sábado, 22 de março de 2014

Não produza ruído

(Se você está insatisfeito com a relação sinal/ruído da internet, a única forma de mudar as coisas é adicionar mais sinal - ATWOOD, Jeff)

A qualidade de boa parte das discussões nas redes sociais é péssima. Vemos uma torrente de agressões, de trollagens e zueiras, de gente que sistematicamente mistura fatos com emoções e ideologias, de gente que emite mentiras e falácias (como os famosos boatos e montagens que todos estamos cansados de ver), entre outros comportamentos nocivos.

Torna-se cansativo, após um tempo, ver gente que intencionalmente distorce a fala do outro para incriminá-lo. Falsas dicotomias abundam: ou você é eleitor do PT ou você é eleitor do PSDB. Ou você é incondicionalmente capitalista ou você é comunista. Ou você está contra mim ou você está a favor de mim. Você precisa ser a favor de soluções drásticas, superficiais e imediatistas.


Os mesmos "argumentos" já batidos são repetidos à exaustão: notícias falsas acabam se tornando verdade, e quem ousa - em um fútil exercício de paciência - questionar a veracidade das afirmações é agredido.

Aliás, é interessante ver que a mesma pessoa, que prega o ceticismo e o método científico, que vomita por todos os cantos que é racionalista e não alienada, cai nesses erros. Compartilha a informação sem verificar se ela é correta, ao mesmo tempo em que critica quem faz isso.

Por sinal, nessas horas entendo que o ensino e a prática de lógica deveriam ser feitas desde o ensino fundamental até a pós-graduação: na melhor das hipóteses, melhorariam a qualidade da discussão, na pior das hipóteses, permitiriam ao menos que pessoas apontassem os erros de lógica e de argumentação.

Alguns fazem isso com nome real: se por um lado isso até parece bom (pelo simples fato dessas pessoas terem a integridade de dar a cara a tapa em vez de se esconder atrás de um fake), na verdade eu sinto pena de gente que diz ostentar um nível educacional supostamente alto ao mesmo tempo em que demonstra total ignorância sobre os temas que discute.

É tristemente interessante ver uma pessoa com um doutorado, ou em um cargo de alta responsabilidade dentro de uma empresa, distribuindo xingamentos gratuitos e papagaiando as mesmas falácias repetidamente.

Há um bom tempo já não me envolvo mais nelas. Nem mesmo as acompanho, e recomendo isso a todos: aproveite o tempo que você vai ganhar para se informar sobre os temas sendo discutidos. Nenhuma discussão é proveitosa quando os argumentadores não estão minimamente aptos a discutir aquilo de forma um pouco mais profunda do que "deu no jornal", "li na Wikipedia" ou "no Blog do Fulano dizia isso".

Melhore sua vida: não se misture com o ruído do bate-boca nas 'discussões' em comentários de sites (aliás, já falei sobre esse tema), redes sociais etc.... Já que reduzir o ruído é difícil (e, de alguma forma, ele sempre existirá), adicione sinal.

Para os moderadores de sites: é obrigação sua eliminar os babacas, mesmo que isso signifique perder cliques.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Não foi um suicídio

Recentemente vimos o assassinato cruel de um jovem, com claras indicações de ter motivação homofóbica: além de ter ocorrido nas proximidades de uma festa gay, não consigo imaginar que um ladrão de galinhas seria tão brutal com a vítima.

Em qualquer outro país minimamente desenvolvido - o que não significa apenas desenvolvimento econômico, ao contrário do que certo governo quer - casos como esse não seriam registrados como suicídio: seriam registrados como assassinato, com possível caso de homofobia.

No fundo, isso não é diferente de qualquer estratégia empregada em ditaduras: fazer tudo virar suicídio para que não pareça ser um problema. Foi assim no Brasil dos anos 70, nas ditaduras na Europa, no nazismo, na União Soviética etc... e passava batido.

Como sempre, o governo (inclusive a Presidenta) não se posicionam: não tomam medidas e - como precisam do apoio da bancada evangélica para execução do seu plano de poder - aceitam que teocratas, convenientemente e deliberadamente ignorando o amar ao próximo e o não julgar que estão nos livros sagrados de suas religiões, interfiram nas leis anti-preconceito (como o PLC 122 que foi sumariamente enterrado).

Teocratas esses que não querem educação para a diversidade e a tolerância - o que é fundamental numa sociedade tão falida que precisa ser obrigada a respeitar os outros sob pena de punição, que precisa de leis e de ameaça de prisão para tudo - e, embora nunca tendo apresentado projetos para tentar melhorar o país, querem aumentar cada vez mais seus privilégios: isenção fiscal disso e daquilo. Direito ao ódio. Impunidade. E conseguem, pois são uma bancada extremamente organizada... mas apenas quando é para para saciar suas próprias necessidades.

Pregam o ódio abertamente em seus templos e nos seus programas bombásticos de televangelismo. Mentem para as pessoas, ignorando completamente os dez mandamentos, a Bíblia e a 'palavra de Deus' da qual se dizem profetas. Na desgraça do outro, veem a oportunidade de manipular e de mentir [2] para arrecadar dízimos cada vez maiores. O que Deus pensaria da ganância e da mentira destes?

E o povo, também, não vai reclamar justiça, afinal para muita gente os gays não são os cidadãos de bem, eles são um mau exemplo para a sociedade, eles querem corromper as crianças. Eles são a culpa de toda a desgraça da sociedade.

Para essas pessoas - inclusive, como já testemunhei, gente com nível superior (ou seja, não se pode falar que essas pessoas não tiveram acesso à educação [1]) - ser gay é uma opção (eu sinceramente gostaria que me mostrassem quando eu escolhi ser ou não gay ou hétero, não lembro de ter aparecido um menu ou um formulário na minha frente) ou uma frescura (por que na minha época, meu pai ia sentar a porrada em mim se eu fosse viado). Para elas, já existe muita propaganda gay (se é para usar esse termo idiota: que estranho, o que eu mais vejo é propaganda hétero, e nem por isso alguém deixa de ser gay).

Quantas mortes por machismo e homofobia, quantas mortes por preconceito, quantos discursos de ódio serão necessários para que algo seja feito? Pelo andar da carruagem, um número infinito, pois fazer algo afeta os planos do governo de não ter nenhuma dissidência, requer que seja violada a tal da governabilidade, e obriga ele a fazer algo.

É difícil fazer um homem compreender algo quando seu salário depende, acima de tudo, que não o compreenda. -- Upton Sinclair

[1] Costumo afirmar que educação significa, muitas vezes, apenas conhecimento: nada diz sobre caráter e honestidade. Muita gente tachada de burra é mais honesta e sincera do que  pessoas inteligentes que conseguem achar escapatórias e justificativas para tudo, que jogam com palavras para enganar as pessoas e que conhecem todas as artimanhas para não serem pegos. Mas divago.

[2] O pessimista vê em cada oportunidade uma dificuldade; o otimista vê em cada dificuldade uma oportunidade.


terça-feira, 24 de dezembro de 2013

"Não serve para nada"

(Obs.: Nesse texto vou me manter nas exatas, considerando que é a área na qual mais me envolvo, porém muitos dos argumentos podem ser adaptados para as humanas e as sociais)

É relativamente comum ver pessoas reclamando de pesquisas que não servem para nada. Estão jogando dinheiro público fora, reclamam. Estão gastando dinheiro em pesquisas enquanto pessoas morrem de fome, dizem.

Ignorando os óbvios erros de raciocínio (a saber: não são as pesquisas que causam a fome mundial, e um país cuja sociedade vê pesquisa como 'jogar dinheiro fora' está condenado ao atraso), simplesmente: a pesquisa não tem nenhuma obrigação de servir para alguma coisa quando isso não é o objetivo dela.

Muitas pesquisas básicas podem não ter aplicação hoje, mas terão amanhã: sem a mecânica quântica você não estaria lendo esse blog, pois não existiria a microeletrônica, e também estaríamos atrasados na química, na biologia e na medicina (esqueça o diagnóstico por imagem, por exemplo). 

Sem o desenvolvimento da matemática, em áreas como a lógica e a criptografia, não teríamos a computação. Nada do que você usa existiria, não fosse pelas muitas pesquisas que criaram uma base para permitir o desenvolvimento dessas. E já que eu falei em matemática, neste post no Math Overflow encontrei uma lista de aplicações de diversos tópicos da matemática: divirta-se.

Todas essas áreas não tinham aplicação, ou mesmo não existiam, até uns 100 anos atrás. Nada impede que o que não tem aplicação hoje sirva amanhã para, por exemplo, possibilitar viagens no tempo, o teletransporte, ou (sendo mais realista) uma nova forma de projetar equipamentos, de diagnosticar e curar doenças, etc...

E por sinal, muitas dessas teorias nasceram da necessidade de resolver problemas reais. Surgiram da necessidade de justificar fenômenos que a teoria anterior - embora correta até certo ponto - não explicava, ou do desejo de uma forma mais eficiente de resolver um problema. A pesquisa básica realimenta a pesquisa aplicada, e vice-versa.

Infelizmente, essa mentalidade já faz parte de uma cultura imediatista, onde tudo é pautado pela necessidade de dar dinheiro, de ser disruptivo, de mudar o mundo, de gerar grandes sucessos (onde define-se sucesso por ter status, ser influente e ganhar dinheiro). E que, pelo andar da geração Y e posteriores, tão cedo não vai mudar. Mas divago.

A segunda crítica (... gente morrendo de fome ...) é bem comum quando se fala em exploração espacial. Ignora-se toda a pesquisa envolvida nas missões e sondas enviadas para outros planetas. Sem a exploração espacial, você não estaria usando comunicações sem fio e você teria que jogar fora boa parte da aviação (a qual se beneficiou dos sistemas de alta confiabilidade necessários para exploração espacial) - além de outras áreas onde são usados sistemas críticos.

Além disso, essa crítica coloca nos cientistas uma culpa que não é deles, ao mesmo tempo em que ignora que os governos cada vez mais reduzem seus orçamentos para ciência, ignora as dificuldades do fazer ciência, entre outros problemas de um pensamento imediatista. Ignora que a fome e outros problemas da humanidade, em si, é um problema principalmente social, político e econômico, não tecnológico.

E para piorar, ignora todos os benefícios da pesquisa científica a um país que nela investe: formação de profissionais capacitados, desenvolvimento de infra-estrutura etc...

Nenhuma pesquisa bem-feita (ignorando, obviamente, a pseudociência, a pesquisa feita sem planejamento adequado, sem rigor e sem objetivos claros etc...) serve para nada. Na pior das hipóteses, abre caminhos para novas pesquisas; mesmo um resultado de falha pode sinalizar o que não deve ser feito, o que não funciona. Pode ser que não se descubra um caminho novo, mas demonstra quais caminhos são sem saída.

Nem tudo requer uma aplicação instantânea: precisamos - como nunca - da pesquisa básica. É ela que, como o seu próprio nome diz, fornece a base para a inovação tecnológica; fornece ferramentas que poderão ser utilizadas em diversas áreas do conhecimento.

(Foto: Horia Varlan/Flickr, licenciada sob Creative Commons)

sábado, 30 de novembro de 2013

"Review": Moto G

Meu Galaxy Ace morreu há um tempo atrás. Fiquei sem smartphone por um tempo, considerei vários modelos (Razr D3, Razr I, Nexus 4, Optimus L5/L7, e até pensei em dar uma chance à Nokia e seu Windows Phone) e felizmente eu não me precipitei em comprar: apareceu o Moto G.
tl;dr: Pelo preço, considero que é um ótimo aparelho (eu paguei a mesma coisa no meu antigo Ace lá em 2011). 

A maioria dos aplicativos roda perfeitamente (o único que rodou de forma não-ideal foi o Google Earth: notei lentidão no Street View), embora eu não tenha testado jogos pesados: testei Angry Birds, Candy Crush e mais alguns outros.

Não tive problema de crashes; talvez seja muito cedo para dizer, mas não tive problemas de travamento do aparelho (se comparar com o Ace, que bastava olhar torto para travar ou ficar lento).

O Android 4.3 dele é bem padrão, limpo, não padece das modificações realizadas por outros fabricantes. Integra perfeitamente com os serviços do Google.

A câmera é adequada: ao dar zoom na foto fica fácil ver que ela ficou pixelada, que ela perdeu detalhes. Para a maioria dos usos de smartphones (tirar fotos de comida para botar no Instagram e fotos no espelho para colocar no Facebook - aliás, nem precisa de foto no espelho devido à câmera frontal), é razoável. Bem que a Nokia podia licenciar a tecnologia de câmeras dela para os outros fabricantes ou largar o Windows Phone. Alguns exemplos de fotos tiradas com ele:





A câmera frontal não serve para muita coisa, a qualidade dela é baixa. Serve, no máximo, para tirar selfies para colocar no Facebook ou para conversar com vídeo no Skype. Exemplo de foto tirada com ela:

O que eu gostei:

  • Primeiramente: Android 4.3 com garantia de atualização para o 4.4. Só isso já foi um fator pesado na compra.
  • Desempenho excelente.
  • Android limpo (não vem com um apps, a única coisa que vem nele - além dos aplicativos Google - é o (HUEHUEHUEHUE BR BR) BR Apps necessário para a isenção fiscal).

    Justamente isso evitou a necessidade de fazer root: lembro que a primeira coisa que eu fiz no meu Ace foi rootear para arrancar as apps que a Samsung enfia.
  • Duração de bateria. 30 minutos ouvindo música e navegando na internet via 3G e a bateria foi de 100% para 90%: no meu Ace ela já estaria em 70% no máximo. Para um perfil de usuário médio, a bateria aguenta facilmente um dia inteiro.
  • Reconhecimento de voz funciona bem, embora seja um tanto quanto desconcertante falar sozinho e o OK Google Now não seja suportado devido ao hardware necessário (é necessário entrar na app do Google Now).
  • O GPS conseguiu encontrar os satélites com facilidade, coisa que no Ace levava minutos. 

O que eu não gostei:

Obs.: Não vou colocar 'não aceita SD' por que eu comprei ele sabendo dessa limitação, não foi surpresa alguma.
  • O principal problema: suja fácil. É quase obrigatório andar com um paninho para limpeza.
  • Capinha traseira horrível de tirar (só com uma faca ou uma ferramenta mesmo, é muito fácil quebrar a unha no processo).

    Como a bateria não é removível, isso não vai fazer muita diferença, mas talvez não sirva para quem troca freneticamente de chip.
  • Os fones de ouvido que vem com o aparelho são apenas aceitáveis, qualquer pessoa que queira ouvir música mais a sério vai ter que comprar um fone melhor.
  • Bateria lenta para carregar (mais de 3 horas). 

Mas são problemas (excetuando o da bateria) menores e facilmente contornáveis. Para quem usa Linux, boa sorte: ele ainda não é suportado pela libmtp (biblioteca que faz o meio de campo entre o Linux e o dispositivo) e o Android 4 não suporta mass storage (fazer o smartphone aparecer como um pen drive).

Ou seja, ele nem mesmo é reconhecido e talvez não carregue (edit: o problema se resolve se você der boot/reiniciar o PC com o aparelho conectado).  Como workaround, dá para usar o AirDroid para enviar arquivos.

O bug já está relatado: estou com a impressão que é só recompilar essa biblioteca com o device ID do Moto G, mas ainda não testei (nem sei como eu faria isso no Ubuntu sem ferrar o resto do sistema).

Tirando isso, o aparelho é ótimo. Arrisco dizer que é um dos melhores custo/benefício disponíveis no mercado brasileiro hoje (12/2013).

domingo, 6 de outubro de 2013

Da falibilidade (e outras coisas) da ciência

Recentemente, foi noticiado que uma pesquisa falsa tinha sido aceita em diversos periódicos científicos. E outros problemas nas publicações científicas não são de hoje: 5 minutinhos lendo o Retraction Watch demonstram que apenas estamos vendo a ponta do iceberg.

Para quem acompanha o mundo científico, lê artigos etc... não é de hoje: que atire a primeira pedra quem nunca esbarrou em um artigo pessimamente escrito, com introduções que não introduziam, erros graves de argumentação, gráficos e diagramas ilegíveis, desenhos que não seriam aceitos nem em uma aula na 4ª série, falta de tratamento estatístico de resultados. E o pior foi ver isso em um periódico peer-reviewed.

Existem periódicos que se dedicam a publicar qualquer coisa: pagou, passou. O seu nome aparece em um periódico parecido com o de algum de alto fator de impacto, você tem seus nanossegundos de fama, e você pode dizer que publicou internacionalmente.

Aliás, se o seu sonho é publicar algo na Nature ou Science, mas você é um mero mortal, não se preocupe: publique na Nature and Science e tenha seu artigo do lado de deliciosas pérolas, como um suposto experimento para provar a existência de matéria escura, no qual seus autores confundem matéria em uma sala escura com matéria escura!

Voltando ao ponto principal: a ciência não é infalível, não é implacável, não é isenta da possibilidade de corrupção e fraude, afinal, ela é feita por seres humanos facilmente subornáveis. Ainda fica pior quando se envolvem interesses financeiros (bolsas, financiamentos de pesquisa etc...) - tanto é que as ciências onde menos se vêem problemas éticos são as puras (matemática, física, filosofia...), visto que elas não lidam diretamente com dinheiro e um teorema ou descoberta de um novo fenômeno físico não vai gerar uma patente ou um copyright facilmente.

A revisão por pares também é feita por seres humanos: erros e omissões naturalmente acontecem, porém alguns se corrompem por interesse. Eu posso muito bem pedir para o meu amigo revisar meu artigo (leia-se: aprovar direto). Vira uma enorme troca de favores.

Soma-se a isso o fato da pressão por resultados (publish or perish), a necessidade absurda de mensurar a produtividade por meio do fator de impacto (leia-se: quantos artigos Fulano publicou e quantas vezes foi citado) e outros fatores: prato cheio para fraudes - que seriam desnecessárias se a ciência não estivesse tão profundamente metrificada.

Tudo isso foi criado, em grande parte, pela necessidade de publicar cada vez mais e de fatiar uma pesquisa em infinitas partes (a Salami Science), as quais formarão uma centopeia de citações. Oba! Meu fator de impacto aumentou!

Pela voracidade do modelo atual, perdeu-se a possibilidade de fazer uma pesquisa profunda, algo que exija anos de dedicação, algo que gere um impacto do tamanho do trabalho de um Einstein ou Darwin.

Por fim, aquele que eu julgo ser o principal problema: muitos resultados publicados não são reprodutíveis, por diversos motivos: materiais e métodos incompletos ou inacessíveis, não se divulgaram os algoritmos usados para tratamento dos dados/simulações/etc... e tampouco o código-fonte está disponível.

Embora a tecnologia já exista e seja usada com sucesso para desenvolver software/hardware livre, para colaboração entre equipes etc... poucos cientistas as adotam.

A ciência não é infalível, justamente por ser realizada por seres humanos. Mas podemos reduzir o índice de falibilidade dela: a solução para isso é a mesma solução necessária à política, à economia, etc...: transparência. Tema sobre o qual já falei antes.

Dados abertos e uso/desenvolvimento de software livre, como atividades preferenciais/mandatórias e não como a exceção. Deixar claro que o pesquisador X recebeu uma bolsa do instituto Y ou que a pesquisa sobre Y foi patrocinada pela empresa Z. Ah, e jogar fora o produtivismo e o vício em mensurar todas as atividades.


Fonte da imagem: The Puzzler | Flickr (CC BY).

sábado, 28 de setembro de 2013

Revisitando velharias: Duke Nukem 3D no Linux nativamente

Esses dias eu fui tomado pela nostalgia de jogar Duke Nukem 3D, um dos primeiros jogos que eu joguei em um PC.

Por sinal, esse foi um dos jogos que alimentou a discussão de "jogos deixam as pessoas violentas?" no Brasil: provavelmente vocês lembram do Atirador do Cinema.

Não chegamos a um consenso até hoje, e provavelmente nunca chegaremos, mas tudo bem, não é o ponto deste post. Apenas recomendo que não saiam atirando aleatoriamente por aí.

No DOSBox ficou lento (não sei por que - nunca me acertei com o DOSBox), então resolvi jogar nativamente no Linux. E de quebra, eu já teria como usar resoluções mais altas.

Quem vai fazer a mágica para nós é a EDuke32, uma port da engine do Duke Nukem para Linux. Foi testado no Linux Mint 15, mas provavelmente funciona nas outras distribuições, em último caso vai ser necessário compilar. E funciona em Windows/Mac também.

Primeiro, você obviamente vai precisar do jogo. Não vou colocar links de download aqui mas se acha facilmente no Google.

Após, instale a EDuke32. No Mint/Ubuntu, coloque no /etc/apt/sources.list:

deb http://apt.duke4.net quantal main
deb-src http://apt.duke4.net quantal main

e adicione a chave pública do repositório deles:

wget -q http://apt.duke4.net/key/eduke32.gpg -O- | sudo apt-key add -

Para outros sistemas siga as instruções do site.

Então, instale o pacote eduke32. Para verificar se o programa instalou, execute ele. Não vai adiantar nada: você não tem o jogo instalado, então feche: ele já criou os diretórios adequados.

Agora, copie o arquivo duke3d.grp do jogo para o diretório .eduke32 na home. Execute-o novamente, e na aba Game escolha a opção adequada.

Agora... clique em Start e let's rock com o mesmo jogo que você jogou várias vezes no seu computassauro há uns anos atrás.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Comendo comida de cachorro

Calma: este não é um post sobre dietas bizarras ou sobre gente com hábitos alimentares estranhos. Tampouco descrevo minhas experiências com o já citado alimento.

Em informática, existe um conceito chamado dogfooding (literalmente: comer sua própria comida de cachorro). Em português não há expressão similar, até onde eu sei (exceto talvez provar do próprio veneno, mas dogfooding não tem a conotação negativa desta).

Trata-se de uma empresa (de tecnologia, geralmente) usar seu próprio produto no dia-a-dia, em todas as etapas de desenvolvimento. Acho que todo mundo aqui acharia graça se a Microsoft não usasse Windows na maioria dos seus computadores ou se a Apple desse um smartphone da Samsung para cada um dos seus funcionários [1]. E ninguém compraria de uma empresa de informática que usasse máquinas de escrever.

Da mesma forma, o dogfooding expõe problemas reais que acontecem no uso de um produto e que podem passar despercebidos por testes, especificações e outros. Serve para a gerência ver (até certo ponto) como o usuário final irá empregar o produto. Foi dessa forma que a Microsoft, entre outras, revelou (e revela) vários bugs no Windows: todos os desenvolvedores deles são obrigados a usar o ambiente que eles estão desenvolvendo.

Em qualquer indústria é fácil de ver isso. Os fabricantes de um produto confiam nele? Além de fazer propaganda, eles consomem seu produto? Já vi restaurantes onde o dono não comia lá: óbvio que eu fui em outro lugar. Já vi desenvolvedores que não usavam seu próprio produto e, portanto, ignoravam problemas óbvios. Inclusive, já fui um desses.

Muitas vezes, quando eu pego um manual de instruções ou um livro, eu fico tentando decifrar o que seus autores escreveram: pergunto se eles tentaram se instruir pelo que eles mesmos escreveram. Ficou claro que não.

Mas esse conceito pode ser aplicado para muito além da tecnologia. Basta ver a quantidade de discursantes que não comem sua própria comida de cachorro: deixam para os outros cumprirem o que eles querem que seja cumprido, mas não cumprem o que eles mesmos pregam.

Falam um monte, prometem um monte, e até mesmo fingem que cumprem até a hora em que a situação aperta: é fácil falar de honestidade até que ela é posta à prova. É fácil dar um discurso inflamado contra X ou Y, mas usar esse mesmo X ou Y às escondidas. É bem comum falar que não tem preconceito até a hora em que se... tem preconceito.

Evidentemente, a maioria das pessoas não come a sua própria comida de cachorro. Elas deixam para que os outros a comam, mesmo que ela não alimente (como é o caso da maioria dos discursos recheados de platitudes) ou esteja estragada.

A maior prova de honestidade é comer sua própria comida de cachorro. É gostoso (ou não, depende da mão do cozinheiro) e faz bem. Na melhor das hipóteses, ela permite a alguém refinar seu trabalho; na pior das hipóteses, desmascara.

(Fonte da imagem: slava/Flickr - e aliás, notar semelhança com o cachorro da necessidade)

[1] No sentido estrito, esse exemplo não é o mais adequado, pois podem haver outras motivações técnicas para que um funcionário não necessariamente use os produtos da empresa. Mas aqui ele é bom o suficiente.