulações/etc... e tampouco o código-fonte está disponível.

Embora a tecnologia já exista e seja usada com sucesso para desenvolver software/hardware livre, para colaboração entre equipes etc... poucos cientistas as adotam.

A ciência não é infalível, justamente por ser realizada por seres humanos. Mas podemos reduzir o índice de falibilidade dela: a solução para isso é a mesma solução necessária à política, à economia, etc...: transparência. Tema sobre o qual já falei antes.

Dados abertos e uso/desenvolvimento de software livre, como atividades preferenciais/mandatórias e não como a exceção. Deixar claro que o pesquisador X recebeu uma bolsa do instituto Y ou que a pesquisa sobre Y foi patrocinada pela empresa Z. Ah, e jogar fora o produtivismo e o vício em mensurar todas as atividades.


Fonte da imagem: The Puzzler | Flickr (CC BY).