segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Por que eu realmente não gosto do MATLAB

Acredito que todos que me conhecem saibam que eu realmente não gosto do MATLAB e já tenham me ouvido expressar meu desprezo por ele. Não deveria (afinal, ele é o ganha-pão da área onde eu trabalho), mas deixo isso bem claro toda vez que eu falo sobre ele. Vamos a alguns motivos:

Primeiro: a linguagem dele é péssima, tanto é que surgiram infinitos 'hacks' em cima. Impossibilita código limpo, por não ter coisas como uma boa implementação de argumentos nomeados, namespaces e uma orientação a objetos de verdade.

E por sinal, uma das maiores (na minha opinião) abominações é que o arquivo de código (.m) precisa mandatoriamente ter o mesmo nome da primeira função neste presente. Porque aparentemente includes são luxo: imaginem uma linguagem C onde em vez de stdio.h tivéssemos printf.h, scanf.h, etc...? Legal, só que não.

Segundo:
ambiente proprietário, bugado, com pouca integração com o resto do sistema, lento (quem foi o jênio que teve a ideia de que Java era uma boa ideia? Qual o problema com C/GTK ou C++/Qt?) e limitadíssimo. Várias vezes ele simplesmente acusou um fatal error no meio do trabalho e depois fechou.

Terceiro: limitações imbecis. Outro dia eu implementei um algoritmo que beneficiaria extremamente de processamento paralelo (tenho um i7, e não é justo que eu só consiga ocupar um dos núcleos). Para isso existe a toolbox de processamento paralelo do MATLAB, mas adivinhem a limitação completamente burra que existe: um "for" paralelizado só funciona quando o iterador é inteiro.

Tirando da própria documentação dele:

parfor loopvar = initval:endval, statements, end allows you to write a loops for a statement or block of code that executes in parallel  [....] initval and endval must evaluate to finite integer values [...].

Em tradução livre: parfor var_loop = val_inicial:val_fim, comandos, end" permitem você escrever um loop para um conjunto de comandos que executa em paralelo [....] val_inicial e val_fim precisam ser números inteiros [...] (grifo meu)

Sim, é isso mesmo: ou o loop só itera sobre números inteiros ou eu subutilizo minha CPU. Uma limitação totalmente arbitrária. Claro que vão aparecer gambiarras diversas para contornar a limitação: sinal de um sistema mal-projetado.

E principalmente: a maioria das pessoas usa ele por não ter que comprar a licença (afinal, tem no Pirate Bay ou é só pedir o DVD pra um dos colegas). Se tivessem que pagar por cada toolbox  - não, ele não vem com esse monte de toolboxes (eu queria ver o custo de cada uma, mas preciso preencher um cadastro que realmente não estou animado a fazer) - queria ver se existiria tanta babação de ovo em cima dele. Queria ver se professores iriam montar cursos inteiros em cima dele, ou se haveria tanta gente usando ele para mestrados e doutorados.

Aliás, queria ver se o pessoal ia defender software proprietário tão descaradamente e ia ficar nessa preguiça de procurar alternativas se não fosse fácil assim piratear. Mas isso é assunto para outro post. Lembrem, enquanto isso, das discussões sobre a necessidade de fazer ciência com software livre e formatos abertos.

Existe a versão para estudante? Sim, que é uma piada de mau gosto: limitadíssima. Só 32-bit (quase em 2013, quando qualquer computador atual já vem com SO 64-bit) e com recursos desativados. Comparar com a versão para estudante do Mathematica: nenhuma limitação técnica - apenas restrições contratuais de uso (não pode explorar comercialmente, precisa fornecer comprovante de que é estudante etc...).

Quanto à questão das licenças, podem me perguntar: e o Octave? e o Scilab?. Ambos imitações que copiam os vícios da linguagem de inspiração. Imitar uma coisa ruim torna a imitação igualmente ruim - se não pior.

Enquanto isso, fico com o Python e a comunidade fantástica que existe ao redor dele. Se eu tiver que usar um software científico proprietário, fico com o Mathematica - que, apesar da estranheza da linguagem, entrega muito mais valor pelo mesmo preço (várias das toolboxes que são opcionais no MATLAB estão incluídas por padrão nele). Minha 'loja' de toolboxes é o PyPI, o GitHub etc...  Considere o Python para seu próximo projeto, não dói nada (principalmente para quem vem do MATLAB: a NumPy, SciPy etc... são projetadas para fornecerem um ambiente de fácil adaptação).

PS: no quarto parágrafo, a escrita errada de jênio foi intencional.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Como ser sem-noção ou mal-intencionado mesmo: o caso Tecnomania

Todo mundo já conhece a Tecnomania, da gloriosa Tekpix, a excelente câmera que ninguém tem, ninguém nunca viu e que tem lentes de diamante, processador de imagens com tecnologia da NASA e cartão de memória quântico de 216.5 TB, podendo fotografar o invisível e ser tão ou mais poderosa que o Hubble e um microscópio de elétrons ao mesmo tempo  - isso justifica o preço de mais de R$ 3500.


Mas eles não se restringem a isso: já pensou em comprar um tablet Android genérico pelo preço de 2 iPads? Eles vendem. Um tablet de 7", com recursos tão avançados quanto os de 'relógio' e 'configurações'.

  
Para comparação, o preço do iPad mais caro disponível no Brasil, na mesma data era de R$ 1999:





Acho que eles tomaram umas lições com a unidade brasileira da Apple, com a diferença que o produto deles não pode nem ser chamado de Héppow. Provavelmente é um tablet genérico, desses que se encontra às pencas na China e que custa US$ 40~60 no atacado:



Ainda não está satisfeito? Você pode comprar um cartão SD de 2 GB por R$ 299. Excelente compra, não? Vendo os cartões de 2 GB que eu tenho aqui na gaveta por R$ 100, cobrindo o preço da concorrência!

Sem falar nos outros produtos disponíveis na loja, todos com um preço que passa longe de ser minimamente coerente. Como exemplo, temos esse forno elétrico, que custa US$ 170 na Amazon e R$ 1600 na Tecnomania. Não sabia que R$ 10 = US$ 1 (chamaram a hiperinflação de volta pro poder?).

Fico pensando onde eles querem chegar com isso. Como não é ideal atribuir à malícia aquilo que pode ser explicado pela ignorância (a navalha de Hanlon), prefiro acreditar que eles querem fisgar o babaca que lê em 12 vezes sem juros e sai correndo comprar, ou que simplesmente são pseudo-vendedores burros esperando a ignorância de alguém?

Realmente existem otários a dar com pau (nos múltiplos sentidos) por aí; de outra forma, o que justificaria tudo isso?



Já que eu falei em Tekpix, aprenda a usar a sua com esse vídeo da Rede 2112 de Colaboradores:


E eles que se atrevam a deletar os produtos do site... tenho ibagens de todas essas páginas guardadas aqui e vou fazer questão de publicar elas em todas as formas.

domingo, 2 de dezembro de 2012

IPython: notebook e Qt Console

O IPython já é velho conhecido de quem desenvolve em Python, dispensa introduções etc... Mas outro recurso interessante, e que ainda não é muito explorado, é o recurso de notebook: um caderno onde se pode desenvolver de forma interativa.

Ele é igual a ideia dos notebooks, worksheets etc... para quem já usou o Mathematica, o Sage ou outros softwares matemáticos: um documento que concentra todo o código-fonte, junto (ou não) com a descrição e/ou a documentação dele.

Para usá-lo? Simples: digite ipython notebook --pylab inline no terminal, e pronto, vai abrir uma janela do seu browser. Daí é só criar um novo notebook.

Todos os recursos do IPython estão disponíveis (exceto o %debug, que requer uma interatividade que o 'notebook' ainda não suporta). E inclusive é possível embutir vídeos, imagens etc... dentro do documento! Excelente para a geração de aulas, tutoriais, e outras coisas que não são tão práticas de fazer com outros softwares (inclusive certos softwares proprietários :)

Ele também se demonstra um ótimo ambiente para trabalhar com Octave, R, etc... ou (para quem gosta - acho que todos sabem que eu não faço parte dessa estatística) com o MATLAB, através das extensões do IPython.

Outra vantagem, que eu não explorei, é a execução dele num servidor dedicado ou na nuvem: tchau à necessidade de instalar uma cópia do ambiente em cada máquina, basta ter um browser razoavelmente atual e pronto.

Uma possibilidade final que o IPython fornece é executar em um 'terminal gráfico' em Qt, usando o comando ipython2 qtconsole --pylab inline. Essa é mais interessante para scripts que executem e forneçam seus resultados de forma visual.

sábado, 3 de novembro de 2012

ENEM estão preparados

Hoje (03/11) e amanhã, está acontecendo o ENEM (por sorte só precisei fazer uma vez, em 2007, na época em que ainda não era válido como entrada para o vestibular). Como todos os anos e em qualquer concurso público de grande porte, sempre há alguma trapalhada - felizmente nesse ano não houve nenhum vazamento de prova - e invariavelmente existem pessoas que conseguem fazer besteira.

Começa pelo falso anúncio de um suposto cancelamento da prova, que percorreu as redes sociais e foi o suficiente para muita gente perder a prova. Chegamos a uma inversão fantástica, sobre a qual já falei aqui no blog: um quase-anônimo, um troll, falando em uma rede social tem mais peso e gera mais buzz do que o próprio organizador da prova!

Outros chegaram atrasados, como sempre encontrando bodes expiatórios: foi o trânsito. Foi isso e aquilo. Faltou ônibus. Pode ser que tenha faltado, mas nada invalida a irresponsabilidade de chegar uns 30 minutos antes da prova. Aliás, se fosse para ir a qualquer outra coisa sem ser uma prova, essas pessoas estariam lá horas, dias antes. Teriam todo um esquema de deslocamento para ir a uma festa ou a uma final de um jogo, mas não fazem o mesmo para uma prova? Interessante...

Alguns dos que entraram, já começaram sendo expulsos por tirarem fotos das provas ou twittarem de dentro da sala de prova. E o mais legal de tudo: dá pra ver o username de uma dessas pessoas... e olhando no Instagram dela: ela deletou a foto, já tarde demais. Que legal, não? Que orgulho para todos os amiguinhos e familiares dela ver o nome dela estampado nos sites de notícias, junto com a informação de que a prova seria anulada. E mais bonito ainda é não ter responsabilidade pelo que faz e sair correndo para consertar as cagadas.

Mas o pior de tudo: gente que, não tendo sido enganada pelo cancelamento da prova, e nem tendo chegado atrasada, tirado fotos das provas ou esquecido de marcar o cartão, "chutou todas as questões", estava cansada pois tinha ido a uma festa na noite anterior. Quais são as prioridades dessa pessoa mesmo?

Muitos nem sequer leram (ou deixaram para ler na última hora - como é de praxe na cultura do virar a noite estudando) o manual do candidato, o edital etc... que deixava claríssimas todas as regras da prova. Preferem a opinião de um qualquer-um nas redes sociais à documentação oficial.

Simplesmente: queria ver essas pessoas em uma faculdade. Quanto tempo iriam durar lá dentro e com que aproveitamento iriam se formar (se é que iriam) se eles se portassem da mesma forma que se comportaram no ENEM, chegando atrasados, esquecendo de colocar respostas na prova e "chutando tudo" - não lembro de nenhuma prova onde eu tenha conseguido chutar.

Talvez toda essa imaturidade e irresponsabilidade explique os índices de desistência e de reprovação (combatidos com um emburrecimento da matéria nas faculdades - afinal, eles precisam de estatísticas positivas para conseguir verba, e professor que reprova muito é carrasco, só serve pra ferrar os alunos, e outras palavras impróprias para o horário).

Infelizmente, nosso problema não é apenas educação; é a completa falta de maturidade necessária para realizar uma prova e cursar o ensino superior, é a falta de capacidade de interpretação de regras e de instruções, é a falta de capacidade de diferenciar o que é verdade do que é fraude, calúnia ou enrolação, é a falta de capacidade de lembrar de um compromisso e se preparar de forma correspondente (mas garanto que se fosse uma festinha, eles já estariam preparados 2 horas antes e com todo um esquema de transporte planejado).

Ainda temos um caminho muito longo a percorrer até conseguirmos arrumar a geração de idiotas que formamos: a geração que leva tudo na brincadeira, que precisa colocar tudo a perder apenas para satisfazer seu desejo de compartilhar e de fazer piadinha, a geração irresponsável.

Créditos da foto: G1

sábado, 13 de outubro de 2012

A morte do PC: ainda não

Os rumores sobre minha morte foram exagerados. - Mark Twain

Virou lugar-comum dizer que o PC está obsoleto e que estamos na era de um "pós-PC" baseado em tablets e smartphones. Nada poderia estar mais longe da verdade. Vejamos por que:

  • Em primeiro lugar: a maioria dos computadores atuais já atingiu um patamar de "bom o suficiente" para a maioria das pessoas. Não vai ser a troca de um Core 2 Duo para um i3 ou i5 que vai tornar um usuário doméstico ou corporativo comum (Office, internet e talvez alguma outra coisa) mais produtivo.

    Claro que sempre haverão áreas onde é necessário maior poder de processamento. Mas eles representam ínfima parcela do mercado (quantos daqui realmente são gamers ou trabalham profissionalmente com edição de áudio/vídeo ou desenvolvimento?), não pesam muito nas estatísticas.

    A situação é ainda mais estável em ambiente corporativo: aquele velho Pentium 4 é mais do que suficiente para acessar o sistema da empresa e o IE 6 (e consequentemente o Windows XP) necessário para acessar a intranet desta. Há também todo um custo - nada bem-vindo em tempo de crise - envolvido para atualizar e homologar novos sistemas operacionais.

    A consequência disso? Um alarmismo de 'as vendas de computadores novos se reduziram', o que está levando à falaciosa conclusão de que 'o PC está morrendo'. Ele não está morrendo: trata-se simplesmente dele ter chegado ao nível 'bom o suficiente' para muitos.
  • Produtividade em tablets e smartphones? Ainda é limitada. Não consigo imaginar ninguém produzindo grandes documentos nesses dispositivos, ou fazendo qualquer atividade que exija maior poder computacional.

    Sim, eu posso usar teclado externo nesses dispositivos, mas... (invocando o Philosoraptor) daí eles não se transformam em notebooks?

    Para desenvolvimento? Pior ainda: tablets estão longe de ser autossuficientes, não podemos desenvolver software para eles neles mesmos. Os dispositivos da Apple nunca terão essa característica por razões bem óbvias (tornaria a App Store, menina dos olhos da Apple, desnecessária), e mesmo no Android o desempenho do hardware inviabiliza grandes compilações.
  • A nuvem... ah, a nuvem. Pena que ela seja inviável no Brasil e em muitos países em desenvolvimento, onde a infraestrutura de internet móvel ainda é limitada, e mesmo nos países 'desenvolvidos' ela esbarre em problemas de cobertura e principalmente: limites de tráfego.

    Alguns gigabytes de franquia vão com facilidade quando tudo está online, e então voltamos à velocidade de discada. Sem falar nos óbvios problemas com privacidade, direitos de usuário etc...
  • Desktops e notebooks ainda são mais baratos que tablets, principalmente nos países em desenvolvimento, e entregam muito mais valor.

    Mesmo um desktop de 5 anos de idade, que pode ser comprado usado, consegue rodar softwares atuais de forma adequada com alguns upgrades não tão caros (passar um computador de 2 para 4 GB de RAM é muitas vezes suficiente). O mesmo não se pode dizer (ou melhor, não se poderá dizer - veremos daqui a uns anos, quando o primeiro iPad fizer 5 anos) dos tablets.
  • PCs dão uma liberdade muito maior do que dispositivos que precisam de rooting ou jailbreak para permitir o uso irrestrito. Em um PC, posso instalar o sistema operacional e o software que eu quiser (por meios lícitos ou não), sem depender de uma loja de aplicativos.

    Se o Windows não me permite ou me limita a fazer alguma coisa, posso usar o Linux, e o contrário também é verdadeiro; ou posso usar diversos sistemas ao mesmo tempo - algo obviamente impossível de fazer com um dispositivo móvel. Se o meu sistema operacional tem problemas com licenças ou DRM, uso outro: algo que nenhum tablet ou smartphone permite sem gambiarras extensivas.

  • É muito mais difícil garantir a segurança de um dispositivo móvel do que a de um computador preso a uma mesa. Nem preciso enumerar os casos de vazamentos de dados e as complicações trazidas pelo fato de alguém esquecer seu smartphone ou tablet em algum lugar.
  • Por fim: nos dispositivos móveis, existe o consumismo burro encanto de saiu um modelo novo com mais recursos/hardware melhor, o que por si só já é suficiente para motivar a troca de dispositivo: mais uma vez, inflando o mercado.
Concluindo: os tablets e os smartphones estão ganhando mercado? Sim, mas ele não é excludente com o mercado já estabilizado dos computadores pessoais. Faça um teste: conte quantas pessoas que você conhece tem um computador, um smartphone e um tablet. Ficou óbvio agora, não?

O que já vemos é um maior consumo de conteúdo em dispositivos móveis - que é o que a maioria dos usuários casuais faz - e o computador sendo deixado para eventualmente fazer algum trabalho mais elaborado. Nos usuários corporativos (especialmente quem não depende de softwares de nicho e nem de processamento pesado para seu trabalho), veremos uma situação similar: o computador fica na empresa, o tablet vai a campo e o smartphone fica 24 horas com a pessoa.


Mas isso está longe de ser o canto do cisne do computador pessoal: ninguém conseguiu substituir ele de forma completa, exceto talvez para os usuários muito casuais e cujo uso seja restrito a navegar em alguns sites e brincar com alguma app (vejo a maioria das apps como brinquedos) de vez em quando. O caminho provavelmente vai ser a convergência, e todos viverão felizes para sempre.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Keep calm and ask on Stack Exchange


Descobri a rede Stack Exchange quando estava com uma dúvida em um programa no qual estava trabalhando e, quando o Google não adiantou, lembrei do Stack Overflow (o primeiro site dessa rede). Embora não participe do Stack Overflow ativamente, uso outros sites da rede; e muitas vezes eles são mais convenientes do que o Google para achar respostas de alta qualidade.

Algumas coisas de que gosto nela:


  • A principal: ela NÃO é um fórum ou uma rede social (e quem tentar usá-la dessa forma vai quebrar a cara rapidinho), mas sim um espaço para Q&A de alta qualidade. Perguntas subjetivas, que podem gerar flames ou mimimi, trollagens etc... não duram muito tempo antes de serem rejeitadas pela comunidade (que pode votar em perguntas/respostas de alta ou baixa qualidade), fechadas ou sumariamente deletadas. Não é um Yahoo! Respostas e suas pérolas.

    Na própria descrição da rede:

    We welcome questions that are clear and specific, representing real problems that you face; Stack Exchange is not the place for conversation, opinions, or socializing.
    (Somos abertos a perguntas claras e específicas, representando problemas reais que você venha a encontrar. Stack Exchange não é o local para conversas, opiniões ou fazer amigos.)

    A atividade social mais próxima disso são as salas de "bate-papo". Não, não é em nada parecido com os velhos e bons (???) bate-papos do UOL/Terra/etc...: servem, por exemplo, para que um usuário possa pedir esclarecimentos acerca de uma pergunta.


  • Usuários recebem pontuação por boas perguntas/respostas e podem ser premiados com badges por feitos (por exemplo, uma pergunta com mais de mil visitas, ou que recebeu mais de 10 votos, ou um usuário generalista, que responde perguntas de diversos assuntos).
  • A comunidade é a moderação: conforme o usuário vai ganhando pontuação, ele ganha o direito de editar questões, votar, entre outras atividades. Questões ruins ou inadequadas ao propósito de um dos sites? Quem as modifica, ou recomenda o fechamento delas, é a comunidade. Efetivamente um usuário de alta pontuação não tem muitas diferenças em relação a um moderador (a principal diferença: a palavra dos moderadores é final, e eles tem poderes como bloquear usuários).
  • Aliás, é a comunidade quem promove a criação de novos sites, através do Area 51. Um processo de feedback: os interessados propõem novos sites (ou demonstram interesse nos que já existem) e, assim que é atingida a massa crítica, o site é lançado em caráter experimental: disto ele pode vir ou não a sobreviver.

    Através desse processo já foram lançados sites para diversos temas: de Linux a judaísmo, passando por bicicletas e ficção científica. Outros encontram-se em "beta": xadrez, design gráfico, processamento de sinais etc...


O Stack Exchange foi um dos serviços que realmente demonstrou a capacidade de atrair perguntas e respostas de alta qualidade, vindas de profissionais e entusiastas das mais diversas áreas. Altamente recomendado, apesar do caráter potencialmente viciante, para programadores, administradores de sistemas, DBAs, usuários Linux ou para quem se interessa por matemática, física ou eletrônica, entre outras coisas.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

A culpa é da NASA?

Como era de se esperar, depois da recente chegada da Curiosity à Marte, vemos uma tonelada de mimimis do tipo a NASA gasta dinheiro para isso, enquanto tem gente morrendo de fome na Terra: a velha história de colocar a culpa no lugar errado.

Simples: Não reclamem com a NASA, ela não tem nada a ver com isso, ela não é ONG ou instituição de caridade e tampouco está na missão dela o combate à fome.

Reclamem com os verdadeiros culpados: os bancos de investimento, que deliberadamente mantêm os preços dos alimentos altos para dar lucro aos seus clientes. Os governos, que dão financiamento para exportação de alimentos, mas que cobra impostos de quem produz alimentos para consumo interno. As multinacionais da alimentação, que monopolizam (com complacência do Estado) as terras (ainda) não-exauridas dos países em desenvolvimento, posto que nos seus países de origem elas já não servem mais para sustentar os hábitos de consumo.

A NASA não tem nada a ver com o estado em que os países ricos deixaram (e deixam, até hoje) os países emergentes, nem com o fato de boa parte das nossas terras ser usada para agricultura de alto impacto (com defensivos agrícolas - eufemismo para agrotóxicos) e pecuária.

E por sinal: ela custa apenas US$ 18 bilhões (ou 0,5%) do orçamento dos EUA - contraste, por exemplo, com o custo do Ministério da Defesa americano (algumas centenas de bilhões de dólares).

NASA's FY 2011 budget of $18.4 billion represents about 0.5% of the $3.4 trillion United States federal budget during the year. (wikipédia)
(O orçamento da NASA para o ano fiscal de 2011 representa cerca de 0,5% dos US$ 3,4 bilhões do orçamento federal dos EUA no ano [de 2011]).

Somando-se a isso o fato de muita da tecnologia empregada nesses programas ser produzida e desenvolvida nos Estados Unidos: algo extremamente bem vindo, se contrastarmos com o made in China de cada dia. Aliás, essa é uma das melhores razões para que qualquer país tenha um bom programa espacial: desenvolver tecnologia de ponta (já que ela não será facilmente comprada, por motivos muito óbvios). Um progresso muito mais desejável do que o simples desenvolvimentismo cego, de baixo valor agregado e de grande impacto social e ambiental que vemos nos países "emergentes".

A propósito, boa parte da tecnologia de ponta e boa parte do que usamos hoje surgiu ou foi aperfeiçoada com ideias desenvolvidas para aplicações espaciais. Se você usou telefone celular, GPS, um computador atual etc... pode ter certeza que passou pelos resultados da exploração espacial: e aí, são pesquisas "inúteis" mesmo?

Ao contrário do que pode parecer (talvez pela escassez mundial no jornalismo científico para os não-cientistas), cortar os investimentos em pesquisas julgadas inúteis não significa necessariamente que eles irão para resolver problemas sociais, e vice-versa: a existência de um não implica a (não-)existência do outro.