quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Da multiplicação de números aleatórios

Cuidado: esse post contém matemática, mas nada de muito difícil.

Essa tirinha, do Vida de Programador, fala em multiplicar dois números aleatórios para obter um número mais aleatório. Parece um tanto óbvio que isso é uma boa ideia, não?

Acontece que isso não funciona da forma esperada, e pode em alguns casos até diminuir a aleatoriedade dos números.

Não sei estatística o suficiente para provar de forma formal (e pelo que eu pesquisei isso vai inclusive cair em algumas contas meio tensas - o Mathematica inclusive não dá uma forma fechada para esse produto), mas de forma informal pode ser feito utilizando Python + SciPy, ou qualquer outra linguagem de programação.

Primeiro, geram-se 2 vetores seguindo a distribuição uniforme (a mais usada pelo 'random' das linguagens de programação). Após, multiplicam-se ambos, e o resultado não tem nada uniforme - aliás, parece mais exponencial, não? A mesma coisa com a soma. Vamos aos gráficos (n = 10000):





























Pior ainda é multiplicar muitos números aleatórios, o que gera uma tendência extrema. Esse exemplo com 6 números aleatórios (n = 500000) demonstra:















Então, tem-se que multiplicar números aleatórios modifica a distribuição deles. Pode ser que isso seja desejável ou não vá afetar nosso problema, pode ser que não: que eles adicionem um viés, por exemplo num jogo, numa simulação, ou na seleção de propagandas a serem colocadas em um site.

Números "mais aleatórios"? Só com geradores de números aleatórios por hardware, por exemplo este, ou usando dispositivos como o /dev/random. Mas não a solução do nosso querido POGramador.

O código Python? Tem aqui.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Não trabalho (nem faço seus trabalhos) de graça

Vejo muitas pessoas querendo que profissionais façam trabalhos de graça ou por preços módicos, muitas vezes usando o velho mimimi do vai ajudar pro seu currículo, vai ser bom para divulgar seu trabalho etc... Infelizmente, isso tudo não cola, ao menos não para os bons profissionais. Evidente que podemos abrir exceções para situações de pobreza, de desastres naturais etc... mas certamente quem tem acesso a internet e pede isso em fóruns não cai nessa situação

Todos os profissionais despenderam tempo e dinheiro para se tornarem o que são hoje: cursos, ferramentas, equipamento, estudo etc... e continuam investindo nisso. Temos que pagar impostos e, em alguns casos (como muitos dos cursos de nível superior), para uma associação de classe. E assinamos embaixo, assumimos responsabilidade pelo nosso trabalho e não iremos desaparecer da noite pro dia (a menos que sejamos abduzidos) deixando o pepino nas mãos do cliente.

Contraste com o moleque que faz qualquer serviço por 30 reau. Leia-se faz: suas soluções são porcarias que impossibilitam melhorias, manutenções, atualizações etc... assim dando a ele garantia que seu cliente ficará "viciado". E também, ele torna-se uma poderosa máquina de destruir mercados e lesar toda a concorrência que cobra o preço que ela considera justo pelo serviço dela - afinal, a maioria das pessoas olha primeiro... o preço, visto que elas não têm conhecimento técnico para analisar designs, códigos-fonte, projetos etc...


Você confiaria num engenheiro que vende seus serviços a 30 reau? Ou em um médico que faz qualquer cirurgia por esse mesmo valor? Eu, e qualquer pessoa sensata, não: há algo de bem errado (e bem ilegal) em um profissional que cobra menos do que seu trabalho vale. Não tenho conhecimentos para afirmar sobre as profissões da saúde, do direito etc... mas na Engenharia, o código de ética do CONFEA é bastante claro sobre isso:

Art. 10 - No exercício da profissão são condutas vedadas ao
profissional:
[...]
III - nas relações com os clientes, empregadores e colaboradores:
a) formular proposta de salários inferiores ao mínimo profissional legal;
b) apresentar proposta de honorários com valores vis ou extorsivos ou desrespeitando tabelas de honorários mínimos aplicáveis;

Para a realização de um bom trabalho, são necessários vários passos, entender o problema, procurar a solução que melhor atende às necessidades, implementá-la e garantir o seu funcionamento durante o ciclo de vida do produto, da empresa etc... e não será numa mensagem em um fórum ou no Twitter que essa consultoria se dará. Podem-se tirar dúvidas, podem-se dar ajudas pontuais, mas não podemos propor uma solução completa em 140 caracteres ou com informações esparsas fornecidas em um fórum aleatório.

Nas profissões com nível superior, a situação se agrava. Para um engenheiro, não existe fazer um projetinho, fazer um jeitinho ali, assinar uns papéis. Por mais simples que seja (ou que aparente ser) a solução de um problema, existe um trabalho no qual irei colocar meu nome e meu registro do CREA, e com meu nome nele, fica implícito que assumirei as consequências - sob risco inclusive de ter meu registro profissional cassado - se ele tiver alguma falha grave. A mesma coisa para um médico ou um advogado, creio eu.


Tampouco posso fazer gatos, gambiarras etc... para você sair ganhando de forma ilegal - novamente, existe um pequeno e importantíssimo conceito chamado responsabilidade criminal. E nem posso aceitar pagamentos para que eu tape os olhos perante esse tipo de violação. Citando o mesmo código de ética:
Da honradez da profissão
III - A profissão é alto título de honra e sua prática exige conduta honesta, digna e cidadã;
Acho que é bem óbvio que eu fazer uma mutreta para você não é "conduta honesta, digna e cidadã".

E o pior são as pessoas que se emputecem quando ouvem um não, não trabalho de graça. Para elas, você é um mente-fechada que não quer se abrir a novas experiências, que não quer colaborar com os outros etc... E não quero mesmo: não quero contribuir com quem me desvaloriza.

O mesmo se aplica aos trabalhos universitários (e escolares como um todo): quem é o aluno que tem interesse em passar? Você, não eu. É você quem tem que fazer seus trabalhos, seus projetos, seus artigos e seus estudos, sob pena de você se tornar um mero portador de diploma, e não um profissional. Ah, mas eu não sei escrever direito? Pois bem, aprenda antes que seja tarde demais - você está na faculdade, e não será expulso por perguntar para um professor ou pedir uma revisão de nota.

Você pode pedir para alguém fazer seus trabalhos na faculdade, mas não poderá pedir para alguém realizar seu trabalho depois que você estiver formado. Tampouco você vai conseguir ir longe se esses trabalhos forem meros remixes de outros que você achou no Google ou pegou com o pessoal do semestre passado, intercalados com um copia-cola daqui, um plágio dali etc... Basta lembrar que isso pode facilmente acabar com uma carreira.

Não, não trabalho de graça. Não importa qual o mimimi que você use. Não gostou? Contrate um profissional que valha os 50 reais que você quer pagar. E tampouco faço seus trabalhos, não importa o quanto você pague, a menos que você concorde em colocar o meu nome no seu diploma.

(ps: antes que venham me falar disso, serviços do tipo formato seu trabalho nas normas da ABNT ou traduzo seu trabalho/artigo não caem na situação de "faço seu trabalho")

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Saga Épica Acadêmica Integrada

Esse ano, tive que submeter (argh! odeio essa palavra! qual o problema com enviar?) um artigo para a Jornada Acadêmica Integrada (JAI) da UFSM. Resolvi - como sempre faço - submetê-lo uns dias antes do prazo final, justamente para evitar o aborrecimento de sistema indisponível que ocorreria mais para o fim do prazo. Aliás, sempre sou um dos primeiros a enviar artigos, assim que abre o prazo eu envio, e conforme vou evoluindo o artigo, reenvio.

Dito e feito: o sistema passou o domingo todo (31/07), último dia para a submissão, apresentando lentidão e dando erro (timeout, Bad Request etc...) para tarefas tão simples quanto alterar uma palavra no texto ou alterar um dado na inscrição.

Os alunos da UFSM já estão acostumados com a lentidão no Portal do Aluno na época de matrículas - sendo o sistema da JAI hospedado nos mesmos servidores (o endereço IP é o mesmo), já era algo a ser esperado. Porém, o que me surpreende é que a universidade até hoje não tomou atitudes para mitigar um problema que ocorre sistematicamente a cada semestre.

A inscrição da JAI, por exemplo, poderia ter sido colocada na nuvem ou em um hosting dedicado, que com certeza tem mais infra-estrutura que a universidade para essas situações incomuns. Evitaria todos os aborrecimentos que aconteceram até agora; e é algo tão simples, que qualquer congresso ou evento sério faz.

Essa opção se torna ainda mais relevante considerando-se que as conexões da UFSM com a internet já estão saturadas (qualquer pessoa que tenha usado em horário de pico lá sabe) devido ao grande número de usuários.

No geral, fica a mensagem: você está organizando um evento sério, para o qual você espera um grande número de acessos e inscrições? Então tenha infra-estrutura séria, para um grande número de pessoas acessando concorrentemente. E se o seu evento teve problemas com isso, aprenda a lição: melhor superdimensionar e preparar para a pior situação do que subdimensionar e ficar sendo otimista o tempo todo.




Não ficou claro? Troque 'um evento' por 'uma empresa' ou 'uma loja virtual' no parágrafo acima. Acredito que agora eu tenha me feito entender. Você se tornaria cliente de uma empresa ou loja cujo site toda hora dá erro e que não aguenta a demanda? Eu não.

Ah, mas fulano deixou para enviar o artigo na última hora. Embora seja válido e razoável o o argumento, e haja uma certa irresponsabilidade em deixar isso para o fim do prazo, ele não isenta dos desenvolvedores e administradores do site a obrigação de garantir que seu serviço funcionará de forma aceitável.

Agora, espero que eles leiam os logs (e as mensagens que o sistema diz ter enviado para os administradores) e tomem uma atitude para o próximo ano.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Se o seu site está cheio de babacas, é culpa sua

Recentemente, li este post, o qual toca em alguns aspectos bem interessantes sobre as premissas que o autor considera necessárias para o sucesso de uma comunidade virtual.

O argumento de muitos sites é o clássico não temos responsabilidade sobre os comentários postados. Ele pode ser válido de um ponto de vista legal, mas não de um ponto de vista moral: você é responsável sim pelos comentários do seu site. Você possibilitou que ele fosse usado para apologia ao crime, para promoção do ódio, e isso está no seu domínio ou no da sua empresa. 

Vamos aos 5 pontos suscitados no post:

1. Você deve ter humanos de verdade dedicados a monitorar e responder à sua comunidade

Começa por aí: muitas comunidades, fóruns etc... não possuem moderação ativa. Ter uma comunidade cheia é um símbolo de status, um e-penis. Mas a parte chata, de ler e participar ativa e sistematicamente dela, de reconhecer comportamentos e expulsar usuários bagunceiros, e ninguém quer.

As tarefas de moderação podem (e devem) ser divididas entre vários usuários, desde que eles aceitem as responsabilidades que isso implica, e não simplesmente usem isso para mostrar ó, eu sou foda, sou moderador de uma comunidade com 50 mil membros.

2. Você deve ter políticas na comunidade sobre o que é e o que não é um comportamento aceitável

Também é uma falha de planejamento das comunidades. Muitos donos e moderadores não definem regras, ou quando elas existem, não as fazem acontecer ou valer.

Aplicando ao Orkut e outras redes sociais, parte dessas regras poderia ser justamente a proibição de perfis falsos, algo que (in)felizmente irá atrair haters, pois já não se torna possível inflar comunidades (considerando que os donos das comunidades são coerentes com as regras que eles estabelecem), e para algumas pessoas que tem medo de dar a cara a tapa pela sua opinião, preferindo ficar escondidas atrás de um fake.

Outra parte dessas regras deveria versar sobre erros de linguagem, vocabulário aceitável, menção e uso de informações pessoais, e outros comportamentos relevantes.

Regras devem ser claramente definidas, em palavras exatas e simples, porém devem ser interpretadas de forma flexível, para evitar infratores tentando se esquivar e alegar que o comportamento deles não estava definido nas regras. Também não se deve poupar moderadores e usuários mais avançados delas, para evitar a ilusão de eu posso, eu cheguei aqui antes.

3. Seu site deve permitir identidades confiáveis

Novamente entra na questão dos fakes e do incrível poder da anonimidade por eles fornecida. E muitas vezes, ela é exatamente usada para fins inadequados, inclusive, várias vezes já vi pessoas que postavam anonimamente porque se eu colocar meu perfil aqui, eles vão me encher o saco.
 
Comentários anônimos são válidos em algumas situações específicas, por exemplo, proteção à identidade - o que não é o caso de uma rede social ou de um fórum, obviamente. Logo, ela torna-se injustificável e até mesmo perigosa.

O autor do post propõe o uso de pseudônimos permanentes - como vemos na maioria dos fóruns: não é necessário que o usuário mostre o seu nome, apenas é necessário que ele mantenha o seu apelido. Mas, quando necessário, não se deve ter medo de mostrar o nome real dos usuários.

Também é considerado o uso de sistemas de reputação, não baseados em pontuação ou número de posts (o que levaria muitos a floodarem ou responder 'sim' a qualquer coisinha), mas sim no comportamento do usuário. Não na quantidade, mas sim na qualidade.

4. Você deve ter a tecnologia para facilmente identificar e impedir comportamentos inadequados

Nas redes sociais mais utilizadas, essas ferramentas são limitadas ou inexistem. Mas muitos outros sites, principalmente os de notícias, usam ferramentas desenvolvidas sob medida, e não há justificativa para o não uso de buscas por palavras-chave, análises estatísticas etc... para detectar comentários irrelevantes. Inclusive, as mesmas técnicas que os filtros anti-spam empregam são aplicáveis.

5. Você deve ter condições para permitir ter uma boa comunidade, ou deve procurar outro ramo de trabalho

Evidentemente isso não se aplica para aquelas comunidades pequenas, ou para blogs pessoais atualizados apenas ocasionalmente. Mas para os blogueiros profissionais, aqueles que publicam regularmente e lucram com propaganda e parcerias no seu blog, ou para fóruns maiores, não há pretexto para não ter o mínimo de filtragem nos comentários.

E essa afirmação é muito mais válida para os grandes portais: para esses, inexiste qualquer motivo para deixar o caos consumir as suas comunidades. Dinheiro há de sobra, desenvolvedores e recursos técnicos também.

Ou mesmo, se você não tem as condições para garantir o cumprimento de todos os itens, é válido desativar os comentários - o que já é feito há muito tempo por blogs técnicos ou científicos. Dado que muito do compartilhamento hoje se dá pelas redes sociais, percebo (observação não-científica) que eles se tornam relevantes apenas para discussões prolongadas - as quais podem ser feitas em outros meios.

Isso tudo pode ser aplicado a diversos sites. Atualmente, é impossível ler os comentários do Terra, do G1, de vídeos famosos no YouTube etc... sem encontrar:

  •  Alguém conseguindo interpolar os direitos dos homossexuais ou que "viados são a abominação do diabo" (sic), ou alguém falando em Deus ou religiões. Em ambas as situações é possível constatar tentativas de burlar censores: es/cre-ve.se$ass/im, troka-ce l3tras etc...
  •  Pessoas demonstrando total desconhecimento do assunto da notícia, ou simplesmente de mimimi.
  •  Corajosos de internet posando de justiceiros e propondo soluções fantásticas e que não funcionam para os problemas.
  •  Gente que ainda acredita na história de que a internet é uma terra anônima sem leis e normas.
  •  Fanboys e hateboys duelando epicamente entre si para saber quem é mais barulhento, abafando qualquer discussão sensata que poderia vir a acontecer.

De um ponto de vista puramente comercial, essas "polêmicas" geram lucro. Geram mindshare, geram acessos etc... Isso é bom para o site, e portanto eles dificilmente vão filtrar o conteúdo - até a hora em que eles vêem sua imagem prejudicada e precisam repintá-la.

Você é responsável pelo conteúdo dos comentários do seu blog sim. Você é responsável pelo conteúdo dos anúncios dele [1], e os anunciantes são responsáveis por conhecerem o lugar onde eles anunciam - nenhuma empresa séria gostaria de ver seu anúncio em um jornal ou site que prega o ódio, certo?




Se o seu site está cheio de babacas, e você não fez seu dever de casa, é culpa sua. Não adianta chorar e dizer que a internet odeia você ao mesmo tempo em que deixa o caos imperar no seu site.

[1] Um exemplo que sempre gosto de comentar é um site ou publicação de uma organização ambiental aceitando anúncios de uma empresa do agronegócio conhecida por fazer greenwashing. Sinceramente, não consigo confiar numa organização que contradiz seus ideais por dinheiro.

Imagem do post: http://xkcd.com/386/

sábado, 16 de julho de 2011

Onde o Orkut, e seus usuários, erraram

Cada vez menos uso o Orkut. Tenho ele para ler algumas comunidades e ocasionalmente interagir com alguém que ainda não me tenha adicionado no Facebook ou que não me siga no Twitter, mas isso é raro. Considero aqui alguns motivos que me levaram a abandoná-lo: 

1. Comunidades? Que comunidades?

Adianta ter uma comunidade com 5 milhões de membros se:
  • tudo o que tem nelas são jogos do tipo "beija ou passa?", "continue a história com 3 palavras", "me add", trollagens etc... não há um fluxo de ideias real simplesmente por não existir comunidade!

Noto (observação não-científica) que comunidades on-line centradas num tema, e apenas nele, tendem a ser menores. Fóruns podem ter milhares, dezenas de milhares de usuários, com algo em comum, que é o interesse num tema - mesmo no Orkut constatamos isso, comunidades mais técnicas ou mais focadas tendem a ser menores. E essas comunidades ainda falham em alguns aspectos, básicos para qualquer sistema de discussões (fórum, mailing list, newsgroup etc...):
  •  não há uma ferramenta de "quote" (o que é necessário para a comunidade efetivamente ser um fórum), a formatação de textos muitas vezes é quebrada;
  •  os posts são limitados a 2048 caracteres (inviabiliza um texto mais longo, uma discussão mais comprida etc...);
  •  90% das comunidades são somente para membros (ou seja, quero ser um mero lurker, mas não posso, preciso engrossar a lista de usuários).
Felizmente o Orkut tomou medidas contra o roubo de comunidades, proibindo a troca de nome: antigamente essa prática era muito comum, justamente para se obter uma comunidade mais antiga. Bombardeava-se o perfil do moderador com denúncias, ou ele era vítima de algum bug ou site malicioso, e pegava-se o cobiçado prêmio: uma comunidade criada em 2005, já com 10 mil membros de brinde.

Inclusive, várias vezes já fui incluído em comunidades pornográficas, obscenas ou nada-a-ver comigo, justamente porque alguém roubou uma comunidade e renomeou.

Muitas das comunidades lá já são irrelevantes. Entrar na comunidade de algum software ou tecnologia? Para quê, se ela já possui um fórum ou lista de discussão mais abrangente, com pessoas de todo o mundo? Não vejo muito sentido.

2. No meio do caminho tinha um CAPTCHA - ou, insegurança e limitações diversas

Quero sair de um monte de comunidades ao mesmo tempo? Não posso. Estou em uma discussão e excedi um limite X de mensagens por dia? Preciso digitar um CAPTCHA. Editei o meu perfil e coloquei um link? Mais outro CAPTCHA. E assim vai.

Em outros serviços também há essas confirmações, mas elas não são comuns. Não lembro de tê-las visto no Facebook ou no Google+, por exemplo, exceto em situações muito incomuns (por exemplo, um flood de links).

Infelizmente essa medida tornou-se necessária devido ao grande número de spams, de malwares entre outros. Por um bom tempo, quando foram relatadas diversas falhas de XSS, usei o Orkut somente com o NoScript - do contrário, corria o risco de ver meu perfil "invadido", e como meu perfil ligava à conta Google, poderia perder meu e-mail (à época eu não separava contas pessoais e profissionais).

3. "Perfil lotado" ou mamãe, quero ser famoso

Já afirmei no meu Twitter que quem tem 5 mil amigos não tem amigos. Mesmo pessoas famosas, ou pessoas que lidam com pessoas, dificilmente chegam a ter tantos amigos - considero que o mais justo nesse caso seria uma fan page.

Como o Orkut não tem esse recurso, vemos celebridades virtuais (e attention whores) criando infinitos perfis. Fazem de tudo para chamar a atenção: participam de jogos me add e saem adicionando todos os novos amiguinhos, que colecionam como figurinhas num álbum. Colocam fotos pesadamente editadas em trajes provocantes, e ao mesmo tempo entram em comunidades não acho um(a) namorado(a) decente, quero amor etc...

Quer conseguir amigos, seguidores etc...? Produza conteúdo de qualidade e relevante: pode não ser tão eficiente em termos de quantidade, mas certamente gera uma rede de contatos de maior qualidade. Ou você está a fim de ter 50 mil amigos e seguidores que não dizem nada?

4. Bobajadas diversas

Scraps abestalhados e perfis coloridos: duas verdadeiras abominações. Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu um scrap piscante ou entrou num perfil que expressava toda a individualidade do dono... copiado de um site tipo "perfis prontos".

Outro problema são os fakes. Não aquele fake discreto, mas aquele que claramente é um troll usando a carapuça de uma pessoa cool. É impossível manter uma discussão inteligente com uma pessoa que esconde a cara atrás de uma foto de uma gatinha saturada no Photoshop e que reage a qualquer coisa com sarcasmo e xingamentos.

5. iscrevenu asim, everthng wrng

Diversas vezes eu já desisti de acompanhar um tópico no Orkut por causa dos erros de gramática e de ortografia cometidos. Outras vezes, já me desinteressei por alguém devido ao fato de seu perfil estar totalmente escrito em miguxês ou ela assassinar a língua.

Não é só um problema brasileiro, antes que algum reacionário BRASIL EH UMA MERDA MIMIMI INCLUSÃO DIGITAL MIMIMI, do tipo que povoa o Classe Média Sofre, venha aqui: comunidades cujo idioma principal é o inglês também padecem com pessoas (notadamente os indianos) que escrevem como quem está digitando um SMS: é 'u wrong' pra cá, 'plz add me' pra lá, 'ur good' acolá...

Isso é algo que não vejo em bons fóruns, listas de discussão etc.... Tanto em português quanto em inglês, os usuários ao menos tentam escrever corretamente - e muitas vezes conseguem, sob pena de serem rejeitados, de não receberem resposta ou mesmo de serem repreendidos.

6. "Mamãe, quero ser criativo"

Ah, se eu tivesse um real para cada perfil pronto, para cada invasão de perfil que eu vejo no Orkut... eu estaria ricaço. De tal forma que há sites dedicados a isso: expresse toda sua individualidade e a profundidade da sua amizade (tá, cansei de rimar) pegando um texto pronto, copiando, colando e só colocando o nome do seu melhor amigo.

7. Falta de consistência

Uma das coisas que sempre elogiei no Facebook é a padronização: todos os perfis têm o mesmo formato para interesses e gostos, têm direito a um username (melhor do que dizer "me procura"), todos os grupos têm os mesmos recursos etc... em uma interface simples, limpa e gostosa de usar. E é exatamente essa simplicidade que faz falta no Orkut.

O Facebook, o Google+, etc... apesar de todas as outras falhas e limitações, conseguiram - ao menos para mim - se demonstrar melhor que o Orkut, justamente por não terem os recursos problemáticos ou terem implementado eles de uma forma mais sensata. Se eles verão a suposta orkutização (a qual até hoje é um mito hipster, ao menos para mim), só o tempo poderá dizer - duvido muito, devido a curva de aprendizagem envolvida, suficiente para espantar muitos usuários leigos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Transporte Público: você está fazendo isso errado.

Recentemente, li um comentário de uma pessoa que criticava a luta do DCE da UFSM para impedir o aumento nas passagens de ônibus. Tal pessoa argumentava o que é um aumento de R$ 0,10? Eu, e mais boa parte das pessoas que usa ônibus cotidianamente nesta cidade, respondemos: é muito! Vamos a dois pequenos exemplos que já presenciei:

  • Outro dia, para voltar para casa eu tive que pegar um ônibus sobrecarregado de tão cheio (acredito eu que tinha mais de 80 pessoas), que chegava a ter dificuldade para vencer algumas subidas devido ao peso e a sua idade. Um ônibus no qual era praticamente impossível se movimentar.Fico imaginando o caos que seria se alguém lá dentro declarasse que era um assalto, ou mesmo se alguém passasse mal lá.
  • Costumo pegar o ônibus Faixa Nova devido a me poupar um quilômetro de caminhada. Ocorre que, no horário onde ele é mais necessário - ou seja, 17:00 às 18:00, há um grande vácuo na disponibilidade dessa linha, são muitos poucos ônibus para muita gente que sai nesse horário. E o mais legal de tudo, esta linha simplesmente inexiste nos fins de semana. Felizmente as provas em sábados foram banidas do meu curso, senão não conseguiria fazê-las sem depender de transporte individual.
Outro problema crônico é a limitação artificial do número de passagens que posso comprar como estudante. Se eu faço um estágio e preciso de mais passagens do que uma pessoa que somente estuda, não tenho opção senão pagar as passagens extras do meu próprio bolso. Não é o meu caso, mas é o caso de muita gente; não sei como ficou a situação com o uso do bilhete eletrônico, mas pelo que sei ela não mudou.

Sem falar nos ônibus que mudam de rota sozinhos (por duas vezes, um ônibus onde claramente estava escrito "Faixa Nova" simplesmente foi pela Faixa Velha), ou mesmo que não descem nas paradas.

Tenho medo de um dia me ver com uma perna ou um braço quebrados, usando muletas, e tendo que andar de ônibus, posto que não dirijo (e mesmo que eu dirigisse, obviamente não teria condições de fazê-lo nessa situação). Coitado de quem está machucado ou doente e precisa ir pro HUSM de ônibus.

O que são R$ 0,10 a mais? Muito, para um serviço que melhorou exatos R$ 0,00. 

Como querem que Santa Maria quer ser uma cidade moderna, quer atrair investimentos, quer ter um parque tecnológico etc... quando nem um serviço de ônibus decente a gente tem? Como querem que as pessoas usem transporte coletivo com ônibus que vão estufados e devagar-quase-parando - qual a vantagem que o ônibus, neste contexto, tem perante o carro? Nenhuma.

Faço a pergunta: quantos dos que trabalham lá na ATU de fato usam o serviço por ela administrado? Quantos dos que trabalham definindo rotas e horários conhecem a realidade dos usuários do sistema? Nunca fui ouvido, e acredito que nenhum estudante foi, na hora de planejar os horários. Estranha associação essa que não ouve seus usuários, mas depois quer impor aumentos...




Termino com um vídeo bem interessante que foi repassado pelo DCE da UFSM, com cenas que todos os usuários de ônibus já presenciaram, de certa forma:



Foto do post: http://twitpic.com/54v242 (créditos: @juliadelcarmo)

sábado, 4 de junho de 2011

A educação de verdade não interessa

Podem me chamar de pessimista, mas cheguei à conclusão que a educação no Brasil nunca será levada à sério. Por quê? Simplesmente porque um povo bem educado tem uma arma muito grande nas mãos, que é a crítica e a rejeição. A capacidade de dizer discordo de tal coisa, não preciso disso, isso está errado, a capacidade de organização e de manifestação como vimos em vários outros países. E isso vai contra muitos interesses: do governo, dos líderes religiosos, de alguns grupos de empresários etc...

Com educação boa, onde as pessoas aprendam a pensar e a avaliar os impactos de suas  atitudes no meio-ambiente e na sociedade, cai o consumismo, cai a manipulação que a propaganda tenta causar. Propagandas não funcionam contra uma pessoa que saiba desmontá-las e reconhecer todos os artifícios usados nelas, não se deixando enganar pelos estilos de vida felizes que podem ser comprados em 48 vezes. Crianças que aprendam o valor do dinheiro, do trabalho, da responsabilidade social e ambiental desde cedo? Não sobra espaço para o lucrativo filão da publicidade infantil. 

Criando pessoas críticas, que leiam e entendam o que está escrito em contratos, licenças e termos de uso, prejudica as empresas que enfiam cláusulas abusivas neles. Pessoas que conheçam seus próprios direitos e deveres e saibam defendê-los e cumprí-los, respectivamente? Perdem-se os adevogados que vemos por aí (sem desmerecer os bons profissionais), os contratos que sempre prejudicam o idiota - digo, cliente etc...

Pessoas educadas para o respeito e a tolerância não são homofóbicas, nem racistas. Não sobra espaço para o discurso de bancadas religiosas que inventam argumentos em Deus para o ódio e a intolerância. E, por sinal, a religião é uma das mais prejudicadas com um ensino de verdade: em observações pessoais (sem valor científico), noto que justamente as pessoas com maior nível cultural têm uma propensão maior ao ceticismo e ao ateísmo. Uma escola laica, que não tenha medo de mostrar o que realmente está por trás das religiões, uma escola que use e ensine o método científico em todas as atividades, é um grande pesadelo para os religiosos mais fanáticos e para o país do dízimo com débito em conta.

Aliás, uma escola sem rabo preso, onde não houvessem tabus para discutir assuntos polêmicos, seria um inferno... para os políticos, que veriam suas ideologias e suas atitudes discutidas abertamente em sala de aula. Para as elites que ainda tentam enfiar garganta abaixo um modelo ridículo de progresso, legislando a seu favor. Para quem usa o medo e a desinformação como ferramenta para controlar seus rebanhos. Uma escola onde não houvesse vergonha ou problema em discutir sexualidade, religião, drogas, sistemas econômicos, meio-ambiente etc... iria ser excelente para os alunos - em todos os aspectos, mas péssimo para vários outros setores da sociedade.




Outro fator limitante é a família do aluno. Como um pai ignorante vai lidar com um filho que chegou da aula aprendendo que ser preconceituoso é algo errado? Uma família fortemente religiosa vai gostar de ver seu filho questionando a Bíblia e a religião dela? Certamente não. E nenhum pai gostaria de ser repreendido por um filho que aprendeu que fazer malandragem é errado.

Por fim, lembremos das escolas particulares, cursinhos e faculdades pagou-passou -o certamente eles não gostariam de se verem desnecessários devido a um ensino público de qualidade e acessível a todos os alunos interessados (algo diferente do "liberou geral" que alguns propõem, e que certamente irá atrair muitos maus alunos ou alunos mais-ou-menos).

Se um dia o ensino for além de preparar para vestibular/concurso público e de melhorar indicadores em português e matemática, se um dia ele formar pessoas que pensem, que questionem, que critiquem, que rejeitem, que digam não,  muita gente sairá incomodada. O governo vai perder muito dinheiro com os impostos que ele deixa de arrecadar com a redução do consumismo, as camadas mais intolerantes da igreja vão se ver em maus lençóis quando os dogmas bíblicos forem questionados... ou seja, tudo que vai de encontro aos interesses de camadas influentes na sociedade.