domingo, 29 de abril de 2012

Sobre backups, arquivos e lixo digital

Recentemente, joguei fora uma coleção de CDs e DVDs gravados, a qual só servia para ocupar espaço no meu porta-CDs e no armário. Permito algumas considerações:

  1. Não vale mais a pena gravar CDs com distribuições Linux, ao menos para uso pessoal. No máximo um CD de uma ou outra distro para uma emergência - no meu caso é o Ubuntu e talvez o Arch.

    Para instalação, um pen-drive supera perfeitamente qualquer mídia óptica: chega de instalações falhando no fim por um arranhãozinho microscópico na mídia, chega de esperar 5 minutos para o sistema inicializar. E instalação pela rede é melhor ainda, se tivermos uma conexão boa: economiza-se o tempo de atualizar o sistema.
  2. Acumulamos lixo digital, e como: arquivos que gravamos uma vez para nunca mais achar, esperando uma catástrofe que nos deixe isolados do mundo - talvez aí tenhamos condições de ler aquele torrent de 100 GB de e-books.
  3. Achamos fotos, músicas, vídeos de quando nossos gostos e interesses eram muito diferentes. E sentimos vergonha: achei algumas montagens que eu arrisquei a fazer no Photoshop há muitos anos atrás.
  4. Gravar em mídia de má qualidade, arquivar em formatos proprietários, etc... são efetivamente a mesma coisa que não gravar. Vários discos estão ilegíveis, dão erros. Muitos arquivos não podem ser abertos por eu não usar mais o software no qual gerei eles.
  5. Backups em mídia óptica já não são muito úteis: não são práticos se comparados com a simplicidade e a praticidade de um HD externo, com o qual as cópias de segurança podem ser automatizadas.
  6. Não faça backup do que você pode baixar de novo. Atualizações, instaladores etc... invariavelmente ficarão desatualizados (alguém quer um instalador do Firefox 3.0? O SP2 para o Windows XP?) e podem ser encontrados facilmente na internet de novo.  Fazia sentido na época da internet discada ou das conexões de 1Mbps, e faz se você precisa formatar máquinas com frequência, o que não é meu caso.
E algumas outras políticas que uso para gerenciamento de arquivos:
  1. Arquivo baixado é arquivo armazenado no lugar certo. Sem essa de um diretório genérico e "organizo depois": invariavelmente isso leva à procrastinação, ao "arrumo outra hora", etc...
  2. Lixo entra, lixo sai: arquivos de má-qualidade (músicas, vídeos, fotos etc...) já são descartados no ato. Realmente é relevante eu guardar uma foto toda tremida, ou um "bootleg" de baixíssima qualidade?
  3. Diretórios são de graça: não custa nada colocar todos os arquivos relacionados ao mesmo tema (todos os arquivos gerados por um projeto, ou todos os documentos referentes a uma disciplina ou a um trabalho) juntos, em um diretório com nome descritivo.
  4. Organizo artigos científicos utilizando o Mendeley Desktop, que já permite criar grupos de compartilhamento (chega de "envia pra mim"), renomear arquivos de acordo com o seu título etc....
  5. A nuvem (Dropbox e afins) é um ótimo complemento para pen-drives: não se perdem, não pegam vírus por serem inseridos em máquinas Windows de uso promíscuo, sincronizam entre infinitos computadores/smartphones automaticamente etc...
    1. Porém, a nuvem não substitui backups offline completamente, e nem é interessante para dados confidenciais, por motivos óbvios.
  6.  Arquivos desatualizados ou irrelevantes vão embora, assim como múltiplas cópias do mesmo arquivo: fica apenas a mais recente.
  7. Para qualquer forma de desenvolvimento, gerenciamento de versões é fundamental. Com o GitHub, o BitBucket e outros sendo gratuitos para projetos pequenos, não existem motivos para não empregá-los seu no próximo projeto.
Dessa forma, economizo tempo e espaço em disco (apesar da vontade de simplesmente jogar tudo e, quando o HD encher, ter desculpa para comprar um maior), além de evitar outros aborrecimentos: múltiplas versões desatualizadas e incoerentes do mesmo arquivo, arquivos de baixa qualidade etc...

(foto: morgueFile)

sexta-feira, 23 de março de 2012

Em caso de dúvida, não clique nem compartilhe


Clique para ver quem visitou seu Facebook, sua conta foi bloqueada, entre outros: palavras que constam de boa parte dos murais no Facebook e que são alvos certeiros dos filtros de spam, e que vemos todos os dias a ponto de ser irritante. Assim como correntes e supostos grandes negócios que aparecem na internet: tudo não passa de um conjunto de armadilhas planejadas para pegar as pessoas pela sua curiosidade (ou desespero) e pela falta de ceticismo.

Muitos de nós somos (in)felizmente fisgados pela curiosidade de saber as últimas fofocas, de ter aquele desconto mágico ou de ganhar dinheiro fácil pela internet, ou pela preocupação que uma mera linha de assunto dizendo sua conta tem uma irregularidade pode trazer. Infelizmente, somos vítimas facílimas de uma boa dose de engenharia social explorada por esse tipo de golpe.

Uma dose razoável de ceticismo poderia evitar diversos problemas causados por esse comportamento: bastaria pensar por alguns minutos para perceber que ninguém que tivesse descoberto como ganhar dinheiro na internet, ou como comprar produtos por 1% do preço deles, sairia divulgando esse fato abertamente, e que não faz sentido eu honrar avisos de que foi bloqueada uma conta em um banco no qual nunca pisei.

(Claro, existem outras causas de crimes virtuais, roubo de dados etc...? Existem: nenhum sistema está absolutamente imune a um exploit ou a um invasor suficientemente obstinado; mas arrisco dizer que essas são exceções)

A mesma coisa pode-se dizer para outros comportamentos que, embora não caracterizem crimes, já se tornam inconvenientes: pessoas com a mania de compartilhar tudo, sem verificar fontes, sem verificar validade das informações lá descritas. E ainda por cima, se julgam ativistas, ou como eu vi esses dias, protestam contra a manipulação da mídia - que interessante: protestam contra a manipulação usando mentiras e meias-verdades para manipular pessoas.

(Felizmente, a maioria das redes sociais já fornece ferramentas para controlar isso; aplaudo especialmente o Google+, que permite um bom nível de granularidade na composição da minha página).

Compartilham causas e histórias sem pesquisarem sobre a veracidade delas, compartilham revoltas infundadas, simplesmente porque todo mundo está compartilhando. Qualquer refutação é recebida com falácias, com ataques pessoais, e outros comportamentos não tão racionais, humanistas (aham, sei) como já vi algumas dessas pessoas se auto-intitularem.

Por fim, vemos pessoas compartilhando notícias fakes, de sites como o Sensacionalista, G17 e afins, e ficando irritadas quando elas eram corrigidas. Porque obviamente, qualquer opinião divergente significa alguém que está contra ela, visto que é óbvio que os brasileiros são a escória do Facebook e que o Mark Zuckerberg demonstrou incomodação - tem que ser muito idiota pra não ver isso, certo?

Ceticismo - ao contrário do que pode parecer para muitos, até mesmo pelos contextos em que a palavra é comumente usada - não se refere apenas a questionar religiões e ideologias: ele pode (e deveria) ser aplicado a qualquer situação no dia-a-dia. Principalmente quando você está colocando dinheiro, dados pessoais ou mesmo sua reputação em jogo. Em caso de dúvida, não clique e nem compartilhe: você não vai ganhar um iPhone, nem vai ganhar milhas, fazer grandes negócios ou salvar as baleias.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Considerações sobre software livre, compartilhamento e ciência


Recentemente, li o artigo The case for open computer programs na revista Nature, o qual trata sobre a relação entre a questão do código-fonte aberto e a reprodutibilidade de um experimento científico. Considero, então, relevante fazer algumas reflexões sobre a importância e a necessidade do software livre na ciência.

Primeiramente, se considerarmos que a reprodutibilidade é uma das partes fundamentais do método científico, compartilhar o código-fonte empregado em experimentos e em pesquisas torna-se tão fundamental quanto compartilhar os próprios resultados. Certamente não é interessante ler um artigo desenvolvemos um software para tal coisa, veja nossos resultados e não ter acesso a ele, não poder repetir os mesmos casos de teste e exemplos que os autores usaram, não poder achar bugs etc...

Simplesmente descrever o código, colocar pseudocódigo, ou colocar as equações empregadas serve em algumas circunstâncias, mas em casos onde a maior parte dos resultados são obtidos usando ferramentas computacionais, já não basta: não tenho como comparar com a implementação que você usou, não tenho como verificar se você não deixou um bug que possa ter invalidado seus resultados, tampouco sei quais os métodos que você empregou para resolver o problema e quais as limitações (ex. limitações de precisão, erros numéricos) etc... que você possa vir a ter encontrado no decorrer da sua pesquisa.

Torvalds afirmou em uma entrevista de 2004 uma posição similar:

I compare it to science vs. witchcraft. In science, the whole system builds on people looking at other people's results and building on top of them. In witchcraft, somebody had a small secret and guarded it -- but never allowed others to really understand it and build on it.

Eu [Torvalds] comparo [o software livre contra o proprietário] como ciência vs. magia negra. Na ciência, o sistema inteiro se constrói com pessoas olhando para os resultados de outras pessoas e construindo a partir deles. Na magia negra, alguém tem um pequeno segredo e o guarda -- mas nunca permitindo que os outros efetivamente entendam-no e construam a partir dele.

Ciência feita com métodos computacionais, mas sem o código-fonte, é quase magia negra, simplesmente porque torna-se praticamente impossível reproduzir resultados. Eu consigo entender o que você fez e ter uma visão geral de como isso foi feito, mas não consigo entrar em detalhes.

É importante notar que o Linus não diz que o modelo "magia negra" é ruim em outra entrevista:
But I don't think you need to think that alchemy is "evil." It's just pointless because you can obviously never do as well in a closed environment as you can with open scientific methods. 

Mas eu não quero que você pense que alquimia é 'ruim'. É apenas sem sentido, porque você obviamente não pode fazer tão bem em um ambiente fechado como você faria em um ambiente aberto.

Após, temos outro motivo para a adoção de software livre na ciência: o custo da maioria dos softwares científicos é altíssimo, o que prejudica principalmente os países em desenvolvimento, aqueles que justamente mais precisam de pesquisa e desenvolvimento para se manterem competitivos. Muitas vezes, acaba-se em um círculo vicioso: usa-se um programa proprietário - várias vezes sem licença - por ser o que todo mundo usa, impondo-se assim uma ditadura da maioria.

Existem as licenças para estudantes ou educacionais? Existem, e elas são uma solução extremamente lucrativa para os fabricantes (no aspecto mindshare), mas elas não atacam o segundo problema. Pelo contrário, podem fazer com que ele se aprofunde: formam-se futuros profissionais usando ferramentas proprietárias, os quais continuarão empregando elas em sua carreira profissional, e assim sucessivamente.

O software livre é a maior chance que temos para quebrar esse ciclo de dependência: empregar as diversas ferramentas e bibliotecas já existentes, evitando a reinvenção de rodas (reinvenções essas que muitas vezes saem quadradas, frágeis e com material de péssima qualidade), e saindo da condição de meros consumidores de ferramentas para produtores de ferramentas. No ambiente acadêmico e científico, onde estão sendo formados os profissionais do amanhã, torna-se uma forma de cortar os problemas da pirataria e da dependência tecnológica pela raiz, ou ao menos diminuí-los.

Mesmo que alguma pesquisa precise de uma ferramenta proprietária (como é extremamente comum na engenharia), ainda assim é possível tirar proveito das metodologias de software livre e do compartilhamento: muitas dessas ferramentas são baseadas em scripts ou pequenos programas, os quais também podem ser compartilhados e servirem para outros cientistas. Podem inclusive servir como fundamentação para criar um software livre que desempenhe o mesmo trabalho.

Com o compartilhamento, abre-se um enorme potencial para um peer review mais amplo do que aquele feito pelos revisores, para críticas e sugestões, melhorias no código - e até mesmo vários códigos menores tornarem-se parte de um programa maior (o exemplo que me vem à cabeça agora é o Sage, sobre o qual já falei no meu blog).

Por fim, dados abertos podem evitar problemas de retraction (quando um periódico tira um paper de circulação, seja por erros, problemas com direitos autorais etc...) e também permitir novas descobertas: vários pesquisadores podem usar diferentes ferramentas para processar esses dados, podem aplicar diferentes metodologias, permitindo a extração de novas conclusões ou a refutação de resultados anteriores.

Assim, tendo em vista o fato de cada vez mais pesquisas serem computacionais ou envolverem software no seu decorrer, considero que faz-se necessário o compartilhamento de código-fonte e o uso de formatos abertos na ciência; o cientista tem pouco ou nada a perder com isso. Também faz-se extremamente importante a adoção de software livre na pesquisa, como forma de promover a colaboração tão necessária para uma construção de conhecimento que possa vir a gerar lucro (não apenas no aspecto financeiro) para todos.

"In mathematics information is passed on free of charge and everything is laid open for checking."
"Na matemática, informação é distribuída sem custo, e tudo está aberto para verificação." . Por que não adotar este approach para as outras áreas do conhecimento?

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Só tem porcaria? e outras coisas

Frequentemente vemos no Facebook, e em outras redes sociais, gente furiosa com os artistas que estão fazendo sucesso, ficam de mimimi, ficam reclamando que atualmente só tem porcaria, a música boa morreu, e defendem que esses músicos e compositores devem morrer ou sofrer de forma cruel; igualmente, falam da sexualidade deles, falam disso ou aqui. Talvez a música deles realmente não seja um paradigma de qualidade, talvez ela seja algo projetado para vender, mas ainda assim cabem algumas pequenas considerações.

Primeiramente, só existe porcaria musical, e realmente nada atual presta, ou é você que não sabe procurar? Ninguém está te obrigando a ouvir o que está tocando no rádio. Talvez esse argumento colasse há 10 anos atrás, quando a descoberta de novos estilos era muito mais difícil para quem não tinha uma boa rede de contatos, mas hoje não existe mais desculpa para não escolher o que se ouve.

Outra coisa interessante é que eu já vi gente auto-intitulada racionalista, humanista, que diz carregar a bandeira do não ao preconceito, tolerância, paz, defendendo violência contra esses artistas. Como no caso do vocalista do Restart que levou uma pedrada: vi pessoas dizendo que o viadinho colorido (olha o bloco da intolerância aí, gente!) tinha merecido aquilo. Que comportamento interessante para alguém que se diz contra a violência.

E muitas vezes, eles são os mesmos que dizem que a sociedade não sabe interpretar/não está pronta para/não respeita/etc... o estilo deles, que são vistos como bagunceiros, etc... É inegável que existem preconceitos e existe intolerância, mas a resolução deles torna-se muito mais difícil se as vítimas continuarem a apontar a mesma arma que elas odeiam ver apontadas para o grupo delas.

Também, justamente as pessoas que não conseguem tirar o nome do Restart ou do Michel Teló da boca, são as que mais odeiam. Falam neles mais, talvez, do que os fãs desses artistas. Conhecem cada detalhe da vida deles. Interpolam isso em todas as conversas e fazem questão de explicitar seu ódio, mesmo que não tenham perguntado.

Atiram críticas vazias, falaciosas para todos os lados, e se exaltam para estabelecê-las, como numa competição para descobrir quem grita mais alto: caps-lock? Falar gritando e com erros de português? Ataques pessoais? Tudo está lá, pois um argumento sem conteúdo precisa ser embrulhado em uma embalagem chamativa. Falsas dicotomias: se você não odeia, você imediatamente ama, e portanto você também merece tomar pedradas. Xingar todos os membros da família desta pessoa. Interpretações intencionalmente erradas de frases.

Ficam zumbizando, vagando por fóruns, sites de notícias, pelo YouTube, pelo Twitter etc... até aparecer uma notícia ou mensagem na qual elas possam dizer que Fulano é uma porcaria, que Sicrano é um artista comercial, que certo artista não merece o sucesso que ele faz (afinal, lá no Cazaquistão teve um carinha que fez muito mais, morreu com 27 anos e ninguém lembra dele - e se você não conhece, você é o alienado ignorante) , e que apenas o estilo dessa pessoa é o verdadeiro (foi nessa mesa que pediram uma falácia do escocês?).

Sim, acho a música de muitos artistas atuais extremamente enjoativa e chata
. Simplesmente não os ouço, eles não me ouvem, não perco nada e não ganho nada, e continuo a vida, procurando coisas das quais eu goste, e não que eu odeie. E o melhor nessas horas, como já aprendi, é ficar longe da linha de fogo, e mais longe ainda da audiência.

A música deles não é de qualidade? Primeiramente, conceitue qualidade e defina métricas para dizer que música (ou qualquer outra arte) é boa ou ruim. Critérios objetivos e mensuráveis, que possam ser avaliados por qualquer observador. Ficou um tanto óbvio que aquilo que uma pessoa subjetivamente julga como bom pode ser visto como ruim para outra pessoa, não?

Ah, mas não tem técnica. Já ouvi músicos com técnica perfeita mas que não me agradaram em nada: achei a música deles desagradável, não fez meu estilo, simplesmente não gostei. Deletei o CD ou fechei o vídeo e continuei minha vida. Se apenas a técnica bastasse, qualquer pessoa que soubesse gramática e ortografia poderia escrever textos de excelente qualidade, por exemplo.

Ah, mas é comercial, música feita para vender. Hein? Gravadoras, rádios etc... são negócios e têm a missão de dar lucro para seus funcionários. Elas têm a obrigação de disponibilizarem aquilo que dá retorno para elas, e você tem a liberdade de não consumir os produtos delas.

O mimimi hater do só existe porcaria não cola mais, exceto para quem quer continuar nessa condição: um idiotinha que percorre a internet procurando formas de demonstrar que sim, ele odeia, que sim, ele não é alienado. Que ui, ele é revoltado, ele odeia os coloridos viadinhos. Em vez de ficar reclamando, saia da porcaria do hating e de ficar dando atenção para o que você mais odeia, e vá procurar coisas que você goste.

P. S. : não, você não tem a missão de evangelizar os outros para o que você gosta.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Idiotas em bibliotecas


Há um tempo atrás, fui fazer um trabalho na biblioteca da faculdade, e após ver certas atitudes extremamente desagradáveis lá, me motivei a escrever algumas pequenas considerações sobre certos comportamentos não tão educados de algumas pessoas lá.

O primeiro deles: usar os terminais de consulta para fazer tudo, menos para procurar livros. Em um período de algumas horas, vi algumas pessoas usando esses para baixar músicas, para ficar horas e horas passeando no Facebook ou no Orkut, para fazer trabalhos, entre outras coisas. Aparentemente, não existem outros lugares para isso (nos laboratórios de informática é tudo bloqueado, e isso é chato), e quem quer procurar livros pode ir direto ao acervo, não é?

Na universidade onde estudo (e em outras também, acredito) há uma demarcação clara entre os computadores a serem usados para consulta e para pesquisa - isso exclui navegação geral - que pessoas insistem em desrespeitar.

Outro tipo característico, e extremamente chato, é aquele que usa a conexão da biblioteca para baixar filmes (ou qualquer outra coisa) e aproveita o ambiente para assistí-los. Ele dá risadas histéricas, afinal todo mundo quer compartilhar da sua intensa diversão. E se ele não está a fim de assistir nada? A biblioteca é o melhor ambiente para ele jogar online e ficar gritando, narrando tudo que ele vê na tela.


Lembro de uma pessoa que inventou de jogar Colheita Feliz/Mini Fazenda/qualquer outro jogo do momento na biblioteca e simplesmente achou genial convidar seus amigos para darem pitaco no jogo. De biblioteca a lan-house em alguns minutos: versatilidade nunca antes vista para seus ambientes.

E curioso é ver que às vezes, quando certos sites são bloqueados, o ambiente se torna mais agradável: menos bagunçado e com pessoas usando os recursos de forma produtiva.

Também existe o revolucionário, o torcedor, o romântico, pessoas que vêem nas paredes, nas mesas e nos livros um amplo espaço para protestar, homenagear ou mesmo deixar recados anônimos. Escrever contra o sistema, homenagear seu time preferido, declarar amor para uma pessoa cuja existência é duvidosa (queria saber qual o nível de Forever Alone desse), etc... tudo isso pode ser mais divertido que estudar certas matérias.

E ainda por cima, depois pode-se reclamar que falta infra-estrutura, que está tudo sujo, que ninguém cuida do patrimônio público, pode incluir isso tudo na coleção de mimimis.

Já que falei em mimimis, existe um outro tipo que também é extremamente desagradável: aquele que usa a biblioteca para conversar e para chamar a atenção. Seja no celular - invariavelmente com um toque espalhafatoso - seja encontrar os amiguinhos para aquela conversa deliciosa pós-almoço, a biblioteca torna-se um lugar ótimo para você contar cada pedacinho do seu - muitas vezes irrelevante e, de acordo com certos assuntos que já ouvi, até mesmo vazio - dia.

Por fim, o pior tipo (na minha opinião, e acredito que muitos compartilharão dela) é aquele que não assume as consequências de estar com um livro emprestado em suas mãos. Ele suja os livros, ele os risca, ele acha engraçado desenhar bigodes nas fotos e fazer carinhas, sem falar nos sublinhados e nas marcações de texto, ele acha divertido rabiscar nos livros que os outros usarão. (E geralmente, culpa os outros: os outros isso, os outros aquilo, etc... mas isso é assunto para outro post).

Não estamos falando de nenhuma igreja (embora alguns falariam em "templos do conhecimento", metáfora bem razoável), de nenhum lugar santo onde todos sejam obrigados a se comportar impecavelmente e a ficarem perfeitamente quietos, estamos falando de regras de convivência que deveriam ser tão simples e tão triviais - a ponto de ser desnecessário colocar avisos pedindo silêncio

Mas infelizmente, já vi funcionários tendo que mandar pessoas calar a boca na biblioteca, e sinceramente, na hora eu me senti como se eu tivesse voltado ao ensino fundamental. Pensava que as pessoas conseguiam deixar isso para trás quando se formavam, mas não, ainda haviam pessoas que achavam que lá era o melhor lugar para rir alto e trocarem gritos.


(Foto: "Books on a Shelf", disponível em http://www.sxc.hu/photo/492740).

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

O mimimi da orkutização (ou "Não se misture com a gentalha")

Vejo um grande falatório resmungão sobre orkutização de tudo. Tudo banalizou, perdeu-se uma suposta exclusividade que existia antigamente (existe exclusividade naquilo que é fabricado em escala industrial?). Qualquer coisa, quando cai no gosto popular, se torna magicamente ruim. Tudo precisa ficar no underground para sempre, pois existe o risco do povão estragar tudo.

Não se aplica apenas a serviços on-line
: pode ser uma marca, pode ser uma banda ou um programa de televisão, se passa na TV ou é lançado no mercado brasileiro e está disponível, vai orkutizar, vai atrair posers, entre outros adjetivos. Inclusive, já vi pessoas que deixaram de ser fãs de bandas justamente porque essa mesma banda se tornou popular. (interessante esse tipo de "fã")

Primeiramente: é interessante ver que muitas pessoas que hoje reclamam dela são as que antigamente participavam de "jogo do add" no Orkut, são as mesmas que ficam segue que eu sigo no Twitter, que fazem de tudo para chamar a atenção na internet etc...


Elas se contradizem: se algo que elas julgam bom é desconhecido aqui, somos um país de pessoas sem cultura, sem bom-gosto, que só consome porcaria; mas se algo que elas gostam é conhecido aqui, banalizou, popularizou demais, o povão está consumindo, orkutizou. Se uma marca não está disponível aqui, reclamam que custa caro importar,  mas quando ela se estabelece aqui, ela vai banalizar. A culpa é de quem compra um iPhone ou um MacBook em 12 vezes no cartão.

Não quero que serviços online e produtos sejam exclusividade de algumas pessoas: pelo contrário, eu quero que eles sejam acessíveis para todos. Que internet seja algo ubíquo, tão comum quanto a eletricidade e tão banal quanto acender a luz. Tudo isso dá motivos para a criação de novas tecnologias, de concorrência, faz o mercado funcionar e impede que empresas fiquem na sua zona de conforto, vendendo apenas para uma elite. Com algumas exceções, por que uma empresa iria lançar um serviço se não para que ele atingisse as massas e portanto maximizasse o lucro dela?


Por sinal, fico perguntando: e se uma dessas pessoas fosse a criadora de um serviço, ela não gostaria de ver ele sendo usado pelas massas, sendo divulgado, e trazendo mais retorno? Ela realmente gostaria que o serviço dela ficasse restrito a uma pequena camada de pessoas? A mesma coisa com música, arte etc.... Eles realmente gostariam que a banda deles não ficasse conhecida? Que o produto deles não deslanchasse e não vendesse bem?

Sim, algumas coisas que muitas pessoas compartilham são desagradáveis: também não gosto de gente colocando fotos de animais mortos, em redes sociais, e nem de gente que se sente na incumbência de dar retweet em tudo que vê no Twitter e de compartilhar centenas de memes por dia. Para isso, essas redes sociais fornecem ferramentas que me permitem selecionar o conteúdo relevante. Unfollow, cancelar assinatura, ou mesmo deixar de frequentar um site.

É chato ver coisas escritas incorretamente? É, a ponto de muitas vezes eu desistir de ler algo por erros de português ou inglês. Mas os reclamões falam como se apenas brasileiros falassem errados, o que é uma grande inverdade: pessoas de vários outros países também escrevem errado (é comum ver indianos, paquistaneses, entre outros, massacrando o inglês em fóruns, listas de discussão etc...).

É cansativo ouvir a mesma música tocando direto no rádio ou na TV? É. Mas não lembro de ter perdido o direito a trocar de canal ou de baixar o volume.

Cada vez mais a história de orkutização soa como uma desculpa para quem quer uma exclusividade que nunca existiu. Um resmungo de classe-média-sofre, que tem medo de ver alguém inferior com os mesmos direitos do que ela, que tem medo da mudança na distribuição de renda. Um excelente pretexto para pessoas tão iguais, tão padronizadas, que precisam consumir para se sentirem superiores.


Por fim, lembremos que em redes sociais, quem escolhe as amizades é você, o mesmo valendo para toda a internet. O Facebook está cheio de gentalha? O Twitter está cheio de gente chata? Simples: basta não seguir ou não manter relacionamentos e todos ganham, exceto quem perde a sua razão de reclamar. Não aguenta mais ouvir falar do Big Brother ou da Luiza que voltou do Canadá? Simples, basta procurar outros assuntos.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Os interesses de uma SOPA indigesta

Recentemente vimos a lei SOPA, que daria grandes poderes para o combate à pirataria (aham, de boas intenções o inferno está cheio), e entre seus defensores estão as gravadoras, estúdios de cinema, companhias de televisão a cabo etc... e outras centenas de moscas - a partir disso fica bem claro o sistema de interesses por trás desta legislação.

O interesse do combate à pirataria, embora por vezes ele use o pretexto do roubo de propriedade intelectual (embora eu nunca tenha visto roubo que não prive a vítima do objeto roubado), não é apenas proteger a inovação, a indústria, ou combater a falsificação, mas também transformar a internet em uma televisão onde só passem conteúdos autorizados. Conteúdos esses que refletem o pensamento dominante e impedem qualquer crítica (que pode ser derrubada através de denúncias de violação de propriedede intelectual ou de marcas registradas).

Exatamente pois esse é o maior medo dos grandes conglomerados da informação e do entretenimento: informação independente, muitas vezes produzida com recursos de uso comum: uma câmera digital que custa algumas centenas de reais, um computador pessoal, ou mesmo um celular ou smartphone com uma câmera boa o suficiente - para narrar o desenrolar de um evento, pode ser mais eficiente e mais dinâmica que uma câmera profissional.

Não preciso ter dinheiro para escrever e publicar um blog ou um livro, ou distribuir um filme amador ou semiprofissional, nem preciso pagar jabá para tocar minha música em uma rádio - a internet possibilita todo esse poder. Tudo que a grande mídia não gostaria de ver: pessoas produzindo conteúdo que reflete a realidade delas, e não a utopia que ela quer passar.

A desculpa da proteção à propriedade intelectual serve como uma fachada para a repressão: não gosto de críticas a minha empresa? Basta eu alegar que o autor desta crítica está violando minha propriedade intelectual. Simples, e com a SOPA se tornará mais rápido ainda: elimina-se toda a diligência necessária. Torna-se mais fácil condenar alguém por pirataria do que por qualquer outro crime. Torna-se perigoso para sites de ambientalistas, de ideologias que não a dominante, etc...

Por exemplo, que tal a Rede Globo tirando do ar qualquer blog que critique o Big Brother, as novelas etc... e use trechos destes programas para exemplificar? Que tal a Igreja usando esse instrumento legal para tirar sites ateus do ar? Tudo isso se torna possível com legislação deste calibre.

O problema da pirataria existe? "Existe" (muito embora não lembre de nenhuma grande empresa ter falido especificamente por ele), sendo principalmente prejudicial para o software livre e o copyleft, e legislações malucas apenas contribuem para agravar o problema. Já notaram que qualquer esquema de proteção é quebrado rapidamente, e ainda assim, empresas insistem neles - os piratas burlam sem dificuldades enquanto os usuários são vítimas de DRM e afins.

Pirataria não se conserta com leis malucas ou aceitando a derrota e comprando licenças de software a preço de dumping. O único caminho para reduzi-la é a adoção maciça e irrestrita do software livre e do copyleft em tudo aquilo que é público - abrindo o caminho para mostrar que existem alternativas à pirataria. E, potencialmente, formando uma geração que vá além de simplesmente consumir tecnologias proprietárias.

Estranhamente, Microsoft, Adobe e outras eram a favor da SOPA, mas viraram a casaca. Não apenas por pressão externa, mas sim porque a pirataria é parte do modelo de negócios delas: só graças à pirataria é que o Windows é o sistema operacional mais utilizado e que softwares tornam-se metonímias ("faz um Photoshop na minha foto", "entra no MSN").