quarta-feira, 20 de julho de 2011

Se o seu site está cheio de babacas, é culpa sua

Recentemente, li este post, o qual toca em alguns aspectos bem interessantes sobre as premissas que o autor considera necessárias para o sucesso de uma comunidade virtual.

O argumento de muitos sites é o clássico não temos responsabilidade sobre os comentários postados. Ele pode ser válido de um ponto de vista legal, mas não de um ponto de vista moral: você é responsável sim pelos comentários do seu site. Você possibilitou que ele fosse usado para apologia ao crime, para promoção do ódio, e isso está no seu domínio ou no da sua empresa. 

Vamos aos 5 pontos suscitados no post:

1. Você deve ter humanos de verdade dedicados a monitorar e responder à sua comunidade

Começa por aí: muitas comunidades, fóruns etc... não possuem moderação ativa. Ter uma comunidade cheia é um símbolo de status, um e-penis. Mas a parte chata, de ler e participar ativa e sistematicamente dela, de reconhecer comportamentos e expulsar usuários bagunceiros, e ninguém quer.

As tarefas de moderação podem (e devem) ser divididas entre vários usuários, desde que eles aceitem as responsabilidades que isso implica, e não simplesmente usem isso para mostrar ó, eu sou foda, sou moderador de uma comunidade com 50 mil membros.

2. Você deve ter políticas na comunidade sobre o que é e o que não é um comportamento aceitável

Também é uma falha de planejamento das comunidades. Muitos donos e moderadores não definem regras, ou quando elas existem, não as fazem acontecer ou valer.

Aplicando ao Orkut e outras redes sociais, parte dessas regras poderia ser justamente a proibição de perfis falsos, algo que (in)felizmente irá atrair haters, pois já não se torna possível inflar comunidades (considerando que os donos das comunidades são coerentes com as regras que eles estabelecem), e para algumas pessoas que tem medo de dar a cara a tapa pela sua opinião, preferindo ficar escondidas atrás de um fake.

Outra parte dessas regras deveria versar sobre erros de linguagem, vocabulário aceitável, menção e uso de informações pessoais, e outros comportamentos relevantes.

Regras devem ser claramente definidas, em palavras exatas e simples, porém devem ser interpretadas de forma flexível, para evitar infratores tentando se esquivar e alegar que o comportamento deles não estava definido nas regras. Também não se deve poupar moderadores e usuários mais avançados delas, para evitar a ilusão de eu posso, eu cheguei aqui antes.

3. Seu site deve permitir identidades confiáveis

Novamente entra na questão dos fakes e do incrível poder da anonimidade por eles fornecida. E muitas vezes, ela é exatamente usada para fins inadequados, inclusive, várias vezes já vi pessoas que postavam anonimamente porque se eu colocar meu perfil aqui, eles vão me encher o saco.
 
Comentários anônimos são válidos em algumas situações específicas, por exemplo, proteção à identidade - o que não é o caso de uma rede social ou de um fórum, obviamente. Logo, ela torna-se injustificável e até mesmo perigosa.

O autor do post propõe o uso de pseudônimos permanentes - como vemos na maioria dos fóruns: não é necessário que o usuário mostre o seu nome, apenas é necessário que ele mantenha o seu apelido. Mas, quando necessário, não se deve ter medo de mostrar o nome real dos usuários.

Também é considerado o uso de sistemas de reputação, não baseados em pontuação ou número de posts (o que levaria muitos a floodarem ou responder 'sim' a qualquer coisinha), mas sim no comportamento do usuário. Não na quantidade, mas sim na qualidade.

4. Você deve ter a tecnologia para facilmente identificar e impedir comportamentos inadequados

Nas redes sociais mais utilizadas, essas ferramentas são limitadas ou inexistem. Mas muitos outros sites, principalmente os de notícias, usam ferramentas desenvolvidas sob medida, e não há justificativa para o não uso de buscas por palavras-chave, análises estatísticas etc... para detectar comentários irrelevantes. Inclusive, as mesmas técnicas que os filtros anti-spam empregam são aplicáveis.

5. Você deve ter condições para permitir ter uma boa comunidade, ou deve procurar outro ramo de trabalho

Evidentemente isso não se aplica para aquelas comunidades pequenas, ou para blogs pessoais atualizados apenas ocasionalmente. Mas para os blogueiros profissionais, aqueles que publicam regularmente e lucram com propaganda e parcerias no seu blog, ou para fóruns maiores, não há pretexto para não ter o mínimo de filtragem nos comentários.

E essa afirmação é muito mais válida para os grandes portais: para esses, inexiste qualquer motivo para deixar o caos consumir as suas comunidades. Dinheiro há de sobra, desenvolvedores e recursos técnicos também.

Ou mesmo, se você não tem as condições para garantir o cumprimento de todos os itens, é válido desativar os comentários - o que já é feito há muito tempo por blogs técnicos ou científicos. Dado que muito do compartilhamento hoje se dá pelas redes sociais, percebo (observação não-científica) que eles se tornam relevantes apenas para discussões prolongadas - as quais podem ser feitas em outros meios.

Isso tudo pode ser aplicado a diversos sites. Atualmente, é impossível ler os comentários do Terra, do G1, de vídeos famosos no YouTube etc... sem encontrar:

  •  Alguém conseguindo interpolar os direitos dos homossexuais ou que "viados são a abominação do diabo" (sic), ou alguém falando em Deus ou religiões. Em ambas as situações é possível constatar tentativas de burlar censores: es/cre-ve.se$ass/im, troka-ce l3tras etc...
  •  Pessoas demonstrando total desconhecimento do assunto da notícia, ou simplesmente de mimimi.
  •  Corajosos de internet posando de justiceiros e propondo soluções fantásticas e que não funcionam para os problemas.
  •  Gente que ainda acredita na história de que a internet é uma terra anônima sem leis e normas.
  •  Fanboys e hateboys duelando epicamente entre si para saber quem é mais barulhento, abafando qualquer discussão sensata que poderia vir a acontecer.

De um ponto de vista puramente comercial, essas "polêmicas" geram lucro. Geram mindshare, geram acessos etc... Isso é bom para o site, e portanto eles dificilmente vão filtrar o conteúdo - até a hora em que eles vêem sua imagem prejudicada e precisam repintá-la.

Você é responsável pelo conteúdo dos comentários do seu blog sim. Você é responsável pelo conteúdo dos anúncios dele [1], e os anunciantes são responsáveis por conhecerem o lugar onde eles anunciam - nenhuma empresa séria gostaria de ver seu anúncio em um jornal ou site que prega o ódio, certo?




Se o seu site está cheio de babacas, e você não fez seu dever de casa, é culpa sua. Não adianta chorar e dizer que a internet odeia você ao mesmo tempo em que deixa o caos imperar no seu site.

[1] Um exemplo que sempre gosto de comentar é um site ou publicação de uma organização ambiental aceitando anúncios de uma empresa do agronegócio conhecida por fazer greenwashing. Sinceramente, não consigo confiar numa organização que contradiz seus ideais por dinheiro.

Imagem do post: http://xkcd.com/386/

sábado, 16 de julho de 2011

Onde o Orkut, e seus usuários, erraram

Cada vez menos uso o Orkut. Tenho ele para ler algumas comunidades e ocasionalmente interagir com alguém que ainda não me tenha adicionado no Facebook ou que não me siga no Twitter, mas isso é raro. Considero aqui alguns motivos que me levaram a abandoná-lo: 

1. Comunidades? Que comunidades?

Adianta ter uma comunidade com 5 milhões de membros se:
  • tudo o que tem nelas são jogos do tipo "beija ou passa?", "continue a história com 3 palavras", "me add", trollagens etc... não há um fluxo de ideias real simplesmente por não existir comunidade!

Noto (observação não-científica) que comunidades on-line centradas num tema, e apenas nele, tendem a ser menores. Fóruns podem ter milhares, dezenas de milhares de usuários, com algo em comum, que é o interesse num tema - mesmo no Orkut constatamos isso, comunidades mais técnicas ou mais focadas tendem a ser menores. E essas comunidades ainda falham em alguns aspectos, básicos para qualquer sistema de discussões (fórum, mailing list, newsgroup etc...):
  •  não há uma ferramenta de "quote" (o que é necessário para a comunidade efetivamente ser um fórum), a formatação de textos muitas vezes é quebrada;
  •  os posts são limitados a 2048 caracteres (inviabiliza um texto mais longo, uma discussão mais comprida etc...);
  •  90% das comunidades são somente para membros (ou seja, quero ser um mero lurker, mas não posso, preciso engrossar a lista de usuários).
Felizmente o Orkut tomou medidas contra o roubo de comunidades, proibindo a troca de nome: antigamente essa prática era muito comum, justamente para se obter uma comunidade mais antiga. Bombardeava-se o perfil do moderador com denúncias, ou ele era vítima de algum bug ou site malicioso, e pegava-se o cobiçado prêmio: uma comunidade criada em 2005, já com 10 mil membros de brinde.

Inclusive, várias vezes já fui incluído em comunidades pornográficas, obscenas ou nada-a-ver comigo, justamente porque alguém roubou uma comunidade e renomeou.

Muitas das comunidades lá já são irrelevantes. Entrar na comunidade de algum software ou tecnologia? Para quê, se ela já possui um fórum ou lista de discussão mais abrangente, com pessoas de todo o mundo? Não vejo muito sentido.

2. No meio do caminho tinha um CAPTCHA - ou, insegurança e limitações diversas

Quero sair de um monte de comunidades ao mesmo tempo? Não posso. Estou em uma discussão e excedi um limite X de mensagens por dia? Preciso digitar um CAPTCHA. Editei o meu perfil e coloquei um link? Mais outro CAPTCHA. E assim vai.

Em outros serviços também há essas confirmações, mas elas não são comuns. Não lembro de tê-las visto no Facebook ou no Google+, por exemplo, exceto em situações muito incomuns (por exemplo, um flood de links).

Infelizmente essa medida tornou-se necessária devido ao grande número de spams, de malwares entre outros. Por um bom tempo, quando foram relatadas diversas falhas de XSS, usei o Orkut somente com o NoScript - do contrário, corria o risco de ver meu perfil "invadido", e como meu perfil ligava à conta Google, poderia perder meu e-mail (à época eu não separava contas pessoais e profissionais).

3. "Perfil lotado" ou mamãe, quero ser famoso

Já afirmei no meu Twitter que quem tem 5 mil amigos não tem amigos. Mesmo pessoas famosas, ou pessoas que lidam com pessoas, dificilmente chegam a ter tantos amigos - considero que o mais justo nesse caso seria uma fan page.

Como o Orkut não tem esse recurso, vemos celebridades virtuais (e attention whores) criando infinitos perfis. Fazem de tudo para chamar a atenção: participam de jogos me add e saem adicionando todos os novos amiguinhos, que colecionam como figurinhas num álbum. Colocam fotos pesadamente editadas em trajes provocantes, e ao mesmo tempo entram em comunidades não acho um(a) namorado(a) decente, quero amor etc...

Quer conseguir amigos, seguidores etc...? Produza conteúdo de qualidade e relevante: pode não ser tão eficiente em termos de quantidade, mas certamente gera uma rede de contatos de maior qualidade. Ou você está a fim de ter 50 mil amigos e seguidores que não dizem nada?

4. Bobajadas diversas

Scraps abestalhados e perfis coloridos: duas verdadeiras abominações. Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu um scrap piscante ou entrou num perfil que expressava toda a individualidade do dono... copiado de um site tipo "perfis prontos".

Outro problema são os fakes. Não aquele fake discreto, mas aquele que claramente é um troll usando a carapuça de uma pessoa cool. É impossível manter uma discussão inteligente com uma pessoa que esconde a cara atrás de uma foto de uma gatinha saturada no Photoshop e que reage a qualquer coisa com sarcasmo e xingamentos.

5. iscrevenu asim, everthng wrng

Diversas vezes eu já desisti de acompanhar um tópico no Orkut por causa dos erros de gramática e de ortografia cometidos. Outras vezes, já me desinteressei por alguém devido ao fato de seu perfil estar totalmente escrito em miguxês ou ela assassinar a língua.

Não é só um problema brasileiro, antes que algum reacionário BRASIL EH UMA MERDA MIMIMI INCLUSÃO DIGITAL MIMIMI, do tipo que povoa o Classe Média Sofre, venha aqui: comunidades cujo idioma principal é o inglês também padecem com pessoas (notadamente os indianos) que escrevem como quem está digitando um SMS: é 'u wrong' pra cá, 'plz add me' pra lá, 'ur good' acolá...

Isso é algo que não vejo em bons fóruns, listas de discussão etc.... Tanto em português quanto em inglês, os usuários ao menos tentam escrever corretamente - e muitas vezes conseguem, sob pena de serem rejeitados, de não receberem resposta ou mesmo de serem repreendidos.

6. "Mamãe, quero ser criativo"

Ah, se eu tivesse um real para cada perfil pronto, para cada invasão de perfil que eu vejo no Orkut... eu estaria ricaço. De tal forma que há sites dedicados a isso: expresse toda sua individualidade e a profundidade da sua amizade (tá, cansei de rimar) pegando um texto pronto, copiando, colando e só colocando o nome do seu melhor amigo.

7. Falta de consistência

Uma das coisas que sempre elogiei no Facebook é a padronização: todos os perfis têm o mesmo formato para interesses e gostos, têm direito a um username (melhor do que dizer "me procura"), todos os grupos têm os mesmos recursos etc... em uma interface simples, limpa e gostosa de usar. E é exatamente essa simplicidade que faz falta no Orkut.

O Facebook, o Google+, etc... apesar de todas as outras falhas e limitações, conseguiram - ao menos para mim - se demonstrar melhor que o Orkut, justamente por não terem os recursos problemáticos ou terem implementado eles de uma forma mais sensata. Se eles verão a suposta orkutização (a qual até hoje é um mito hipster, ao menos para mim), só o tempo poderá dizer - duvido muito, devido a curva de aprendizagem envolvida, suficiente para espantar muitos usuários leigos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Transporte Público: você está fazendo isso errado.

Recentemente, li um comentário de uma pessoa que criticava a luta do DCE da UFSM para impedir o aumento nas passagens de ônibus. Tal pessoa argumentava o que é um aumento de R$ 0,10? Eu, e mais boa parte das pessoas que usa ônibus cotidianamente nesta cidade, respondemos: é muito! Vamos a dois pequenos exemplos que já presenciei:

  • Outro dia, para voltar para casa eu tive que pegar um ônibus sobrecarregado de tão cheio (acredito eu que tinha mais de 80 pessoas), que chegava a ter dificuldade para vencer algumas subidas devido ao peso e a sua idade. Um ônibus no qual era praticamente impossível se movimentar.Fico imaginando o caos que seria se alguém lá dentro declarasse que era um assalto, ou mesmo se alguém passasse mal lá.
  • Costumo pegar o ônibus Faixa Nova devido a me poupar um quilômetro de caminhada. Ocorre que, no horário onde ele é mais necessário - ou seja, 17:00 às 18:00, há um grande vácuo na disponibilidade dessa linha, são muitos poucos ônibus para muita gente que sai nesse horário. E o mais legal de tudo, esta linha simplesmente inexiste nos fins de semana. Felizmente as provas em sábados foram banidas do meu curso, senão não conseguiria fazê-las sem depender de transporte individual.
Outro problema crônico é a limitação artificial do número de passagens que posso comprar como estudante. Se eu faço um estágio e preciso de mais passagens do que uma pessoa que somente estuda, não tenho opção senão pagar as passagens extras do meu próprio bolso. Não é o meu caso, mas é o caso de muita gente; não sei como ficou a situação com o uso do bilhete eletrônico, mas pelo que sei ela não mudou.

Sem falar nos ônibus que mudam de rota sozinhos (por duas vezes, um ônibus onde claramente estava escrito "Faixa Nova" simplesmente foi pela Faixa Velha), ou mesmo que não descem nas paradas.

Tenho medo de um dia me ver com uma perna ou um braço quebrados, usando muletas, e tendo que andar de ônibus, posto que não dirijo (e mesmo que eu dirigisse, obviamente não teria condições de fazê-lo nessa situação). Coitado de quem está machucado ou doente e precisa ir pro HUSM de ônibus.

O que são R$ 0,10 a mais? Muito, para um serviço que melhorou exatos R$ 0,00. 

Como querem que Santa Maria quer ser uma cidade moderna, quer atrair investimentos, quer ter um parque tecnológico etc... quando nem um serviço de ônibus decente a gente tem? Como querem que as pessoas usem transporte coletivo com ônibus que vão estufados e devagar-quase-parando - qual a vantagem que o ônibus, neste contexto, tem perante o carro? Nenhuma.

Faço a pergunta: quantos dos que trabalham lá na ATU de fato usam o serviço por ela administrado? Quantos dos que trabalham definindo rotas e horários conhecem a realidade dos usuários do sistema? Nunca fui ouvido, e acredito que nenhum estudante foi, na hora de planejar os horários. Estranha associação essa que não ouve seus usuários, mas depois quer impor aumentos...




Termino com um vídeo bem interessante que foi repassado pelo DCE da UFSM, com cenas que todos os usuários de ônibus já presenciaram, de certa forma:



Foto do post: http://twitpic.com/54v242 (créditos: @juliadelcarmo)

sábado, 4 de junho de 2011

A educação de verdade não interessa

Podem me chamar de pessimista, mas cheguei à conclusão que a educação no Brasil nunca será levada à sério. Por quê? Simplesmente porque um povo bem educado tem uma arma muito grande nas mãos, que é a crítica e a rejeição. A capacidade de dizer discordo de tal coisa, não preciso disso, isso está errado, a capacidade de organização e de manifestação como vimos em vários outros países. E isso vai contra muitos interesses: do governo, dos líderes religiosos, de alguns grupos de empresários etc...

Com educação boa, onde as pessoas aprendam a pensar e a avaliar os impactos de suas  atitudes no meio-ambiente e na sociedade, cai o consumismo, cai a manipulação que a propaganda tenta causar. Propagandas não funcionam contra uma pessoa que saiba desmontá-las e reconhecer todos os artifícios usados nelas, não se deixando enganar pelos estilos de vida felizes que podem ser comprados em 48 vezes. Crianças que aprendam o valor do dinheiro, do trabalho, da responsabilidade social e ambiental desde cedo? Não sobra espaço para o lucrativo filão da publicidade infantil. 

Criando pessoas críticas, que leiam e entendam o que está escrito em contratos, licenças e termos de uso, prejudica as empresas que enfiam cláusulas abusivas neles. Pessoas que conheçam seus próprios direitos e deveres e saibam defendê-los e cumprí-los, respectivamente? Perdem-se os adevogados que vemos por aí (sem desmerecer os bons profissionais), os contratos que sempre prejudicam o idiota - digo, cliente etc...

Pessoas educadas para o respeito e a tolerância não são homofóbicas, nem racistas. Não sobra espaço para o discurso de bancadas religiosas que inventam argumentos em Deus para o ódio e a intolerância. E, por sinal, a religião é uma das mais prejudicadas com um ensino de verdade: em observações pessoais (sem valor científico), noto que justamente as pessoas com maior nível cultural têm uma propensão maior ao ceticismo e ao ateísmo. Uma escola laica, que não tenha medo de mostrar o que realmente está por trás das religiões, uma escola que use e ensine o método científico em todas as atividades, é um grande pesadelo para os religiosos mais fanáticos e para o país do dízimo com débito em conta.

Aliás, uma escola sem rabo preso, onde não houvessem tabus para discutir assuntos polêmicos, seria um inferno... para os políticos, que veriam suas ideologias e suas atitudes discutidas abertamente em sala de aula. Para as elites que ainda tentam enfiar garganta abaixo um modelo ridículo de progresso, legislando a seu favor. Para quem usa o medo e a desinformação como ferramenta para controlar seus rebanhos. Uma escola onde não houvesse vergonha ou problema em discutir sexualidade, religião, drogas, sistemas econômicos, meio-ambiente etc... iria ser excelente para os alunos - em todos os aspectos, mas péssimo para vários outros setores da sociedade.




Outro fator limitante é a família do aluno. Como um pai ignorante vai lidar com um filho que chegou da aula aprendendo que ser preconceituoso é algo errado? Uma família fortemente religiosa vai gostar de ver seu filho questionando a Bíblia e a religião dela? Certamente não. E nenhum pai gostaria de ser repreendido por um filho que aprendeu que fazer malandragem é errado.

Por fim, lembremos das escolas particulares, cursinhos e faculdades pagou-passou -o certamente eles não gostariam de se verem desnecessários devido a um ensino público de qualidade e acessível a todos os alunos interessados (algo diferente do "liberou geral" que alguns propõem, e que certamente irá atrair muitos maus alunos ou alunos mais-ou-menos).

Se um dia o ensino for além de preparar para vestibular/concurso público e de melhorar indicadores em português e matemática, se um dia ele formar pessoas que pensem, que questionem, que critiquem, que rejeitem, que digam não,  muita gente sairá incomodada. O governo vai perder muito dinheiro com os impostos que ele deixa de arrecadar com a redução do consumismo, as camadas mais intolerantes da igreja vão se ver em maus lençóis quando os dogmas bíblicos forem questionados... ou seja, tudo que vai de encontro aos interesses de camadas influentes na sociedade.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O mimimi do preço justo

Recentemente houve uma motivação da internet brasileira pelo movimento do preço justo, que para muitas pessoas virou o movimento do queremos gadgets mais baratos. Além da inefetividade desses protestos on-line (servem para mobilizar a população talvez, mas têm valor legal nulo), temos outras coisas a mudar antes de querer jogos e gadgets mais baratos.

Vamos a um fato: Gadget não é produto de primeira necessidade. Pode ser importante para uma sociedade conectada, mas está muito longe de ser algo fundamental e necessário. Adianta tablet e colocar tudo na nuvem quando a conectividade à internet ainda não chegou a todos os lugares, nossas operadoras de celular são péssimas, etc... ?

Sabemos que o Brasil tem uma séria carência de inovação tecnológica e de pesquisa e desenvolvimento nas empresas. Não temos condição de ter um produto competitivo se compararmos com a China, onde os impostos e custos são baixos. Não quero defender o modelo horrível de industrialização chinês, mas por quê não reduzem o preço (tanto no aspecto impostos, quanto nos subsídios) de componentes eletrônicos, máquinas e ferramentas industriais, softwares que a indústria usa etc...? Seria um bom passo para criar uma indústria moderna, fabricando tecnologia de ponta aqui.

Não temos profissionais capazes de projetar tablets, smartphones etc... aqui? Certo que temos. O problema é fazer isso quando um componente que lá fora sai por US$1, chega aqui custando R$ 10. Simplesmente não há competitividade, especialmente com uma China que não respeita direitos autorais, trabalhistas ou ambientais. Óbvio que não podemos desrespeitá-los, mas podemos sim baixar os impostos sobre as matérias-primas e incentivar as boas ideias.

Por quê não taxar junk-food, cigarro, bebida alcoólica, agrotóxicos etc... e cortar os impostos dos produtos e alimentos produzidos de forma sustentável? Criar uma taxa que puna os carros e veículos mais poluidores, assim fazendo com que as pessoas que ainda pensam que não existe poluição, é bobagem etc... paguem sua poluição pelo bolso? Que "recompense" quem compra produtos fabricados localmente, quem troca aquela geladeira de 40 anos atrás por um modelo mais eficiente, quem economiza energia, ou quem troca a carne por alternativas mais limpas? Sustentabilidade para as massas, de forma que elas sintam no bolso a vantagem.

Comprar software? Quem tem cartão internacional pode muitas vezes comprar por download. E mesmo que você não possa pagar, para 90% das necessidades de muita gente por aí existe software livre ou mesmo alternativas de menor custo.

E mesmo que os impostos sobre jogos sejam baixados, vai adiantar muito para o carinha que compra 5 por 10 real no camelô ou baixa terabytes de jogos piratas num único torrent, ou que faz todas as suas compras no Paraguai ou de fontes duvidosas? Se baixar os preços dos softwares e dos gadgets, vai realmente haver impulso para a legalização, ou simplesmente vai se aprofundar a nossa dependência de tecnologias restritivas e atoladas de DRM? Se os impostos baixarem, ainda vai haver desculpa para a vista-grossa que se faz em relação à pirataria?

Por fim, quem garante que a redução de impostos será de fato repassada ao consumidor em sua totalidade? Prevejo empresas simplesmente reajustando os preços e lucrando mais. Ou mesmo comemorando a redução do custo operacional e portanto... mais lucro, sem que nenhuma melhoria aconteça para os usuários.



Já tivemos há algum tempo atrás uma redução de impostos para carros, e a consequência foi que muitas pessoas compraram e deixaram de usar o transporte coletivo de pobre. Enquanto isso, quem não dirige sai prejudicado devido ao quase sucateamento dos transportes públicos. Onde estão os incentivos fiscais para ônibus, trens, etc...?


O que é mais importante? Reduzir impostos sobre gadgets e jogos, apenas para incentivar o consumismo de produtos com obsolescência programada e que restringem a liberdade dos seus usuários, sem que com isso haja um retorno para o país, ou reduzir os impostos daquilo que é bom para a sociedade e o país - explorar boas ideias aqui, gerar empregos, preservar o meio-ambiente etc...? Certamente a segunda opção, mas ela não é tão chamativa para a maioria das pessoas.




Nota 1: Antes que comentem sobre o preço dos livros, lembremos que eles não pagam impostos. Os altos custos deles são culpa da ganância inerente as editoras, que fabricam novas edições incompatíveis com as outras, apenas para obrigar bibliotecas e professores a comprarem livros novamente e dificultarem a situação de quem quer comprar livro usado. O problema não é só brasileiro, basta ir na Amazon e procurar livros lá - igualmente caros. E-books provavelmente não vão resolver o problema, devido ao DRM - um preço muito grande para quem não usa Windows ou Mac, mas esse não é o mérito desse post.

Nota 2: Entendo que o movimento quer reduzir os impostos sobre vários produtos, mas por quê não vemos protestos reduzam o preço dos componentes eletrônicos ou reduzam os impostos sobre os alimentos orgânicos? Certamente é por não haver tanto apelo para a molecada que pensa estar fazendo um grande serviço assinando num sitezinho aleatório.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Anotações sobre o uso de tablets na sala de aula

Vejo muitas sugestões de empregar tablets na educação, com os autores afirmando que é necessário dinamizar o ensino, que o aluno de hoje já é muito mais conectado que há 10 anos atrás, etc.... E até certo ponto, concordo: é sim preciso repensar a forma em que o conteúdo é passado, como as avaliações são feitas, entre outros. Porém, há certos pontos que muitos autores ignoram:
  • Só haverá a verdadeira inclusão digital se o tablet e os conteúdos que nele rodarem forem livres. De forma contrária, simplesmente se aprofunda a dependência tecnológica, fomenta-se a pirataria (o aluno com um iPad vai precisar do iTunes, por exemplo - o qual obrigatoriamente precisa do Windows ou do Mac OS X), a dependência de formatos proprietários e o não-desenvolvimento de soluções, além da obsolescência programada chamada DRM - uma obsolescência a qual não pode ser contornada de forma lícita.

    O livro em papel pode ser um dinossauro, pode estar "obsoleto" (duvido muito), mas ele será legível para sempre se bem-conservado; podemos dizer o mesmo dos e-books? Daqui a 20 anos eu poderei reler um e-book que comprei hoje? Acredito que não, devido à maravilhosa mina de ouro que é o DRM.
  • Não adianta o modelo de aula eu tenho o mundo aos meus dedos se, na hora da avaliação, todos recaem àquela prova teórica, que exige decoreba de fórmulas e de fatos. Tampouco tablets são úteis em regiões onde o acesso a internet é limitado ou inexistente.
  • Imaginemos aquele aluno que mora em uma região afetada pela violência, e que sempre vai de ônibus para a aula. Há como garantir que ele não será assaltado simplesmente para levarem o tablet dele?
    Uma das soluções que pensei seria um sistema análogo àquele usado para rastrear caminhões, cujo acesso seria restrito à diretoria das escolas, às polícias e às secretarias de Educação, e que permitisse facilmente acompanhar onde está um tablet roubado.
    Porém, isso suscita questões relativas à privacidade e o mau uso dessas ferramentas, que permitiriam um diretor mal-intencionado saber onde um aluno está.
  • E aquele aluno bagunceiro, que vai para a aula apenas para arranjar confusão e chamar os outros de "viado"? Ele merece um tablet, que provavelmente será usado para assistir pornografia e dar um jeitinho de entrar no Orkut e no MSN durante a aula? Acredito que não.
  • Muitos professores não querem se renovar, posto que chegaram na sua zona de conforto; é bem possível que eles usem os tablets como porta-copos, ou não queiram mudar suas aulas. 
  • Por fim, considero que nossos problemas na educação são low-tech: é hipocrisia falar em tablets na sala de aula quando muitos alunos sequer têm salas adequadas para estudar, quando muitos professores são impotentes perante os alunos mal-educados, e quando não se pode garantir que o tablet não será roubado na próxima esquina para trocar por uma pedra de crack. 
Mais do que simplesmente ensinar os alunos a consumirem conteúdo, é preciso promover a verdadeira inclusão digital através da criação, com tecnologias livres e abertas, assim formando pessoas que saibam fazer mais do que Office e internet. Fazê-los pensar, refletir e expressar isso, em vez de simplesmente preparar pessoas para marcar bolinhas em uma folha óptica em um vestibular/concurso.



Gostaria de ver alunos aprendendo a se expressar, a desenvolver o raciocínio lógico, usando softwares livres para criar pequenos projetos: sites, programas etc... Claro que um aluno  não vai sair do ensino médio criando patches para o kernel ou fundando uma startup da Web 2.0, mas garanto que de dentro de uma aula dessas podem sim sair excelentes ideias - o que dificilmente aconteceria se os alunos se posicionassem de forma passiva, apenas recebendo conteúdo, e precisando de um Mac pra rodar o SDK do iPad.

É totalmente possível fazer isso com software proprietário, porém realmente é certo obrigar os alunos a piratearem um software para usar em casa, ou viver de esmolas disfarçadas de doação de licenças?
É certo obrigar eles a serem dependentes de uma empresa e dos seus caprichos?
É certo alienar os alunos e criar uma geração dependente de um único fabricante, assim aprofundando o oligopólio das grandes empresas? Acredito que não, e tampouco que isso tudo seja aceitável e adotado em nome da "modernização" do nosso ensino, quando nossos problemas são muito mais prosaicos e se resolvem sem nenhuma tecnologia mais avançada.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Viciados em formatos proprietários

Infelizmente, ainda vejo um uso inaceitável de formatos proprietários nas universidades públicas, e em outros órgãos, algumas vezes chegando ao ponto de professores exigirem o envio de trabalhos e documentos no famigerado e maldito '.doc', e arranjando complicações com os alunos que não o fazem. Ou mesmo, quando documentos importantes - tais como fichas de inscrição e formulários - são gerados nestes formatos fechados.

Vários usuários comuns, e a maioria dos usuários Windows, não irão se importar. Mas os usuários de sistemas operacionais que não o mais usado saem prejudicados, posto que não há como garantir a compatibilidade perfeita das ferramentas livres com esses formatos fechados - muitas vezes, as ferramentas livres implementaram a compatibilidade com eles através da engenharia reversa ou de especificações mal-feitas.       

E por quê pessoas geram arquivos neste formato? Vamos analisar os motivos:
  •  Primeiramente: a maioria dos usuários leigos não sabe o que é um formato de arquivo. Para eles, salvou e abriu, está bom. Logo, tem-se aí um problema fundamental no ensino de informática: não se ensina a trabalhar com um editor de texto, ensina-se a trabalhar com o Word. Não se ensina a usar um browser, ensina-se a usar o Internet Explorer. Proliferam por aí os cursos de Office, mas posso contar nos dedos os cursos de OpenOffice que eu já vi.
  •  Quais são os softwares mais usados? Adivinhem: aqueles que geram arquivos em formatos proprietários por padrão. Mesmo que eu não gere arquivos do Word, preciso ter o Word instalado se eu quiser visualizar um .doc ou .docx com a garantia de que ele montará corretamente. Infelizmente, isso é consequência do item anterior.
  • Não tenho como contar que meu recipiente instalará um OpenOffice só para visualizar meu arquivo no formato deste, ou gerar um arquivo neste formato. Entretanto, ele pode presumir, de forma razoável, que a maioria das pessoas tem o Word disponível - e de fato elas têm, quem não usa essa ferramenta é uma exceção.

A extrema dependência destes, de forma que a entrega de trabalhos, documentos etc... torna-se uma imposição, é inaceitável para uma universidade pública, ou em qualquer serviço público, posto que obriga os usuários a dependerem de uma única ferramenta comercial - isto implica que preciso comprar um Office apenas para enviar trabalhos obrigatórios para disciplinas.
E se eu não tenho condições de comprar? Ah, pega meu CD emprestado aí, assim alimentando um círculo vicioso: preciso piratear o software mais usado, que assim se torna ainda mais pirateado e, portanto, ainda mais utilizado. Com isso, a Microsoft e outras empresas aumentam seu mindshare.

Somam-se a isso todos os problemas inerentes ao uso de tais formatos: incompatibilidades entre versões, impossibilidade de uso de sistemas de controle de versão, e o "bloat" causado por estes arquivos. Enquanto eu posso gerenciar meus documentos LaTeX usando uma ferramenta como o Git ou o Mercurial, posto que eles são arquivos texto, e que eu posso compilar um documento LaTeX de 20 anos atrás sem maiores problemas, o mesmo não se pode dizer de arquivos do Word. De um ponto de vista da computação, formatos binários são mais eficientes para armazenar dados estruturados. Porém, não considero que tal eficiência justifique-se para armazenar meros documentos em texto.

E gostaria de ver se haveria tanto uso de formatos proprietários, fosse o combate à pirataria de software mais ferrenho e mais agressivo, algo feito sistematicamente e não apenas baseado em denúncias. Todo mundo tem Windows e Office em casa? Tem, mas garanto que esmagadora maioria desses são piratas - e muitos dos seus usuários não sabem, ou sabem mas continuam tapando os olhos à questão dos formatos fechados, fingindo que o problema é do cara chato que não usa Windows.

A universidade poderia fornecer licenças? Poderia. Considero isto uma péssima ideia, entretanto, visto que o uso de formatos fechados é um vício, prejudicial a todos, a ser quebrado - e as licenças acadêmicas são apenas válidas enquanto o estudante não completa seu curso, ou seja, a velha e extremamente eficaz estratégia de dar a droga (no sentido de substância viciante) de graça de forma a criar viciados.

Deve-se educar para o uso de softwares livres e formatos abertos sempre que possível, e preferencialmente tornar isto um requisito, em benefício de toda uma sociedade que reduz sua dependência tecnológica.

Porém, a adoção de formatos abertos não é interesse da indústria, principalmente daquela que desenvolve "softwares de consumo" usados no desktop: visto que tais formatos não suportam DRM, e que eles facilitam a interoperabilidade, eles impossibilitam o tão almejado vendor lock-in, a criação de uma dependência cada vez mais aprofundada.

É hora de cortar a dependência extrema com formatos proprietários da qual somos vítima diariamente, mas que é negligenciada por muitos. É preciso cobrar e acabar com a história do '.doc'. Mas infelizmente, tão cedo isso não irá ocorrer, posto que seria necessária uma mudança muito grande no ensino de informática e no processo de inclusão digital, e que a indústria do software certamente sairia prejudicada.