Recentemente, vimos o caso de uma pessoa que matou um cachorro de forma violenta, assim atraindo a ira de milhares de pessoas que clamam, com os olhos cheios de sangue, por vingança. (Quem é o animal irracional violento agora, por sinal?). É a galera metida a boazinha, a pseudo-ativista.
São os mesmos que compartilham fotos de animais mutilados, esperando uma tal "consciência" acontecer, mas logo depois colocam fotos daquele churrasco de domingo, esquecendo-se do sofrimento que ocorre na indústria da pecuária - tanto para animais quanto para os que nela trabalham, como no caso da Brasil Foods, uma das maiores produtoras de proteína animal do mundo (que orgulho para o agronegócio brasileiro!).
São os mesmos que protestam por paz, que rezam todas as noites para o fim da violência, que participam de marcha contra isso e aquilo, mas não hesitam em apontar o dedo para os outros e usar o nome de Deus ou de Jesus como racionalização de seus preconceitos. Ou mesmo desejar vingança, se igualando àqueles que eles desejam combater - cadê o Deus é amor?
Participam de marchas contra a corrupção dos outros, mas não perdem a oportunidade de passarem a perna em alguém, de mentirem para o chefe, de comprarem coisa pirata/contrabandeada e acharem que estão fazendo um grande negócio. A corrupção dos outros é um problema, a minha "não dá nada".
Reclamam de machismo, de homofobia, de falta de tolerância, de racismo, mas não perdem a oportunidade de destilarem comentários cancerígenos sobre aquele viadinho que tá andando com o filho deles, ou aquele pretinho que atendeu ele outro dia. Se é para se misturar com a gentalha, então? Impossível: eles querem produtos diferenciados para a gente diferenciada.
Plantam arvorezinhas, assinam protestos contra Belo Monte, "abraçam" uma "sustentabilidade", mas tudo é descartável, tudo é enlatado ou comprado congelado, todas as refeições têm que ter carne, e são vítimas certeiras da obsolescência programada. Desperdiçam energia, jogam lixo em lugares inadequados, produzem lixo em excesso, e depois reclamam do meio-ambiente.
Cospem um discurso pronto, que já vem de brinde com o kit-reacionário: Bolsa-Família é sustentar vagabundo com o dinheiro da sofrida classe média. País dos impostos. Bandido bom é bandido morto. Ditadura gay (estranho que nunca vi alguém dizer que as leis anti-racismo são ditadura negra ou que a lei Maria da Penha é ditadura feminina). Moral e bons costumes. Estudante que protesta é vagabundo.
(Já que eu falei em estudante que protesta é vagabundo, lembram da ocupação da reitoria da UFSM? Pois bem, muitos dos que a criticavam duramente, hoje se beneficiam daquilo que foi obtido com ela. Irônico, né?).
O pseudo-ativismo torna-se uma excelente forma de parecer engajado, consciente, e outras platitudes do mesmo naipe. E tenta arrastar ao máximo outras pessoas para seu círculo: quem não entra é irresponsável, é inconsciente, é ignorante, é tudo o mais. Tudo a ver com as palavras de amor que ele deseja, com a paz que ele tanto quer... ou não.
Opiniões e considerações sinceras sobre temas diversos, vindas de um engenheiro que escreve nas horas vagas (ou o contrário).
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quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Um Belo Monte de hipocrisia ambiental
Recentemente, vimos um movimento de atores globais protestando contra a construção da usina de Belo Monte, e disto surgiram uma sequência de respostas e contra-respostas.
Sem entrar no mérito da questão Belo Monte, posto que não tenho uma opinião completamente estável sobre o assunto (não sou muito favorável à construção dela, antes que perguntem, mas não é pela questão ambiental ou indígena) eu gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo a mídia abraçou esta causa com tanta força, com tanta vigorosidade, ao mesmo tempo em que menospreza ou nada fala sobre outros problemas ambientais?
Somos o país que mais usa agrotóxicos, e ainda somos os únicos que toleramos a pulverização destes: forma altamente poluidora de aplicação. Porém, sabe-se que eles são fundamentais para o latifúndio, para o agronegócio - o mesmo em teoria capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, mas que na prática não alimenta 5, devido à especulação e ao fato de muita dessa produção ser usada para alimentação animal - por si só um problema ambiental - e para exportação. E isto foi quantas vezes questionado na mídia? Pouquíssimas. Mas, quando o Brasil demonstra ser o celeiro e o abatedouro do mundo, a mídia toda está lá.
Só se tomam medidas quando já é muito tarde: quando surgem problemas diversos de saúde causados pelo uso incorreto destes produtos químicos, a mídia está prontinha para cair em cima e cobrar satisfações - e o governo pouco ou nada faz para punir aqueles que causaram o desastre, notadamente os órgãos que somente fornecem crédito agrícola mediante o uso de pesticidas, assim favorecendo um grupinho de marcas enquanto todos aturam o prejuízo: impacto ambiental, problemas de saúde, perda da nossa soberania alimentar etc...
Por que a grande mídia nunca fala sobre o impacto ambiental da pecuária e sobre alternativas alimentares (exceto quando o assunto são dietas milagrosas e picaretagem, digo, terapias alternativas) como alternativa ao desmatamento e à poluição causados pela produção animal?
E onde está ela na hora de defender o transporte coletivo em substituição ao transporte individual, de exigir e fiscalizar que de fato ocorram as melhorias radicais e urgentes para resolver as situações lamentáveis que vemos em diversas cidades? Por que vemos reportagens sobre meio-ambiente (ou pior, reportagens sobre congestionamentos épicos), e 2 minutos após vemos a propaganda de um novo modelo de carro, desfilando por ruas largas, absolutamente limpas, perfeitamente pavimentadas e vazias que não existem em nenhum lugar do mundo?
Por que essa grande mídia não critica o consumismo, a urbanização desenfreada, o lucro a qualquer custo, os quais também são causadores de enormes impactos ambientais e sociais? Simples: qualquer coisa que contradiga as propagandas de felicidade em 48 vezes no cartão vai contra o interesse dela. E obviamente, questionar um crescimento baseado no consumo (e auto-limitante por sua própria natureza) vai contra os interesses de quem paga milhares de reais por uma propaganda de 30 segundos no horário nobre.
Em suma, várias coisas que também causam impacto ambiental tão grande quanto, ou maior que o de milhares de usinas, passam batidas. No máximo viram uma coluna na Veja ou uma matéria do Globo Repórter - na mesma edição em que uma empresa de agronegócio ou um grande grupo industrial colocará uma propaganda olhe, estamos fazendo nossa obrigação em não poluir, logo após a propaganda de mais um carro de luxo.
Em toda essa campanha, ficou um gosto enorme de greenwashing: pintar de verde, para aumentar a audiência e fazer com que pessoas finalmente possam se sentir engajadas, que elas se identifiquem com um modelo pago para ler um script. O qual se acumula num belo monte de hipocrisias, junto com as grandes obras pintadas de verde e com as promessas de reflorestamento. Uma "sustentabilidade" enlatada, fácil de ser distribuída por ai. Uma coleção de platitudes.
Em tempo: não sou muito favorável à construção de Belo Monte pela questão da nossa defasagem quanto à eficiência energética. Iluminação pública acesa quando não é necessário, equipamentos antigos, prédios onde o uso de ar-condicionado é mandatório, gatos etc... tudo isso anulará os efeitos de qualquer nova fonte de energia, por mais limpa que ela seja. Fundamentalmente, estamos pegando o financiamento para pagar o empréstimo que pegamos para cobrir o desperdício.
Sem entrar no mérito da questão Belo Monte, posto que não tenho uma opinião completamente estável sobre o assunto (não sou muito favorável à construção dela, antes que perguntem, mas não é pela questão ambiental ou indígena) eu gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo a mídia abraçou esta causa com tanta força, com tanta vigorosidade, ao mesmo tempo em que menospreza ou nada fala sobre outros problemas ambientais?
Somos o país que mais usa agrotóxicos, e ainda somos os únicos que toleramos a pulverização destes: forma altamente poluidora de aplicação. Porém, sabe-se que eles são fundamentais para o latifúndio, para o agronegócio - o mesmo em teoria capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, mas que na prática não alimenta 5, devido à especulação e ao fato de muita dessa produção ser usada para alimentação animal - por si só um problema ambiental - e para exportação. E isto foi quantas vezes questionado na mídia? Pouquíssimas. Mas, quando o Brasil demonstra ser o celeiro e o abatedouro do mundo, a mídia toda está lá.
Só se tomam medidas quando já é muito tarde: quando surgem problemas diversos de saúde causados pelo uso incorreto destes produtos químicos, a mídia está prontinha para cair em cima e cobrar satisfações - e o governo pouco ou nada faz para punir aqueles que causaram o desastre, notadamente os órgãos que somente fornecem crédito agrícola mediante o uso de pesticidas, assim favorecendo um grupinho de marcas enquanto todos aturam o prejuízo: impacto ambiental, problemas de saúde, perda da nossa soberania alimentar etc...
Por que a grande mídia nunca fala sobre o impacto ambiental da pecuária e sobre alternativas alimentares (exceto quando o assunto são dietas milagrosas e picaretagem, digo, terapias alternativas) como alternativa ao desmatamento e à poluição causados pela produção animal?
E onde está ela na hora de defender o transporte coletivo em substituição ao transporte individual, de exigir e fiscalizar que de fato ocorram as melhorias radicais e urgentes para resolver as situações lamentáveis que vemos em diversas cidades? Por que vemos reportagens sobre meio-ambiente (ou pior, reportagens sobre congestionamentos épicos), e 2 minutos após vemos a propaganda de um novo modelo de carro, desfilando por ruas largas, absolutamente limpas, perfeitamente pavimentadas e vazias que não existem em nenhum lugar do mundo?
Por que essa grande mídia não critica o consumismo, a urbanização desenfreada, o lucro a qualquer custo, os quais também são causadores de enormes impactos ambientais e sociais? Simples: qualquer coisa que contradiga as propagandas de felicidade em 48 vezes no cartão vai contra o interesse dela. E obviamente, questionar um crescimento baseado no consumo (e auto-limitante por sua própria natureza) vai contra os interesses de quem paga milhares de reais por uma propaganda de 30 segundos no horário nobre.
Em suma, várias coisas que também causam impacto ambiental tão grande quanto, ou maior que o de milhares de usinas, passam batidas. No máximo viram uma coluna na Veja ou uma matéria do Globo Repórter - na mesma edição em que uma empresa de agronegócio ou um grande grupo industrial colocará uma propaganda olhe, estamos fazendo nossa obrigação em não poluir, logo após a propaganda de mais um carro de luxo.
Em toda essa campanha, ficou um gosto enorme de greenwashing: pintar de verde, para aumentar a audiência e fazer com que pessoas finalmente possam se sentir engajadas, que elas se identifiquem com um modelo pago para ler um script. O qual se acumula num belo monte de hipocrisias, junto com as grandes obras pintadas de verde e com as promessas de reflorestamento. Uma "sustentabilidade" enlatada, fácil de ser distribuída por ai. Uma coleção de platitudes.
Em tempo: não sou muito favorável à construção de Belo Monte pela questão da nossa defasagem quanto à eficiência energética. Iluminação pública acesa quando não é necessário, equipamentos antigos, prédios onde o uso de ar-condicionado é mandatório, gatos etc... tudo isso anulará os efeitos de qualquer nova fonte de energia, por mais limpa que ela seja. Fundamentalmente, estamos pegando o financiamento para pagar o empréstimo que pegamos para cobrir o desperdício.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Sustentabilidade como ideologia? Pensamentos
"Como eu sei que a sua empresa é amigável ao meio-ambiente?"
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."
Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.
Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.
E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.
É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.
Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.
Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.
E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria?
No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.
Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.
Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.
Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.
A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.
Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."
Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.
Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.
E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.
É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.
Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.
Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.
E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria?
No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.
Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.
Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.
Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.
A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.
Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
De engenheiros e crimes
Infelizmente, o tratamento para crimes ambientais no Brasil (e na maioria dos outros países - proteção anti-reacionário BRAZIU EH UMA MERDA MIMIMI) é frouxo. Uma multinha ali (que a empresa paga facilmente com um dia de lucro), um puxão de orelha acolá, e continua-se poluindo, desmatando etc... impunemente.
Basta lembrar do nosso abominável novo código florestal, amplamente defendido pela bancada ruralista, e das usinas faraônicas que alguns defendem (aposta quanto que elas vão ser superfaturadas e pagaremos o pato nas nossas contas?). Enquanto isso, o Brasil, fascinado pelo progresso na forma de grandes obras, e ainda embasbacado pelo pré-sal (justamente quando lá fora tenta-se cortar o vício do petróleo) deixa o potencial eólico e solar livre para quem vier de fora, mas isso é assunto para outro post.
E depois de tudo isso, pinta-se de verde. Plantam-se umas arvorezinhas aqui e acolá, não se jogam dejetos tóxicos nos rios, compram-se umas páginas numa revista para mostrar que a empresa não fez mais do que o dever de casa, faz-se uma campanha de consciência ambiental, as ações sobem, e todo mundo fica satisfeito com o suposto desenvolvimento sustentável dela. Mesmo que o ramo de atuação dessa empresa seja incompatível com a sustentabilidade. Greenwashing em sua melhor forma. E nessas horas, pergunto sobre uma categoria de profissionais envolvidos nessas empresas, a saber: engenheiros.
Toda grande empresa tem (ou ao menos deveria ter) engenheiros responsáveis pela sua operação, e vários outros participaram do projeto dela. Pergunto se são eles complacentes com os crimes ambientais da empresa, com as falhas de projeto que foram deixadas e não sanadas - assim contradizendo o Código de Ética Profissional das Engenharias, que afirma:
Porém, pouca ou nenhuma punição se vê; não lembro de ter visto nenhum caso de engenheiros perdendo seu direito ao exercício da profissão após a indústria ou empresa pela qual ele é responsável ser punida por crimes ambientais (ou por outros crimes cometidos no exercício da sua profissão).
Da mesma forma que um médico imprudente ou negligente pode perder seu registro profissional, o mesmo deverá acontecer com os engenheiros que deixam assinar e executar uma construção com falhas de projeto, ou uma planta (odeio esse termo, qual o problema com fábrica, unidade etc...?) que intencionalmente polui e causa impactos ambientais graves.
O mesmo é válido para a segurança no trabalho. É obrigação do engenheiro fazer valer as normas, fiscalizar o trabalho para que ele esteja sendo feito corretamente (sem espaço para gambiarras, fuga das especificações etc...), de forma eficiente e econômica. Onde está o engenheiro nessas obras, onde funcionários foram pegos trabalhando sem equipamentos de proteção?
É uma pena que, a julgar pelo modelo de crescimento que queremos ver, os impactos podem ficar para trás e serem resolvidos (com um jeitinho ali, outro aqui) anos depois, quando já começarem a prejudicar a todos, ou simplesmente quando não representarem mais progresso. E nós? Num legítimo momento Classe Média Sofre, pagando a conta das obras faraônicas e a bolsa-multinacional de cada dia (legal ver que nenhum neoliberalismo resiste a um bom presentinho de um governo), ao mesmo tempo em que acompanhamos o faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
Basta lembrar do nosso abominável novo código florestal, amplamente defendido pela bancada ruralista, e das usinas faraônicas que alguns defendem (aposta quanto que elas vão ser superfaturadas e pagaremos o pato nas nossas contas?). Enquanto isso, o Brasil, fascinado pelo progresso na forma de grandes obras, e ainda embasbacado pelo pré-sal (justamente quando lá fora tenta-se cortar o vício do petróleo) deixa o potencial eólico e solar livre para quem vier de fora, mas isso é assunto para outro post.
E depois de tudo isso, pinta-se de verde. Plantam-se umas arvorezinhas aqui e acolá, não se jogam dejetos tóxicos nos rios, compram-se umas páginas numa revista para mostrar que a empresa não fez mais do que o dever de casa, faz-se uma campanha de consciência ambiental, as ações sobem, e todo mundo fica satisfeito com o suposto desenvolvimento sustentável dela. Mesmo que o ramo de atuação dessa empresa seja incompatível com a sustentabilidade. Greenwashing em sua melhor forma. E nessas horas, pergunto sobre uma categoria de profissionais envolvidos nessas empresas, a saber: engenheiros.
Toda grande empresa tem (ou ao menos deveria ter) engenheiros responsáveis pela sua operação, e vários outros participaram do projeto dela. Pergunto se são eles complacentes com os crimes ambientais da empresa, com as falhas de projeto que foram deixadas e não sanadas - assim contradizendo o Código de Ética Profissional das Engenharias, que afirma:
Da intervenção profissional sobre o meio
VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens
e de seus valores.
VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens
e de seus valores.
Porém, pouca ou nenhuma punição se vê; não lembro de ter visto nenhum caso de engenheiros perdendo seu direito ao exercício da profissão após a indústria ou empresa pela qual ele é responsável ser punida por crimes ambientais (ou por outros crimes cometidos no exercício da sua profissão).
Da mesma forma que um médico imprudente ou negligente pode perder seu registro profissional, o mesmo deverá acontecer com os engenheiros que deixam assinar e executar uma construção com falhas de projeto, ou uma planta (odeio esse termo, qual o problema com fábrica, unidade etc...?) que intencionalmente polui e causa impactos ambientais graves.
O mesmo é válido para a segurança no trabalho. É obrigação do engenheiro fazer valer as normas, fiscalizar o trabalho para que ele esteja sendo feito corretamente (sem espaço para gambiarras, fuga das especificações etc...), de forma eficiente e econômica. Onde está o engenheiro nessas obras, onde funcionários foram pegos trabalhando sem equipamentos de proteção?
É uma pena que, a julgar pelo modelo de crescimento que queremos ver, os impactos podem ficar para trás e serem resolvidos (com um jeitinho ali, outro aqui) anos depois, quando já começarem a prejudicar a todos, ou simplesmente quando não representarem mais progresso. E nós? Num legítimo momento Classe Média Sofre, pagando a conta das obras faraônicas e a bolsa-multinacional de cada dia (legal ver que nenhum neoliberalismo resiste a um bom presentinho de um governo), ao mesmo tempo em que acompanhamos o faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
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