Mostrando postagens com marcador informática. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador informática. Mostrar todas as postagens

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Sobre sistemas críticos, regulamentação de profissões etc...


tl;dr: Regulamentação? Sou contra. A comparação com engenharia, medicina etc... é descabida. Software crítico não é desenvolvido no GitHub por entusiastas. Seu software muito provavelmente não é crítico.

Às vezes ainda ouço discussões sobre regulamentação das profissões de informática. E vejo frequentemente, para justificar a regulamentação, a analogia com os engenheiros. Como quase-engenheiro, afirmo que simplesmente não existe como comparar o trabalho de um engenheiro com o da maioria dos desenvolvedores no aspecto da segurança do produto final.

Se uma estrutura ou um equipamento falharem, milhares de pessoas podem morrer, um país pode parar; para a maioria dos softwares, uma falha muitas vezes será um mero incômodo passageiro. (Desconsiderando gente que enlouquece quando o Facebook cai :)

Já vejo que vão falar em software crítico, então vamos ao que interessa: software crítico - aquele que lida com processos físicos de grande complexidade, vidas, grandes somas de dinheiro, etc... - não é desenvolvido por um profissional solitário: ele é desenvolvido por equipes com gente de várias áreas, que trabalham sob protocolos, legislações e normas extremamente rígidas.

Esse tipo de software passa continuamente por verificação formal, peer review e outros sistemas; uma mudança só é realizada após ficar demonstrado que ela não afeta o funcionamento de nenhuma outra parte do sistema. Testes extensivos são realizados, tanto em simulação quanto em hardware físico (muitas vezes com bancadas de teste completamente automatizadas, sem interação humana). Todas as decisões de projeto são documentadas, conforme mandam normas de órgãos reguladores e sociedades profissionais como a IEEE.

O firmware que vai num carro, num avião ou num robô cirúrgico, em aplicações onde o fabricante pode ser responsabilizado por eventuais falhas que venham a acontecer, muito provavelmente não vai ser desenvolvido por entusiastas colaborando no GitHub e coordenando atividades por um canal de IRC, nem por um time constituído apenas de desenvolvedores: vai ser desenvolvido por uma equipe de engenheiros, físicos, matemáticos entre outros. De forma interdisciplinar, cada profissional trabalhando na área do conhecimento que lhe é pertinente.

Vai ser desenvolvido em conjunto com o hardware, mantendo contato com essa equipe e com os órgãos do governo que fazem a certificação dos sistemas e subsistemas. Vai ser projetado com uma arquitetura robusta e redundante em nível de hardware: mesmo que todos os microprocessadores do meu carro parem, eu terei - ou ao menos devo ter - condições de parar ele no acostamento e acender o pisca-alerta.

O mesmo eu posso dizer do sistema pelo qual passam todas as transações de um banco, do supervisório do sistema elétrico de um país ou da plataforma que coordena todos os processos de uma grande indústria: não são desenvolvimentos que estão ao alcance dos desenvolvedores comuns, e não são projetos onde novos recursos são adicionados a todo instante.

Se sair do ar, perco o dinheiro que o AdSense me paga, um erro no banco de dados fez com que as pessoas não pudessem jogar nosso jogo ou um bug fez com que pessoas não consigam se inscrever para uma promoção não tem nada de crítico. Crítico é se sair do ar, milhões de pessoas não poderão receber seus salários amanhã, um bug fez com que um país inteiro fique sem energia, um erro no banco de dados impediu um atendimento de emergência etc....

Normalmente essas aplicações de missão crítica são áreas onde já, pela própria definição e natureza delas, não existe espaço para amadorismo ou para hacks questionáveis. E os desenvolvedores delas são as exceções altamente especializadas, não a regra. Então, não use ela como justificativa: seu software pode ser importante (e provavelmente ele é), mas ele não é crítico.

Empresas que desenvolvem sistemas críticos exigem titulação (muitas vezes mestrado ou doutorado) nas áreas de interesse. Exigem experiência comprovada e conhecimento das normas e legislações respectivas. Assim, qualquer outra regulamentação já se torna irrelevante: os contratadores efetivamente são quem regulamenta o mercado.

Outro motivo pelo qual me posiciono contra: trabalho, entre outras coisas, com desenvolvimento de software embarcado (não em aplicações críticas). Não tenho formação na área de informática: o que eu uso para meu trabalho, aprendi sozinho devido ao questionável estado do curso que faço.

Então, com uma lei dessas, pode ser que eu não possa mais exercer meu trabalho, mesmo eu tendo projetado o hardware e agora estar escrevendo o firmware ou o driver para ele. Muito bom - só que não.

Profissionais de diversas áreas podem ser, e muitas vezes são, excelentes desenvolvedores, desenvolvem várias bibliotecas e softwares amplamente utilizados, e se veriam em uma situação complicada com uma eventual regulamentação. Um médico ou um engenheiro que venha a desenvolver software para uso na sua profissão, e transforme isso em um negócio, precisa ter diploma de informática?

Temos também mais um motivo: informática é uma das poucas áreas que permite que um autodidata chegue ao mesmo nível de um profissional diplomado. Quer mexer com eletrônica? Para sair do básico, prepare-se para comprar instrumentação, montar placas de circuito impresso com componentes menores que a ponta do seu dedo etc... Seu hobby é a música? Vai ser necessário montar um estúdio, comprar instrumentos entre outros. São áreas de interesse que envolvem tempo, dinheiro, espaço, ferramental, entre outros recursos não tão facilmente acessíveis.

Já a informática? Se você está lendo esse blog, você provavelmente já tem todo o equipamento necessário: um computador e um cérebro (embora às vezes, parece que falta o segundo para alguns :). Qualquer pessoa com um mínimo de interesse pode aprender a programar, colaborar com projetos de software livre, etc.... Não me parece nada justo criar uma reserva de mercado apenas para quem tem um diploma que muitas vezes não significa nada. Nenhum dos grandes desenvolvedores atuais chegou até onde está hoje apenas com as aulas, os trabalhos e os diplomas.

E exatamente: um diploma é um pedaço de papel que significa tive aproveitamento nas disciplinas e apresentei um TCC. Mesmo que aproveitamento seja passar em tudo com a nota mínima e o TCC seja um projeto trivial. Nada diz quanto à capacidade do formando.


Mas a regulamentação vai impedir a sobrinhagem. Adivinhe? Não vai! O "sobrinho" vai comprar o diploma numa Universidade Tabajara e continuar sobrinhando. Já vi código péssimo vindo de pessoas supostamente com doutorado em Informática, e já vi código muito bom vindo de entusiastas. Assim como já vi projetos péssimos vindos de pessoas formadas em Engenharia.


Mas a regulamentação vai impedir os maus profissionais. Leia o que eu escrevi no parágrafo acima. E a regulamentação em pouco ou nada defenderá os direitos dos usuários.

Não vejo vantagem nenhuma em regulamentação das profissões relacionadas à informática, especialmente quando ela se dedica simplesmente a fechar o mercado e garantir um mercado enorme para as faculdades pagou-passou, excluindo profissionais que chegaram lá sem precisarem de 4 anos - muitas vezes perdidos, que poderiam ter sido investidos de forma melhor - de sala de aula, mas com muito mais conhecimento do que alguém que simplesmente fazia o que era pedido nos trabalhos.

Existe uma ampla diferença entre regulamentar uma profissão pela responsabilidade que ela exige, pelo risco de vida que ela envolve (que é o caso da Engenharia, Medicina etc...) e regulamentar por regulamentar ou regulamentar a pedido de um grupinho de profissionais ameaçados - que é o caso da Informática.

Nota: existem propostas muito mais razoáveis, como essa da SBC - que vai justamente contra o que certos burocratas querem: derruba por terra eventuais conselhos fiscalizadores e define liberdades no exercício das profissões de informática. 

sábado, 7 de janeiro de 2012

Reflexões sobre revistas de informática

Recentemente, estava refletindo sobre o fato da grande mídia nunca noticiar sobre o software livre e as licenças de copyleft como alternativas à pirataria, tampouco falarem sobre DRM, guerra de patentes etc.... o que me leva a algumas considerações sobre o jornalismo de tecnologia, especificamente nas revistas.

Nos anos 80 e 90, era comum vermos artigos extensivos em revistas: páginas e mais páginas de benchmarks entre diversos softwares competidores. Era interessante pois cada avaliação vinha com um comentário aprofundado, explicava a metodologia empregada para o teste e suas limitações etc... Pode ser que não fosse imparcial, mas certamente era muito melhor do que as revistas atuais. Coisas que eram extremamente bem-vindas, afinal um computador era caríssimo, a internet era inexistente ou limitada, dificultando o feedback e a troca de opiniões.

Porém atualmente, o que vemos são verdadeiras revistas de gadgets e de tendências: apps que você precisa para seu dispositivo com iOS. Como ganhar dinheiro com o Facebook ou como ser o próximo Zuckerberg. Benchmarks de notebooks caríssimos que estão fora do seu alcance (aham, Cláudia, aham que alguém gasta R$ 9 mil em um notebook). Ou mesmo revistas de fofocas: temos uma foto em baixíssima resolução do iPhone 5 e vamos especular sobre os possíveis recursos. Fulano de Tal fez tal coisa no Twitter e conseguiu 500 mil seguidores. Nada muito profundo.

Comentários mais técnicos, mais aprofundados? São raridade. Comparativos honestos entre softwares - tanto livres quanto proprietários - onde qualquer pessoa tenha acesso à metodologia usada para fazê-los? Idem: benchmarks se restringem a quantos FPS conseguimos com tal jogo. Discussões sobre aspectos éticos e sociais da tecnologia? Inexistem ou são bastante rasas - até porque discussões mais profundas provavelmente causariam a ira de muitos anunciantes - a Microsoft não gostaria de ver um anúncio seu do lado de uma matéria na qual está sendo analisada a questão do DRM e das patentes de software.

Por sinal, pergunto-me: comparativos de softwares ainda são relevantes? Talvez fossem importantíssimos na época da internet discada, onde um download de 50 MB levava uma tarde toda, mas atualmente posso baixar vários programas, instalar em máquinas virtuais recicláveis e tirar minhas próprias conclusões - tudo isso em pouco tempo. Se eu precisar de um software para alguma coisa, procuro no Google e na hora acho resenhas e comparativos; ou acompanho blogs nos quais frequentemente acho sugestões e ideias interessantes.

Finalmente, uma revista mensal é inadequada para uma área onde tudo pode mudar em questão de semanas. Não me interessa saber que mês passado saiu a versão nova de X, quando um blog já noticiou isso assim que X saiu. E tampouco adianta fazer uma "edição digital" que se comporte exatamente como uma edição física: recursos fundamentais de revistas digitais são índices, poder copiar e colar, links que funcionem. Cada vez que você gera um PDF sem índice, um bebê foca morre.

Felizmente, satisfaço essas necessidades com blogs e fóruns excelentes: Phoronix, Linux Today,  Slashdot, BR-Linux (inclusive costumo dizer que meu dia não começa sem que eu tenha lido o BR-Linux e o Slashdot), entre vários outros que leio por RSS.

Sinto falta de revistas feitas para quem emprega tecnologia profissionalmente no seu dia-a-dia. Revistas que se aprofundem em assuntos interessantes e relevantes ao usuário profissional, e não simplesmente a quem folheia um catálogo de brinquedos eletrônicos. Revistas feitas para serem apreciadas, com conteúdo para aprendizagem e aplicação, e não simplesmente para irem para a sala de espera do dentista depois que eu terminei de ler.
 
Aliás, entro no site de uma certa revista e uma das notícias mais lidas é... o lugar onde o Zuckerberg passou o Reveillon. Estou lendo uma revista de tecnologia ou uma Caras do mundo nerd? (aliás, uma revista de fofocas do mundo da informática se chamaria T.I.-T.I.-T.I.? :)




Créditos da foto: Tim Malone

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Think Indifferent

Há alguns dias comecei a ver, na mídia online, o hype formado sobre o iPad, o tablet da Apple lançado hoje (dia 27/01/2010). E o resultado já era de se esperar: me mantive na bolha da indiferença enquanto todo o mundo especulava sobre o próximo iNãoSeioQuê da empresa do Jobs.

Nessas horas, comecei a considerar os motivos que me levavam a ignorar e não ser afetado pelo campo de distorção da realidade criado por essa empresa, e cheguei aos seguintes:

1. Não tenho motivos para usar

Não sou exatamente a pessoa mais interessada em smartphones, nem tenho condições financeiras para comprar programas na App Store (nem músicas no iTunes, mesmo que o serviço estivesse disponível em nosso país). Não faço parte do público-alvo da Apple e provavelmente usaria o Mac OS X como eu uso qualquer outro UNIX-like: predominantemente na linha de comando e com aplicações livres.

Minha necessidade para qualquer forma de criação multimídia é muito baixo (programas como o GIMP, o Inkscape, o digiKam e o Audacity suprem todas minhas necessidades audiovisuais); nessas áreas sou apenas um consumidor de conteúdo (atendido, novamente, pelos programas disponíveis para Linux), o que me exclui do público-alvo de programas como os da Adobe (as principais 'killer app' para o OS X).

2. Distância financeira

Na minha situação atual (e que provavelmente se estenderá por um bom tempo) comprar produtos da Apple é inviável, tendo em vista as opções PC que encontro (e que muitas vezes permitem o reembolso da licença do Windows) por preços similares. Por exemplo, há uns dias atrás, me mostraram um modelo de MacBook (o básico) por R$ 2799, com 160GB de HD e 2GB de RAM. Ocorre que tal configuração não me atende: seria necessário, imediatamente, colocar no mínimo um HD de 250GB e 4GB de RAM, o que se traduz em cerca de R$ 400 a mais, negando o benefício.

Para o iPhone, idem: além de não ter condições para gastar tanto no dispositivo, sou usuário de celular pré-pago, assim não podendo usar o potencial todo do aparelho sem que isso incorra em um gasto inadmissível.

Também existiria a dificuldade em conseguir manutenção, ainda mais considerando que moro em uma cidade não muito grande e bastante atrasada tecnologicamente.
3. Incompatibilidade com Linux

iPhone, iPod e outros, até hoje, têm compatibilidade fraca com Linux. Eu espero poder tratar dispositivos desse tipo como mídia de armazenamento (mass storage), como recomenda a filosofia UNIX que eu tento seguir. Não gostaria de ter que usar um programa externo para passar músicas para o meu dispositivo, e nem de ter que manter uma instalação do Windows justamente para isso.

4. Falta de uma 'killer app'

Nenhum dos programas que eu uso é Mac OS X-only (aliás, muitos deles nem sequer têm versões para esse sistema), mas vários deles ou são nativos para Linux ou rodam no Wine ou sob virtualização. Assim, a migração para esse sistema seria desnecessária e até mesmo perigosa, um exercício de paciência.

5. Inflexibilidade da plataforma

A possibilidade de comprar uma máquina personalizada, com componentes escolhidos por mim, para a Apple é inexistente (a menos que se considerem os hackintoshes, de legalidade e funcionalidade questionáveis). Não permito que me obriguem a aceitar a meia-dúzia de opções que o fabricante me dá, e mais a meia-dúzia de possibilidades de upgrades. O único modelo da Apple que ainda me permitiria isso é o Mac Pro, que obviamente está fora do meu alcance.

Meu perfil de usuário não combina com máquinas all in one, nas quais o único jeito de adicionar um segundo HD é por via externa ou que não permitem a instalação de uma segunda placa de vídeo.

6. Alienação ao fabricante

Talvez esse item soe como xiitismo meu, mas com o uso de Linux e outros softwares livres aprendi a sempre questionar (e, quando possível, evitar) o uso de padrões, formatos e sistemas proprietários. Não me interessa em nada a ideia de precisar de hacks para usar o Mac OS X em máquinas não-Apple, ou de ter meu estilo de vida digital amarrado a um único desenvolvedor.

7. Incompatibilidade com meu perfil de usuário

Esse item pode ser visto como uma continuação do primeiro da lista. Aprendi - principalmente, com o uso do Arch Linux, a apreciar programas configuráveis em arquivos texto, scripts sofisticados em linha de comando, programas leves, entre outros.

Não acho que interfaces de configuração sejam ruins, desde que elas criem arquivos legíveis e façam seu trabalho de forma simples e direta. Coisas que, até onde vai meu conhecimento, não existem nos produtos da Apple: não é muito fácil configurar aplicações pela linha de comando, por exemplo.

8. Fanboys evangelizadores

Acredito que, ao lerem os 7 itens acima, vários fanboys irão vir aqui e tentar me convencer. E talvez seja essa a coisa que eu mais odeio em relação à Apple. Os incansáveis evangelistas, presos em seus campos de distorção da realidade, inventando necessidades que eu (e muitos outros usuários) não temos.

E, com incrível incapacidade de responder sobre detalhes técnicos, como sempre, se esquivando quando faço perguntas mais avançadas.

Acredito que esses sejam os principais motivos pelos quais eu não me interesso pelos produtos da Apple. E, enquanto toda a imprensa para e acompanha o mais novo lançamento da empresa do Jobs, fico com o meu think different, que faço há um bom tempo: não me deixar enrolar pelas propagandas, nem tentar me adaptar a um estilo de vida digital que em nada combina comigo.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Garbage in, garbage out (ou "pensar pra quê?")

Na computação, há um velho princípio (da época dos mainframes, vistos como máquinas pensantes, como me lembro de uma enciclopédia dos anos 70) chamado garbage in, garbage out. Basicamente, ele afirma que a saída é tão boa quanto a entrada; não existe mágica que transforme dados ruins em resultados milagrosos. Podemos generalizar esse princípio para qualquer procedimento experimental: simplesmente não há como obter resultados válidos a partir de dados inválidos sem cometermos uma fraude científica [1].

E um dos conceitos derivados é o perigoso garbage in, gospel out. É o que vejo muitas vezes por aí: uma confiança cega no resultado emitido por uma máquina que supostamente nunca está errada e que muitos acreditam ser "perfeita". A simulação, a modelagem, os algoritmos viraram verdadeiras armas mágicas, aquelas que substituem experimentos e análises e que, para alguns, nunca estão erradas.

Armas essas que podem machucar os seus usuários de forma violenta se usadas incorretamente. Basta lembrar que tais softwares têm milhares - senão milhões, ou bilhões em um futuro próximo - de componentes e linhas de código, assim sua complexidade cresce de forma assustadora. Assim, um modelo incompleto (como é o caso de componentes eletrônicos ou sistemas físicos, nos quais muitas vezes uma modelagem de baixo nível é inviável), um pequeno erro de digitação ou mesmo um atalho tomado para simplificar o código, podem esconder erros que aparecerão no imperfeito e imprevisível mundo real.

Tal comportamento, muitas vezes, vem da cultura de querer uma fórmula para tudo. Quem precisa de raciocínio e de interpretação quando existem milhões de fórmulas mágicas, nas quais basta apenas jogar os valores e, adequado à cultura da impaciência, temos ali uma resposta bonitinha? E é isso que leva a outro comportamento parecido: a dependência excessiva de ferramentas. Vejo pessoas usando calculadoras ou softwares para resolver problemas que poderiam ser executados de forma igualmente eficaz com alguns poucos cálculos manuais.

Ou mesmo passando horas chutando valores em um simulador, até obter o resultado desejado, mesmo que a solução seja impossível no mundo real, ou comentando e descomentando linhas em um código-fonte, praticando a chamada Cargo Cult Programming, tudo isso para evitar o trabalho de pensar e entender a causa do problema, e certamente não é esse o profissional que queremos ver. Em uma analogia, resolver problemas de tal forma seria similar a um "tratamento" médico no qual o profissional decide "sair cortando o paciente até achar onde está o problema".

Em um exemplo mundo-real, podemos fazer uma analogia entre um projeto feito apenas com simulações teóricas e uma pessoa que inicia um relacionamento apenas baseada em fotos e conversas virtuais. Talvez os resultados sejam os esperados, talvez completamente diferentes; talvez uma das, ou as duas pontas desanimem e decidam jogar tempo e trabalho fora.

Não quero defender o retorno às máquinas de escrever e as réguas de cálculo, mas sim que não existe solução - por mais avançada que seja - que tire do profissional o trabalho que nenhuma máquina pode fazer: o de entender o resultado e os limites das ferramentas empregadas e, principalmente, estar pronto para criticar e duvidar de tais, não servindo apenas como um mero apertador de botões.

Por mais poderosas que as ferramentas se tornem, elas não substituirão aquilo que delimita o bom profissional de um mero seguidor de fórmulas e resultados prontos: o bom-senso. E elas continuarão sendo importantes, desde que usadas com consciência de suas falhas e limitações e com a compreensão que nada substitui o mundo real para testes.

Recomendo a leitura desses artigos da coluna Rarely Asked Questions, escrita por um engenheiro da Analog Devices, fabricante de componentes eletrônicos:

1. Which carries more weight, a datasheet or SPICE macromodel? (modelagem X mundo-real)
2. What's in your toolbox? (escolha a ferramenta adequada)
3. Capable engineers should be prepared to question, and modify, anything, not just their own designs (necessidade de criticar e questionar resultados)


[1] Podemos generalizar o conceito de garbage in, garbage out para qualquer mercado: um produto ou serviço refletirá o esforço que nele foi investido e a qualidade que nele foi colocada. E o conceito de aplica-se a produtos de qualidade duvidosa endeusados pela propaganda e pela existência de grandes nomes por trás, no perfeito pensamento capitalista o que é bom para uma empresa, ou para alguém famoso, é bom para mim.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

A arte do desperdício e do mal-feito, em uma universidade federal

Terça-feira passada, eu vi um funcionário da portaria do RU (Restaurante Universitário) da UFSM navegando na Internet e jogando on-line em pleno horário de serviço. A fila crescendo rapidamente e ele bem feliz olhando fotos no Orkut e brincando no seu joguinho. Em uma máquina cuja única função é rodar um browser, que acessa uma única página. Esperar-se-ia, portanto, que houvesse um sistema de bloqueios para evitar usos indevidos.

Em outra situação, vi (e, às vezes, ainda vejo) pessoas usando as máquinas das salas informatizadas da UFSM para downloads. A conexão fica lenta para todos e, quando vejo ao lado, uma pessoa está com o 4Shared ou o RapidShare abertos, alegremente enchendo seu pen-drive ou MP3 player com músicas e fazendo com que todos os outros patetas, digo, usuários precisem esperar minutos para abrir páginas.

Ainda por cima, vejo pessoas usando os terminais de CONSULTA (cujo objetivo já é claramente informado pelo nome) da biblioteca do CT sendo usados para acesso a internet (inclusive longas visitas ao orkut e compras on-line) e digitação de trabalhos. Mesmo que eu tente ser diplomático e apenas fique esperando (e olhando torto) a pessoa entender que aquilo não é o computador da casa dela, não adianta. Ironicamente, a mesma sala informatizada está disponível para qualquer aluno que faça um pequeno cadastro, criando um login e uma senha. Teoricamente, espera-se que pessoas aprovadas em uma universidade federal tenham um pouco de bom-senso, ainda que ele não seja ensinado em cursinhos.

Nessas horas, eu pergunto: onde está a administração de sistemas? Onde está aquele mesmo sysadmin que bloqueia várias palavras-chave relevantes (por exemplo, todas as URLs com 'blog' são bloqueadas, ainda que muitos projetos tecnológicos sejam divulgados em... blogs, e tal mídia não seja mais um reduto de aix genthi, hoje meuh diah foi fodástico, beijinhas)? Onde estão as proteções contra o desperdício de banda e de recursos?

Sei, assim como todos os alunos do CT, que há um proxy perfeitamente funcional, que regula o acesso dos alunos à rede. Entretanto, nem todas as máquinas estão integradas a ele. Se isso ocorresse, poder-se-ia, por exemplo, limitar o acesso dessas máquinas de uso específico. Mas não, é mais fácil chamar um "técnico" e aplicar não-soluções (como reinstalar o sistema e nem mesmo instalar os drivers).

Mas tudo bem, nessa mesma instituição, o desperdício é uma constante. Me canso de ver papéis mofando nos murais, documentos que estão disponíveis em formato eletrônico, palestras e eventos que já passaram, ofertas de estágio de 3 anos atrás, de empresas que inclusive foram afetadas pela crise econômica. Folhas inteiras usadas para imprimir uma única frase. E o pior: folhas BRANCAS, nada de papel reciclado ou mesmo reaproveitado (a velha e extremamente eficiente técnica de usar os dois lados). Onde está, nessas horas, a tão falada consciência ambiental? Gostaria que eles aplicassem o resto zero, tão divulgado no RU, nessas circunstâncias.

Também é comum ver, nas várias bibliotecas, livros antigos, muitas vezes com conteúdos desatualizados. Alguém se interessa, por exemplo, em um livro de informática de 35 anos atrás, com exemplos em cartão perfurado? Ou em catálogos de eletrônica da década de 40, da época das válvulas e da TV preto-e-branco? Ou em livros de 100 anos atrás caindo aos pedaços? Por mais que livros antigos sejam interessantes, garanto que há coisas muito mais importantes a serem feitas do que guardar papel que poderia ser reciclado e, novamente, gerar economia que poderia ser investida nos livros novos de que a universidade tanto necessita.

E no galpão-casa de máquinas-almoxarifado da Engenharia Elétrica, que visitei esses dias, encontram-se diversos eletrônicos velhos. Alguém se interessa por um poderoso XT, ou por drives de disquete de 5¼? Ainda garanto que esses dispositivos teriam utilidade como fonte de componentes eletrônicos para experimentos diversos. Pode não ser muito, até devido à idade desses componentes pode ser difícil achar documentação, mas é muito mais interessante do que uma sala coberta com pó.

Garanto que, se fosse economizado dinheiro nessas pequenas coisas, seria possível fazer todas as compras de que a universidade tanto necessita. Seria possível trocar os livros de 40 anos atrás por alguns atuais. Seria possível atualizar o hardware e o software das salas de informática. Seria possível contratar mais funcionários para o RU (mas não funcionários que usassem os seus computadores funcionais para fins pessoais). Entre muitas outras necessidades urgentes para aquela que é, ou gostaria de ser, considerada uma das melhores universidades do Brasil.

sábado, 23 de maio de 2009

Disquetes! Muitos disquetes!

Faz um bom tempo que não uso disquetes, e nem vejo porque usaria, visto que a maioria dos computadores atuais tem USB e consegue dar boot por um pen-drive, suportado por diversos equipamentos (inclusive alguns instrumentos de laboratório que eu uso nas cadeiras práticas da Engenharia) e todo aquele blá-blá-blá de sempre. Tenho um único e solitário disquete na minha gaveta, às vezes coloco ele no drive do desktop apenas para ouvir o barulho.

E já tive a nada agradável experiência de usar uma câmera digital que gravava as fotos em incríveis 640x480 nessas mídias, que já me fizeram ter que cancelar apresentações de trabalho devido a problemas de leitura. Ou seja, a experiência de liberação dos disquetes foi algo completamente prazeroso.

Mas uma certa pessoa levou ao extremo, e montou um RAID com ... disquetes. Sim. Uma pessoa sem ter o que fazer, com uma ideia na cabeça e muitos drives USB e discos (além de um poderoso iMac de 500MHz) na mão, ou melhor, na mesa, conseguiu incríveis 4,22MB de armazenamento. Dá pra colocar uma MP3 (sim, uma só).

Agora, que tal desenterrar seus disquetes e armazenar seus dados neles? :)

segunda-feira, 27 de abril de 2009

A arte da micreiragem, parte 2 ... "o que vale é economizar".

Não é preciso ter nenhum conhecimento ou talento artístico (eu mesmo sou um desenhista de palitinhos e sei tanto de arte quanto um artista saberia de, digamos, eletrônica digital, zoologia dos invertebrados ou física nuclear), apenas um pouco de bom-gosto e critério, para reconhecermos excelentes trabalhos artísticos em vários lugares. Logo, conclui-se que o oposto deveria ser verdadeiro. Mas infelizmente, gosto é que nem braço: tem gente que não tem. E isso deve doer; não a falta de braço, mas sim a de gosto. Tudo bem, se ela não fosse amplificada pela internet, usando como meio os micreiros.

Vamos à primeira vítima do dia, um clássico que aparentemente criou vergonha na cara e sumiu, pois há vários links quebrados no site:


Você cogitaria contratar um "web design" (sic) assim para sua empresa? Lembrem-se, eles hospedam seu site em Windows Vista, com 160GB de HD e 1GB de RAM. Uma excelente plataforma para que seus dizáines sejam vistos pelo mundo todo. Tão estável quanto um elefante montado em cima de uma formiga. Ah, e eles hospedam em REDIRECIONADORES! RE-DI-RE-CI-O-NA-DO-RES! Que tal suaempresa.clic3.net? Ah, e você quer trabalhar pra eles? Legal, mas não vai ganhar nada desse protótipo de empresa.

No portfólio deles, apenas clientes top de linha, desde distribuidores de jogos piratas até bandas de heavy metal (apesar de usarem caveirinhas um tanto quanto miguxas) que preferem viver no anonimato. Apreciem.





























E, lá da terrinha do seu Manoel, vem o "Design Idiota", o ápice do design elegante, agradável aos olhos do usuário. Realmente honram o nome.














Quem é o idiota agora mesmo?


Ou esse que se orgulha de usar um Macintosh para produzir suas páginas e obras de arte, verdadeiros primores das artes gráficas. Mesmo que ele possa produzir resultados melhores em um 386 com Windows 3.1, usando Paint com um mouse de bolinha com os eixos emperrados, não, ele usa um Macintosh (ou será um "Maquintóxe")? O mais bonito do seu portfólio são os logotipos.





Ainda assim não quer contratar um designer? Faça você mesmo e economize, afinal estamos em tempos de crise econômica! No MercadoLivre você acha DVDs diversos com vetores, molduras, efeitos de vídeo, templates para páginas web ou mídia impressa, e o que mais você quiser. É claro que, conforme os autores das coleções, eles não violam direitos autorais. Mas conforme os autores das imagens que, muitas vezes, ficam anônimos por se tratar de mero download-copia-cola... deixo a sua rica e complexa imaginação completar.


Na próxima vez que R$ 120 se materializarem no meu bolso, e que eu estiver me sentindo um picareta, arrisco comprar uma coletânea dessas.

Design não é a sua área? Que tal a informática? Pois você também pode comprar uma excelente coleção de 2000 programas prontos. Monte sua empresa de informática e se auto-intitule desenvolvedor, mesmo que você ache que algoritmo é algo de comer, e a única coisa que você saiba programar seja o seu despertador. Ou compre um CD para formartar computadores, com o qual você mesmo fais isso e coloca o serial horiginal, abaixando via douloud (sic). Nada mais de pagar o técnico, aliás, agora VOCÊ é o técnico.

Fico imaginando essas ideias sendo expandidas para as outras áreas do conhecimento. Quem sabe daqui alguns anos não veremos Blu-Rays com 50 mil projetos de (Engenharia/Arquitetura/Informática/...) , sendo vendidos pelo MercadoLivre? Com eles, quem precisará aguentar as chatas e exaustivas aulas de uma faculdade, sendo que pode aprender em casa fuçando e mudando os projetos, com o Visual Studio ou o AutoCAD que ele comprou ali no camelô?

Há diversas opções de micreiros, nas mais diversas áreas do conhecimento, inclusive a melhor (ou a pior): tornar-se um deles, de forma a atender mais clientes desprovidos de gosto e de bom-senso, assim alimentando a recursividade. Ou a não-opção, a mais difícil, que é contratar (ou se tornar) um profissional de respeito e que cobre o preço adequado para seu trabalho. Mas tudo bem, em tempos de crise, o que vale é economizar.

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Linux é tão difícil assim? Será? (ou "Linux não é para todos")

Me canso de ver reclamações do tipo Linux é difícil, é muito complicado, etc.... De fato, definitivamente não é fácil para o usuário que não está disposto a aprender um sistema novo, e nem a superar seus preconceitos antes de dizer que "não gosta", ou para aquele que teve pouco contato com informática (embora essa afirmação seja questionável, pois muitas distribuições atuais de Linux reconhecem hardwares automaticamente).

Entretanto, muitos dos que reclamam são os que se dizem "hackers" (os falsos, não os verdadeiros hackers). Os mesmos que não acham dificuldade nenhuma em baixar gigabytes de programas piratas por torrent e procurar cracks em sites de procedência questionável, mas acham quase impossível baixar alguns pacotes. Os mesmos que adoram ficar lendo tutoriais de "como invadir XXX ou YYY", para eles é quase impossível ler um Read-me que explique como instalar um programa.

E principalmente: quem deveria estar disposto a sempre aprender e adquirir novos conhecimentos, posiciona-se de forma preconceituosa e ignorante. Uma pessoa assim pode se dizer "hacker"? Acho improvável. Especialmente quando eles mesmos afirmam que "o conhecimento não é crime" (como já vi um desses protótipos de hacker me afirmar, veementemente, enquanto tentava roubar senhas de alguém).

Outro grupo que gosta de reclamar são os pseudo-profissionais, vulgos micreiros. Para eles, a grana (que é o que interessa, afinal) está no Windows. Está em formatar o PC do vizinho, colocar um Windows pirata e cobrar 30 pila. Para eles, o Linux é péssimo, requer mais pensamento do que um simples clica-clica-insere o CD-digita o serial-roda o crack-clica-clica-"tá feito, dotô", e além disso não dá tantas possibilidades do usário-final ferrar o sistema (a menos que ele esteja REALMENTE interessado nisso). Ou seja, perde-se a mina de outro que é o cliente-porta (aquele que não sabe nada e, ainda por cima, não consegue aprender com os erros).

Para eles, apenas não gostar do Linux não basta. É preciso caluniar. É preciso pegar artigos de 10 anos atrás, fabricar fatos, não querer torcer um dedo para resolver um problema, tudo para demover os usuários de algo que pode ser melhor para eles, e manter sua clientela. É preciso defender a Microsoft e seus produtos a todo custo, mesmo que o micreiro nunca tenha pago por nenhum produto dela. Porque afinal, para eles, é legal dizer Linux é coisa de nerd que não come ninguém enquanto ficam catando programinhas piratas, porque Deus os livre de usar um software livre, que é coisa de pobre, de comunista, afinal todos os profissionais usam o programa X ou Y, então se ele usá-lo, também será um. É aquele típico usuário que precisa do Office inteiro pra digitar trabalhos escolares, ou da suíte Adobe toda pra fazer montagens toscas.

Não adianta colocar um monte de assistentes, documentações e compatibilidades: para a pessoa que está desinteressada em aprender, e, principalmente para a pessoa que sairá prejudicada ou - no mínimo - terá que repensar sua forma de trabalho, Linux (como qualquer outro assunto) sempre será difícil. Pode parecer autoritarismo meu, mas não, Linux não é para todos. Ao menos não para pseudo-hackers e pseudo-técnicos.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Brasil, um país de vírus e ladrões... virtuais


Calma, não se desespere, não é um post reclamando da corrupção. Saiu nesse artigo, na BBC, o mapa dos países mais afetados por vírus e malwares diversos. Como já era de se esperar, o Brasil é uma das maiores vítimas dessas pragas, não só em computadores pessoais, mas às vezes em máquinas de uso compartilhado e muitas vezes promíscuo (por exemplo, lan houses).

A parte mais interessante é:

More than 91% of attacks exploiting vulnerabilities in Microsoft Office were using security holes that had been plugged by updates that had been available for more than two years.

(Mais de 91% dos ataques que exploravam vulnerabilidades no Microsoft Office estavam usando falhas de segurança que já tinham sido corrigidas por atualizações disponíveis há mais de dois anos)

Se lembrarmos que Windows e Office pirata não atualizam sem gambiarras, e se lembrarmos que por mais que tenhamos sistemas à prova de idiotas, a Natureza sempre se encarrega de produzir um idiota melhor, basta ligar os pontos e ver as causas do problema. Em especial, a segunda é crítica.

Por trás de um clique aqui para ver minhas fotos da festa ou você ganhou um prêmio, clique aqui para receber, há uma extensa rede de engenharia social, que encontra na maioria recém-incluída digitalmente (muitas vezes sem conhecimento além de entrar no MSN e no orkut e fazer downloads) suas vítimas, usando como arma máquinas desatualizadas e mal-configuradas, às vezes com a mentalidade isso é problema dos outros.

E às vezes, até mesmo no usuário que quer parecer entendido e decide procurar, nos cantos mais profundos da internet, um crack de procedência e limpeza duvidosas para um programa ou jogo (e ironicamente são esses mesmos que reclamam da dificuldade que é usar software livre, mas isso é tema pra outro post).

De nada adianta o administrador de sistema ou técnico colocar milhões de ferramentas de segurança em uma máquina ou na rede se o usuário vai simplesmente ignorar seus alertas e tratá-los "como uma chatice", desativando o anti-vírus e usando um proxy para burlar as restrições de navegação da rede. Talvez isso esteja óbvio: o culpado pela infecção, quase sempre, é o usuário. Ou tratamos o maior dos problemas ou podemos nos orgulhar tristemente de sermos um dos países mais afetados por ladrões... virtuais.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

De homofobia, sistemas operacionais, computadores e servidores de e-mail

Ao fazer uma pesquisa técnica, cheguei a conclusão: se você é homofóbico, pode deletar sua conta de e-mail, pare de usar a internet e, e por fim, jogue seu computador no lixo. Parece um non-sequitur e uma agressão qualquer? Pois bem, pense duas vezes depois de conhecer as pessoas a seguir. Conforme a Wikipédia, em tradução do autor:

Eric Paul Allman (nascido em 1955) é um programador dos EUA que desenvolveu o sendmail e seu precursor, delivermail, no fim dos anos 70 e começo dos anos 80 na UC de Berkeley.

Para os não-nerds na plateia, uma pequena e rápida explicação: o sendmail é um dos MTAs (servidores de e-mail) mais usados na Internet, com cerca de 30% de uso, e inspirou o projeto dos outros sistemas de e-mail atuais.

Ainda não viu a relação ou o motivo da afirmação do primeiro parágrafo? Pois ela ficará evidente no próximo parágrafo:

Allman, que é um gay assumido, vive em Berkeley, Califórnia com seu parceiro de há mais de 20 anos, Marshall Kirk McKusick...

Ou seja, há grandes chances daquele e-mail que você mandou "xingando aquela bicha filha da puta" ter passado por um programa criado, entre outras pessoas, por um homossexual.

Tá, mas sem e-mail dá pra sobreviver!, um homofóbico protesta ali no fundo. Vamos à próxima pessoa, M.K. McKusick, parceiro de Allman.

Ele é um dos desenvolvedores do FreeBSD, um dos sistemas operacionais mais usados na internet, por trás de muitos sites. Basta ver aqui e procurar os BSD. No momento em que esse artigo foi escrito, 26 dos 50 servidores, ou seja, 52%, rodava BSD. Muitos serviços e provedores de internet também usam essa mesma plataforma. Ou seja, como no caso do e-mail, grandes chances dos seus pacotes de dados terem entrado em contato com um programa com uma parte criada por um "viado".

Algum homofóbico ainda não se convenceu da hipocrisia que comete ao ler esse blog? Pois bem, Alan Turing, o pai da Ciência da Computação (suas teorias sobre a computabilidade e a inteligência artificial, noção criada por ele, são estudadas até hoje) também era um dos "viadinhos". Um dos maiores gênios que a Criptografia já viu, quebrou o segredo da máquina Enigma usada pelos nazistas e, por meio desse conhecimento, incentivou o projeto do Colossus, o primeiro computador digital programável do mundo, usado para quebrar códigos (interesse militar naquele período).

Mas teve sua carreira decepada em nome da homofobia. À época, a homossexualidade era um crime e uma DOENÇA MENTAL na Inglaterra, portanto, ele foi obrigado a largar seu posto de pesquisador e ser convertido à heterossexualidade (o "normal" à época). Resultado? Cometeu suicídio, deixando um enorme legado, entre os quais, muita coisa do que hoje chamamos de, e que muitos estudam na Ciência da Computação.

Teoricamente, os homofóbicos que se prezam nunca deveriam ler esse artigo (afinal, se eu fosse um, me sentiria ofendido pelo fato dos meus pacotes de dados terem passado por uma "bichinha"). Mas espero que, se tiverem lido, vejam que, se as "bichinhas desgraçadas" tivessem sido "exterminadas", eles nunca teriam uma internet para disseminar todo seu homossexualismo internalizado reprimido. :)

There is some sort of perverse pleasure in knowing that it's basically impossible to send a piece of hate mail through the Internet without its being touched by a gay program. That's kind of funny.

Há um prazer meio pervertido no fato de que é praticamente impossível enviar um e-mail de ódio pela internet sem ele ter sido tocado por um programa gay. Isso é meio engraçado. -- Eric Allman

Algum homofóbico se sentiu ofendido? Não responda aqui no blog para não ser rotulado de hipócrita. Obrigado. :)

ouvindo: Metallica - Nothing Else Matters

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Fuja do mic(reir)o, ilustrado

Mas o meu (sobrinho/filho/amigo/etc...) que é 'craque em computador' faz a mesma coisa por (um preço fora da realidade). Todo profissional de informática ou de design (em outras áreas acontece, mas é mais raro) já ouviu essa temida frase de um cliente que só quer "economizar" (ainda mais em tempos de crise...). O cliente se refere a um profissional em abundância nos dias atuais: o micreiro.

Normalmente, o micreiro é alguém que "aprendeu sozinho, fuçando". Nada de errado com isso, eu também aprendi muito de informática e de outras áreas sozinho, "fuçando", e esse não é o objetivo desse post. Se ele mantiver esse conhecimento apenas para ele, como um hobby, e/ou tiver interesse na área, por fim se profissionalizando nela, excelente, ele está no caminho certo. O problema do micreiro é quando ele decide atuar como profissional na área que ele se acha habilitado, e cobrando por isso. Não ficou claro? Vamos para exemplos bem práticos:

O micreiro é aquele cara que vai montar uma máquina para você ou para sua empresa com peças de procedência duvidosa, instalar programas pirateados em todos os micros da sua empresa ou escritório, e depois vai desaparecer para não assumir a responsabilidade pelo ocorrido, no caso da fiscalização bater na sua porta ou de uma peça sem garantia estragar.

É aquele que vai dar um jeitinho para fazer tudo que o cliente quer, para atender às especificações mais vagas possíveis (eu quero que faça que nem o daquela empresa, ainda que "aquela empresa" seja uma multinacional com 50 mil funcionários em 30 países e o cliente seja uma microempresa com 10 funcionários em uma mesma sede), mesmo que seja impossível ou absurdo. Fazendo uma gambiarra ali, outra aqui, ele atende às necessidades. Especificar os requisitos é para os fracos.

É ele que vai montar a sua rede passando fiozinho, com material de má qualidade (porque o cliente quer economizar, oras), clicando OK e ativando tudo que puder pendurar no mesmo servidor, e deixando tudo aberto, tudo inseguro, e na hora que der problema ele vai mandar formatar tudo e reinstalar, porque deu hacker. Segurança da Informação e projeto de redes, quem precisa disso?

É ele que vai desenvolver o sistema da sua empresa copiando e colando códigos de tutoriais e de outros programas, em algumas vezes desrespeitando as licenças de softwares, assim criando aquele programa que só ele consegue dar manutenção e garantindo o emprego dele. Algoritmos? Modelagem de dados? Lógica de programação? Análise de sistemas? Interação homem-máquina e usabilidade? Isso é para os fracos. Estudar Ciências da Computação ou Sistemas de Informação pra quê, se é possível aprender a programar com uma "apostila hacker"?

No design, é ele que, para desenhar uma logomarca (pleonasmo [1]) ou fazer um site, vai pegar o nome da sua empresa e sujar com toneladas de efeitos especiais e 37 degradês diferentes feitos no Photoshop (pirata, é claro). Para fazer um anúncio ou uma publicação? Fotos tiradas em celular, imagens de baixa resolução, e é claro, mais efeitos especiais. Afinal, o cliente pede, o cliente recebe. Dane-se a a estética e o bom-senso, o que importa é uma logomarca enorme e o telefone demarcado por setinhas rosa-pink piscando, e que as pessoas da propaganda fiquem "iguais as da revista".

E principalmente, é aquele cara que vai prostituir o serviço que ele faz, de forma desleal, concorrendo com aqueles profissionais que realmente fizeram um investimento em aprendizagem, cursos, equipamento, software etc... e que constantemente estão se reciclando. Você contrataria o serviço de um arquiteto que precisasse fazer um anúncio "qualquer projeto por R$ 50" ou de um médico que "fizesse qualquer cirurgia por R$ 20" e cuja formação fosse "aprendi lendo uns sites"? Você viajaria em um avião pilotado por alguém que "aprendeu jogando Flight Simulator"? Certamente não.

Os resultados das micreiragens são essas obras, entre muitas outras:


(fonte: www.ssw.com.au)


(fonte: www.frederiksamuel.com)


(autoria própria / Worst Web Design Ever)

Programação, administração de sistemas, redes e design, entre outros não são assuntos que se aprendem em um tutorialzinho na internet ou com apenas um livro ou curso intensivo de verão. Programar é mais do que escrever código, redes é mais do que instalar servidores e fazer cabos, design é mais do que simplesmente desenhar, e administrar sistemas é mais do que simplesmente iniciar e parar serviços. Definitivamente essas, e muitas outras disciplinas, não são coisas que possam ser aprendidas com um videozinho ou um site.

Portanto, se a sua empresa vale mais que R$ 20 (e ela, sem dúvida, vale), fuja do mic(reir)o, contrate um profissional e não um picareta. E, se ele cobrar caro, não é porque ele "se acha", mas sim porque os anos de estudo e as ferramentas custaram mais do que simplesmente um programa baixado, ele realmente valoriza seu trabalho e sabe da sua complexidade.

[1] Não sou designer, mas em pesquisas cheguei à seguinte informação: Ao falarmos "Logomarca", praticamos uma enorme redundância, pois "logo e marca são meramente a mesma coisa, portanto, banam do seu vocabulário (Alexandre Wollner)

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Pelo bom uso do termo "hacker"

Ser hacker não é roubar senhas, não é usar programas piratas, não é criar páginas falsas, não é €§©®€\/€® €|\/| ©øð|gø, não é usar códigos prontos, não é mostrar a configuração do seu computador para todos seus amiguinhos. Não é rotular os outros de "n00b babaca fdp", nem é "ownar". Esses são os lammers, com uma necessidade de aceitação, de ser da elite, de mostrar para os amigos a sua dificuldade em canalizar seu potencial, mesmo que para isso seja preciso apelar para a humilhação.

Hackers não são vândalos. Hackers não são criminosos. Hackers não estão interessados no seu Orkut, no seu e-mail ou no seu MSN. Hackers não querem números de cartão de crédito nem senhas de banco. Hackers não querem informações militares ou segredos industriais. Hackers não querem vingança. Esses são os crackers, criminosos que decidem usar uma fachada e sujar o nome de um movimento para encobrir suas atividades, talvez por imaturidade para responder por seus próprios atos.

Hackers são apenas pessoas curiosas, como todos nós certamente já fomos (e deveríamos ser). São pessoas diferentes, críticas, questionam, pensam e agem diferente, não seguem padrões culturais. Não seguem a mídia, não se apegam a marcas, não seguem modismos, não se deixam levar por ilusões, nem por publicidade, nem por discursos vazios.

Não somos os "seres do mal" que a mídia decidiu criar, baseada em um conjunto de ideias incorreto. Por favor, não nos discriminem, assim como vocês não discriminariam uma pessoa que segue outra filosofia de vida. Não temos uma faixa de idade específica, somos de diversas partes do mundo, temos muitas profissões, muitos estilos, crenças, ideologias políticas, histórias de vida e realidades diferentes, somos um grupo que não possibilita a generalização.

Ainda que sejamos rotulados anti-sociais, esquisitos, feios, fora da moda, não nos importamos. Não são os rótulos que mudarão nossa atitude, pois não somos reprimíveis, não somos manipuláveis, não somos submissos, não somos produtos fabricados em série para que uma máquina venha e nos injete ideias desgastadas e programe comportamentos. Cada um de nós tem opiniões, gostos e desgostos, amores e ódios, admirações e rejeições, momentos felizes e tristes, momentos de bom-humor e momentos de seriedade, direitos e deveres, sonhos e pesadelos. Como qualquer pessoa teve, tem e sempre deve ter, sem se deixar suprimir pelas felicidades artificiais.

Saiba que, por trás de todo o conhecimento que temos hoje e das inovações que surgem a cada dia, há um hacker. Uma pessoa que não teve medo do "ser difícil". Uma pessoa que não teve medo de procurar respostas. Uma pessoa que não aceitou uma mera imposição. Uma pessoa que enxergou além do óbvio e do senso comum. Uma pessoa que, num determinado momento, enxergou uma oportunidade, um potencial. Uma pessoa que, onde os outros viam um "não há saída", viu uma possibilidade. Uma pessoa que dedicou seus esforços para tentar descobrir a origem de um problema, a causa de uma doença, a mistura de materiais exata para uma estrutura, o conjunto de valores que resolvia um problema, a mistura de substâncias que possibilitava uma reação, a teoria para explicar um acontecimento e prever suas consequências, entre outras inúmeras respostas. Todos foram hackers, em uma ou muitas áreas do conhecimento.

Que, nas mais diversas áreas do conhecimento, fomos nós que formamos revoluções. Não as violentas, marcadas por guerras e revoltas, mas sim as culturais e as do poder: não aquele ganancioso, imperialista, que leva à necessidade de dominar, mas sim o do conhecimento, o do pensamento. Um poder que todos nós temos, mas muitas vezes infelizmente não praticamos, preferindo trocá-lo pela força bruta e pela auto-destruição.

Que, talvez, esse texto não mude a opinião de muitos, talvez esse texto não chegue às mãos que manipulam e criam dogmas, redefinem palavras, fabricam preconceitos e estereótipos. Mas com certeza, esse texto representa a minha parte em uma tentativa. Uma parte pequena, é verdade, mas que todos nós podemos multiplicar, usando a mais poderosa arma que temos, uma das poucas que não deixa vítimas: nossas capacidades. De aprender, de entender, de mudar.

Mesmo assim, espero o principal: que dentro de nós, ainda que naquele pedacinho esquecido da nossa mente, viva o hacker. Não o "h4ck3r de elite" ou o bandido digital, mas sim aquela que entendo principal característica do ser humano: nosso espírito de curiosidade, de crítica, de análise. O espírito que nos leva a fazer nossa parte, ainda que muitas vezes essa tarefa seja ingrata e tenhamos que percorrer um caminho de pedras em uma noite chuvosa.

Que nunca troquemos nossa capacidade de sermos melhores, nosso respeito e nossa dignidade por um punhado de dólares ou por um brinquedinho novo. Que nunca mandemos nossos questionamentos se calarem. Que sempre estejamos dispostos a mudar. Que estejamos dispostos a progredir, apesar de muitas vezes sermos forçados à estupidez. Que sempre estejamos dispostos a reconhecer nossos erros e limitações, não os usando como forma de justificar incoerências, mas sim para transformá-los em acertos e potenciais.

Por fim, que não será o preconceito que nos fará mudar de atitudes, mas sim nós que faremos nossa parte para extinguir essa falha humana. Somos uma força, não a ser temida como vilã, mas sim para ser compreendida e respeitada, a fim de combatermos o maior de nossos defeitos: a intolerância.

np: Lacrimosa - Lichtgestalt