Uma mudança recente no vestibular da UFSM - que foi extinto e substituído pelo ingresso através do ENEM - causou revolta em vários setores da sociedade santamariense. Não vou entrar no mérito da questão social ou da qualidade das avaliações do ENEM, mas sim em outra questão: a reação de alguns órgãos daqui. Prefeitura, associações, câmaras e outros representantes de pequena parcela da sociedade.
É bastante interessante ver que apenas agora, quando se viram acuados (afinal, a fonte de lucro que era o vestibular deixou de existir), eles decidiram reclamar por alguma coisa. Falam que a UFSM é a principal dinamizadora da economia, e de fato estão razoavelmente certos, mas ignoraram os diversos problemas que já existiam aqui e que prejudicavam ela.
O primeiro deles - como qualquer santamariense está cansado de saber - é a péssima qualidade do transporte público. Entra ano, sai ano, e os ônibus continuam superlotados, atrasados e a passagem aumentando (já que nunca houve uma real auditoria na composição dos custos dela). Empresas de ônibus que operam na irregularidade ou na ilegalidade - mas não duvido que os donos delas sejam os primeiros a reclamar da corrupção e da impunidade na qual cavalgam e montam seus negócios.
E nenhuma entidade se mobiliza para melhorar essa situação: pelo contrário, qualquer manifestação sofre repressão em proporções descomunais. Aliás, como muito bem sabemos, a polícia e a justiça estão do lado dessas associações (como é de praxe no Brasil): se alguns setores forem às ruas contra essas mudanças, encontrarão os mesmos tiros, porradas e bombas que os manifestantes inconvenientes (leia-se: os que não vivem na bolha possibilitada pela riqueza do monopólio) encontram? Se algum desses empresários ou negócios da China for investigado, encontrará a mesma punição que um ladrão de galinhas encontra?
Como o transporte público falhou, o transporte particular encontra-se saturado. Existe uma alternativa que poderia desafogar - temporariamente (pois, como vi esses dias, tentar resolver o problema do trânsito aumentando as estradas é como tentar resolver a obesidade aumentando o tamanho do cinto) - o deslocamento para a UFSM, porém, ela precisa ser asfaltada. Mas, novamente, não vimos nenhum desses setores cobrar a realização desta tarefa. Ironicamente, defendem a universidade como fonte de renda para a cidade, mas não defendem a construção dos caminhos que dão acesso a elas. Falta de visão é com eles mesmos.
Também nunca vimos elas lutarem e buscarem que as cidades tenham direitos básicos garantidos pela Constituição - e que também são fundamentais para o desenvolvimento. Aliás, infelizmente essa é uma constante no país todo: muitos dos os órgãos que gozam de algum poder político apenas o usam para satisfação das suas vontades, sem preocupação com a sociedade.
Eu gostaria de vê-los com o mesmo interesse na defesa do ensino público (que permitiria que mais pessoas fizessem um curso superior), da infra-estrutura, dos direitos humanos, da cidadania. Em causas que não são diretamente interessantes aos bolsos deles e que não dão lucro. Mas isso não irá acontecer tão facilmente. Aliás, eu gostaria de não ser pessimista, mas tão cedo isso tudo não vai acontecer.
Posso estender essa crítica a toda a região e, acredito eu, à maioria das regiões brasileiras: há problemas que não cabem apenas a um ou dois municípios, mas a grupos deles. Todas as cidades que são vítimas de estradas de má-qualidade, ou de problemas ambientais, deveriam estar juntas protestando por medidas.
Porém, não há organização para cobrança de melhorias - afinal, nossa política é uma guerrinha de partidos. Combinações e alianças esdrúxulas são aceitáveis como parte de expandir o poder ou de negociar privilégios para alguns grupelhos ao custo de privar outros daquilo que lhes é de direito, mas não de lutar por melhorias de interesse social ou de corrigir injustiças e deficiências do país.
Santa Maria passou a vida toda dependendo da UFSM (paga por todos os brasileiros, não apenas pelos santamarienses, e que nada tem a ver com as vontades e caprichos dos órgãos municipais) e, dessa forma, ficou desacostumada. Por falta de infraestrutura - não apenas aqui, mas na região toda - vê oportunidades passar. Tem dificuldade em manter gente formada. E, desse ponto de vista, considero que mereceu perder o vestibular (e espero que não consigam retomá-lo): talvez agora aprenda a investir no que é necessário para o real desenvolvimento.
Opiniões e considerações sinceras sobre temas diversos, vindas de um engenheiro que escreve nas horas vagas (ou o contrário).
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sábado, 24 de maio de 2014
quarta-feira, 14 de agosto de 2013
De impostos e soluções burras/imediatistas/etc...
Recentemente surgiu a proposta - idiota, usando um eufemismo - de aumentar a carga tributária sobre os combustíveis para poder reduzir as passagens de ônibus. Solução óbvia, simples e inútil: ignora que as passagens não serão reduzidas (ao menos não como prometido) e que esse dinheiro arrecadado irá para o sumidouro do dinheiro público.
Ignora que estamos em séria necessidade de uma reforma tributária e política. Ignora que somos um dos poucos países onde a pirâmide está invertida: quanto mais pobre, mais imposto se paga. As grandes fortunas estão no exterior, estão em bolsa de valores, não estão sendo tributadas (e nem violando nenhuma lei: não é preciso ser criminoso para ser corrupto).
Ignora que aumentar os combustíveis reflete no custo dos fretes: já temos sérios problemas com infra-estrutura de rodagem e ainda criamos outro. Ignora que nem todo mundo usa carro simplesmente para fins pessoais e que, inclusive, o governo também gasta em combustíveis.
Pouco se fala em reduzir os impostos incidentes sobre o transporte público. Nada se fala em investigar os contratos com as empresas de ônibus (até por que, em nosso país, mexer com empresas e puní-las por corrupção - seja corruptora, seja corrupta - é tentar implantar o comunismo, não deixar o cidadão de bem ganhar dinheiro). Aliás, não se fala em obrigar as empresas (de todos os setores) a mostrarem suas prestações de contas.
Por sinal, temos um tabu enorme em punir empresas: desde que elas sejam grandes, ou seja, financiem campanhas, elas podem tudo que o cidadão de bem não pode. Encostar nelas é proibido, sob pena de ser tachado comunista, sob pena de sermos acusados de estarmos destruindo a economia ou o PIB não crescer alucinadamente (mesmo o PIB sendo um indicador ruim para medir o desenvolvimento de um país).
Muito menos ainda se fala em eliminar os privilégios dos políticos - o que já garantiria uma enorme economia para o país - e acabar com a propaganda estatal. Aliás, considero que o governo deveria ser proibido, por lei, de fazer propaganda: vender melhorias em algo que não melhorou é propaganda enganosa, e em se tratando de serviço público é relativamente fácil ver as melhorias (ou a ausência delas).
Não se fala em profissionalizar o serviço público, em tornar ele menos burocrático (como já cansei de afirmar, burocracia é corrupção: ninguém fura a fila que não está lá, ninguém sonega o imposto que não existe, ninguém paga para ter um privilégio que não é necessário), em punir as incompetências, os superfaturamentos e atrasos em obras de forma efetiva - coisas que qualquer empresa séria faz.
Todas ótimas soluções que não custam nada ao contribuinte - e inclusive poderiam aumentar a arrecadação de impostos, com mais gente usando esses produtos e serviços. Perde-se de um lado, ganha-se mais ainda de vários outros.
Pena que muito dificilmente essas mudanças acontecerão: nenhum governo gostará de não poder fazer propaganda. Ser político deixará de ser interessante. Uma reforma tributária geral causa menos efeito nas pessoas do que zerar o IPI dos carros. Na pior das hipóteses, vai ter gente irritada por ter perdido um suposto status quando o povão começar a ter acesso a melhorias.
Mas a solução mais simplista, mais burra está lá: um novo imposto, ou aumentar os existentes. Mesmo sabendo que essa história já cansou e não cola. Mesmo sabendo que isso é destrutivo para a economia - exceto quando beneficia as empresas amiguinhas dos candidatos.
Um argumento relativamente comum é país X tem a mesma carga tributária do Brasil e ninguém reclama. Uma comparação tão absurda que chega a dar pena. E os nossos serviços? Eles tem (ou um dia terão) a mesma qualidade do país X? Nesse país X temos superfaturamentos, atrasos em obras, licitações compradas e cabides de empregos? Muito provavelmente não: se eles acontecem, são esporádicos.
Países tão grandes quanto o nosso conseguem resultados melhores (e inclusive possuem programas sociais muito mais abrangentes, para ódio dos classe-média-sofre) com uma menor carga tributária: quem é o errado na história, eles ou nós?
Na verdade, quando se fala em melhorar o serviço público (qualquer um deles) no Brasil, existe um ciclo bem comum:
Não que o povo seja muito melhor: a solução dele muitas vezes vem em agressões, em ofensas, em palavras fortes e vazias. Eles querem uma solução - novamente - radical, imediatista e quanto mais violenta e brutal melhor. Mesmo não tendo resolvido o problema, apenas escondido ele, dá a sensação de satisfação. Mas ninguém quer sentar e discutir reais soluções, afinal não tem o mesmo prazer de dizer que fez X e Y.
Somos um país viciado em soluções simplistas, que ignoram toda a raiz de um problema, todas suas consequências e implicações. Tentamos resolver com dinheiro o que não é problema dele. Aliás, é bem comum isso vindo de certos políticos, de certos partidos: soluções imediatistas, demagógicas e - por que não dizer - burras.
Ignora que estamos em séria necessidade de uma reforma tributária e política. Ignora que somos um dos poucos países onde a pirâmide está invertida: quanto mais pobre, mais imposto se paga. As grandes fortunas estão no exterior, estão em bolsa de valores, não estão sendo tributadas (e nem violando nenhuma lei: não é preciso ser criminoso para ser corrupto).
Ignora que aumentar os combustíveis reflete no custo dos fretes: já temos sérios problemas com infra-estrutura de rodagem e ainda criamos outro. Ignora que nem todo mundo usa carro simplesmente para fins pessoais e que, inclusive, o governo também gasta em combustíveis.
Pouco se fala em reduzir os impostos incidentes sobre o transporte público. Nada se fala em investigar os contratos com as empresas de ônibus (até por que, em nosso país, mexer com empresas e puní-las por corrupção - seja corruptora, seja corrupta - é tentar implantar o comunismo, não deixar o cidadão de bem ganhar dinheiro). Aliás, não se fala em obrigar as empresas (de todos os setores) a mostrarem suas prestações de contas.
Por sinal, temos um tabu enorme em punir empresas: desde que elas sejam grandes, ou seja, financiem campanhas, elas podem tudo que o cidadão de bem não pode. Encostar nelas é proibido, sob pena de ser tachado comunista, sob pena de sermos acusados de estarmos destruindo a economia ou o PIB não crescer alucinadamente (mesmo o PIB sendo um indicador ruim para medir o desenvolvimento de um país).
Muito menos ainda se fala em eliminar os privilégios dos políticos - o que já garantiria uma enorme economia para o país - e acabar com a propaganda estatal. Aliás, considero que o governo deveria ser proibido, por lei, de fazer propaganda: vender melhorias em algo que não melhorou é propaganda enganosa, e em se tratando de serviço público é relativamente fácil ver as melhorias (ou a ausência delas).
Não se fala em profissionalizar o serviço público, em tornar ele menos burocrático (como já cansei de afirmar, burocracia é corrupção: ninguém fura a fila que não está lá, ninguém sonega o imposto que não existe, ninguém paga para ter um privilégio que não é necessário), em punir as incompetências, os superfaturamentos e atrasos em obras de forma efetiva - coisas que qualquer empresa séria faz.
Todas ótimas soluções que não custam nada ao contribuinte - e inclusive poderiam aumentar a arrecadação de impostos, com mais gente usando esses produtos e serviços. Perde-se de um lado, ganha-se mais ainda de vários outros.
Pena que muito dificilmente essas mudanças acontecerão: nenhum governo gostará de não poder fazer propaganda. Ser político deixará de ser interessante. Uma reforma tributária geral causa menos efeito nas pessoas do que zerar o IPI dos carros. Na pior das hipóteses, vai ter gente irritada por ter perdido um suposto status quando o povão começar a ter acesso a melhorias.
Mas a solução mais simplista, mais burra está lá: um novo imposto, ou aumentar os existentes. Mesmo sabendo que essa história já cansou e não cola. Mesmo sabendo que isso é destrutivo para a economia - exceto quando beneficia as empresas amiguinhas dos candidatos.
Um argumento relativamente comum é país X tem a mesma carga tributária do Brasil e ninguém reclama. Uma comparação tão absurda que chega a dar pena. E os nossos serviços? Eles tem (ou um dia terão) a mesma qualidade do país X? Nesse país X temos superfaturamentos, atrasos em obras, licitações compradas e cabides de empregos? Muito provavelmente não: se eles acontecem, são esporádicos.
Países tão grandes quanto o nosso conseguem resultados melhores (e inclusive possuem programas sociais muito mais abrangentes, para ódio dos classe-média-sofre) com uma menor carga tributária: quem é o errado na história, eles ou nós?
Na verdade, quando se fala em melhorar o serviço público (qualquer um deles) no Brasil, existe um ciclo bem comum:
- [X = Educação/saúde/transporte público/cidadania/...] está deficiente! Vamos criar um imposto e o dinheiro será investido em X! Eu prometo!
- Cria-se um imposto (que, como eu já disse, os mais pobres pagam, pois é de longa data que no Brasil os ricos efetivamente não pagam impostos). X não melhora, mesmo se jogando rios caudalosos de dinheiro nele.
- Em uma última tentativa, pede-se "10% do PIB para X!". E coloca-se 10% do PIB lá, e mesmo assim as melhorias são insignificantes: outros países fazem melhor com menos gasto.
- O governo pode colocar na sua propaganda "investimos em X!" e mostrar meia dúzia de figurinhas que supostamente comprovam o investimento. Mas para cada melhoria, houveram várias pioras.
- Opcionalmente, cria-se um programa que promete mudanças radicais - e cumpre, nos primeiros meses, até vermos que não é bem assim e que o problema é mais profundo.
- Não tem passo 6, voltamos ao passo 1.
Não que o povo seja muito melhor: a solução dele muitas vezes vem em agressões, em ofensas, em palavras fortes e vazias. Eles querem uma solução - novamente - radical, imediatista e quanto mais violenta e brutal melhor. Mesmo não tendo resolvido o problema, apenas escondido ele, dá a sensação de satisfação. Mas ninguém quer sentar e discutir reais soluções, afinal não tem o mesmo prazer de dizer que fez X e Y.
Somos um país viciado em soluções simplistas, que ignoram toda a raiz de um problema, todas suas consequências e implicações. Tentamos resolver com dinheiro o que não é problema dele. Aliás, é bem comum isso vindo de certos políticos, de certos partidos: soluções imediatistas, demagógicas e - por que não dizer - burras.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Já tinha gente acordada
Depois dos recentes acontecimentos virou lugar-comum dizer que o brasileiro acordou. E de certa forma é verdade, o povo foi as ruas, embora com causas vagas e desconexas.
Porém, muitos dos que dizem isso omitiram que os movimentos sociais já estavam acordados há um bom tempo. Eles acordaram cedo, antes do sol nascer. Estavam protestando por direitos das minorias, lutando por justiça para os mais necessitados, tentando abrir caminhos.
Só que chamavam eles de vagabundos, gente sem ter o que fazer. Diziam que os militantes não eram gente de bem, por que gente de bem estava trabalhando, e não defendendo coisas de vagabundos. Foi nessa mesa que pediram lógica circular (gente de bem não defende coisa de vagabundo por que vagabundo não é gente de bem)?
Eles diziam que as mulheres que lutavam por igualdade de direitos queriam destruir a sociedade. Que direitos reprodutivos seriam assassinato e que educação sexual iria formar uma geração promíscua. O negócio deles é o obscurantismo. E ironicamente, eles reclamam da educação, mas queriam que fosse ensinado apenas o que lhes interessava: não queriam nenhuma contradição e nenhuma discussão.
Eles diziam que os movimentos LGBT eram viadagem e que se eles tivessem direitos fundamentais teríamos que legalizar a pedofilia e a zoofilia, em um declive escorregadio perigosamente burro. Defendiam a velha família mamãe-fica-em-casa-papai-foi-trabalhar. Sempre com os mesmos argumentos. Sempre com a mesma fala do pastor.
Eles diziam que as minorias queriam viver de bolsa-esmola, que elas queriam privilégios e que elas não podiam reclamar por estarem sendo desalojadas em nome de um suposto progresso. Que quem reclamava das mastodônticas (e superfaturadas, e de enorme impacto ambiental) obras estava querendo que o país vivesse atrasado.
Eles diziam que quem era contra as religiões organizadas estava querendo expulsar Deus do país. Que era perseguição religiosa. Que não havia nada de errado em uma tal cura gay (como curar o que não é doença?) ou em um pastor servir ao dinheiro e não a Deus. Eles diziam que discurso de ódio era liberdade de expressão.
Eles diziam que eles deveriam estar protestando contra a corrupção, o que é tão específico quanto protestar pela paz ou protestar pelo meio-ambiente. Só protestar por uma causa genérica e não atacar suas reais causas: financiamento privado de campanha, especulação, burocracia etc... que, em última instância, estão intimamente ligadas ao sistema econômico, é fácil.
Para muitos deles, a corrupção, e todos os outros problemas do país, nasceram com o PT. O país era uma maravilha há 10 anos atrás e hoje é um inferno. Ignoravam toda a dinâmica do capitalismo e o simples fato de que, para existir corrupção, precisa haver corruptor. Corruptor esse que sempre sai ignorado.
E principalmente: ignoram as pequenas corrupções. Faz parte do entitlement [1] deles: eles podem cometer, afinal o governo rouba e não dá nada, ninguém vai ver, é por uma boa causa etc... afinal eles tem motivos nobres.
Eles não lembram da corrupção na hora de comprar coisa pirata, de colar na prova, de usar o telefone/carro da empresa para fins pessoais, de ganhar troco a mais, de mentir. Quando era dos outros era corrupção, quando eram eles fazendo, sempre achavam um pretexto ou uma desculpa esfarrapada.
Até antes, muitos deles achavam a violência policial algo normal e aceitável, desde que fosse contra quem eles não gostam. Desde que fosse contra "vagabundo". Desde que fosse contra ladrão de galinha, mas o ladrão rico ficava na paz assistindo tudo. Agora eles entenderam o que a periferia e as minorias estão tristemente cansadas de ver: abusos de poder constantes, provocações e violência gratuita.
O discurso de alguns deles mudou da noite para o dia. E não sei se isso é bom ou ruim. Parece ruim: mudou só por modismo, só por que agora é a minha causa, só por que agora é minha vez de brilhar, só por que agora eu posso sair gritando sem pensar. Muitos deles odiavam o Bananão até uns dias atrás, hoje dizem que um filho dele não fugirá à luta.
Já tinha gente acordada muito antes, mas eles sempre mandaram essas pessoas calarem a boca por que o discurso deles não era o que eles queriam ouvir, não condizia com a ideologia deles.
Já tinha gente acordada. Gente que acordou bem antes do sol nascer. Mas eles mandavam elas voltarem a dormir e não encherem o saco. Agora, que é do interesse da extrema direita um golpe militar (sim, eu vi gente desejando isso)e, inclusive, tem gente flertando com o nazismo - que sinceramente é o sonho de muitos deles, pois vai dar desculpa para eles eliminarem quem não presta. Não sei se realmente acordamos ou simplesmente estamos sonâmbulos e balbuciando durante o sono.
[1] Entitlement (não sei se tem tradução em português): quando a pessoa acha que tem um direito que ela na verdade não tem, e reclama quando dizem não para ela.
Porém, muitos dos que dizem isso omitiram que os movimentos sociais já estavam acordados há um bom tempo. Eles acordaram cedo, antes do sol nascer. Estavam protestando por direitos das minorias, lutando por justiça para os mais necessitados, tentando abrir caminhos.
Só que chamavam eles de vagabundos, gente sem ter o que fazer. Diziam que os militantes não eram gente de bem, por que gente de bem estava trabalhando, e não defendendo coisas de vagabundos. Foi nessa mesa que pediram lógica circular (gente de bem não defende coisa de vagabundo por que vagabundo não é gente de bem)?
Eles diziam que as mulheres que lutavam por igualdade de direitos queriam destruir a sociedade. Que direitos reprodutivos seriam assassinato e que educação sexual iria formar uma geração promíscua. O negócio deles é o obscurantismo. E ironicamente, eles reclamam da educação, mas queriam que fosse ensinado apenas o que lhes interessava: não queriam nenhuma contradição e nenhuma discussão.
Eles diziam que os movimentos LGBT eram viadagem e que se eles tivessem direitos fundamentais teríamos que legalizar a pedofilia e a zoofilia, em um declive escorregadio perigosamente burro. Defendiam a velha família mamãe-fica-em-casa-papai-foi-trabalhar. Sempre com os mesmos argumentos. Sempre com a mesma fala do pastor.
Eles diziam que as minorias queriam viver de bolsa-esmola, que elas queriam privilégios e que elas não podiam reclamar por estarem sendo desalojadas em nome de um suposto progresso. Que quem reclamava das mastodônticas (e superfaturadas, e de enorme impacto ambiental) obras estava querendo que o país vivesse atrasado.
Eles diziam que quem era contra as religiões organizadas estava querendo expulsar Deus do país. Que era perseguição religiosa. Que não havia nada de errado em uma tal cura gay (como curar o que não é doença?) ou em um pastor servir ao dinheiro e não a Deus. Eles diziam que discurso de ódio era liberdade de expressão.
Eles diziam que eles deveriam estar protestando contra a corrupção, o que é tão específico quanto protestar pela paz ou protestar pelo meio-ambiente. Só protestar por uma causa genérica e não atacar suas reais causas: financiamento privado de campanha, especulação, burocracia etc... que, em última instância, estão intimamente ligadas ao sistema econômico, é fácil.
Para muitos deles, a corrupção, e todos os outros problemas do país, nasceram com o PT. O país era uma maravilha há 10 anos atrás e hoje é um inferno. Ignoravam toda a dinâmica do capitalismo e o simples fato de que, para existir corrupção, precisa haver corruptor. Corruptor esse que sempre sai ignorado.
E principalmente: ignoram as pequenas corrupções. Faz parte do entitlement [1] deles: eles podem cometer, afinal o governo rouba e não dá nada, ninguém vai ver, é por uma boa causa etc... afinal eles tem motivos nobres.
Eles não lembram da corrupção na hora de comprar coisa pirata, de colar na prova, de usar o telefone/carro da empresa para fins pessoais, de ganhar troco a mais, de mentir. Quando era dos outros era corrupção, quando eram eles fazendo, sempre achavam um pretexto ou uma desculpa esfarrapada.
Até antes, muitos deles achavam a violência policial algo normal e aceitável, desde que fosse contra quem eles não gostam. Desde que fosse contra "vagabundo". Desde que fosse contra ladrão de galinha, mas o ladrão rico ficava na paz assistindo tudo. Agora eles entenderam o que a periferia e as minorias estão tristemente cansadas de ver: abusos de poder constantes, provocações e violência gratuita.
O discurso de alguns deles mudou da noite para o dia. E não sei se isso é bom ou ruim. Parece ruim: mudou só por modismo, só por que agora é a minha causa, só por que agora é minha vez de brilhar, só por que agora eu posso sair gritando sem pensar. Muitos deles odiavam o Bananão até uns dias atrás, hoje dizem que um filho dele não fugirá à luta.
Já tinha gente acordada muito antes, mas eles sempre mandaram essas pessoas calarem a boca por que o discurso deles não era o que eles queriam ouvir, não condizia com a ideologia deles.
Já tinha gente acordada. Gente que acordou bem antes do sol nascer. Mas eles mandavam elas voltarem a dormir e não encherem o saco. Agora, que é do interesse da extrema direita um golpe militar (sim, eu vi gente desejando isso)e, inclusive, tem gente flertando com o nazismo - que sinceramente é o sonho de muitos deles, pois vai dar desculpa para eles eliminarem quem não presta. Não sei se realmente acordamos ou simplesmente estamos sonâmbulos e balbuciando durante o sono.
[1] Entitlement (não sei se tem tradução em português): quando a pessoa acha que tem um direito que ela na verdade não tem, e reclama quando dizem não para ela.
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