sexta-feira, 29 de abril de 2011

Anotações sobre o uso de tablets na sala de aula

Vejo muitas sugestões de empregar tablets na educação, com os autores afirmando que é necessário dinamizar o ensino, que o aluno de hoje já é muito mais conectado que há 10 anos atrás, etc.... E até certo ponto, concordo: é sim preciso repensar a forma em que o conteúdo é passado, como as avaliações são feitas, entre outros. Porém, há certos pontos que muitos autores ignoram:
  • Só haverá a verdadeira inclusão digital se o tablet e os conteúdos que nele rodarem forem livres. De forma contrária, simplesmente se aprofunda a dependência tecnológica, fomenta-se a pirataria (o aluno com um iPad vai precisar do iTunes, por exemplo - o qual obrigatoriamente precisa do Windows ou do Mac OS X), a dependência de formatos proprietários e o não-desenvolvimento de soluções, além da obsolescência programada chamada DRM - uma obsolescência a qual não pode ser contornada de forma lícita.

    O livro em papel pode ser um dinossauro, pode estar "obsoleto" (duvido muito), mas ele será legível para sempre se bem-conservado; podemos dizer o mesmo dos e-books? Daqui a 20 anos eu poderei reler um e-book que comprei hoje? Acredito que não, devido à maravilhosa mina de ouro que é o DRM.
  • Não adianta o modelo de aula eu tenho o mundo aos meus dedos se, na hora da avaliação, todos recaem àquela prova teórica, que exige decoreba de fórmulas e de fatos. Tampouco tablets são úteis em regiões onde o acesso a internet é limitado ou inexistente.
  • Imaginemos aquele aluno que mora em uma região afetada pela violência, e que sempre vai de ônibus para a aula. Há como garantir que ele não será assaltado simplesmente para levarem o tablet dele?
    Uma das soluções que pensei seria um sistema análogo àquele usado para rastrear caminhões, cujo acesso seria restrito à diretoria das escolas, às polícias e às secretarias de Educação, e que permitisse facilmente acompanhar onde está um tablet roubado.
    Porém, isso suscita questões relativas à privacidade e o mau uso dessas ferramentas, que permitiriam um diretor mal-intencionado saber onde um aluno está.
  • E aquele aluno bagunceiro, que vai para a aula apenas para arranjar confusão e chamar os outros de "viado"? Ele merece um tablet, que provavelmente será usado para assistir pornografia e dar um jeitinho de entrar no Orkut e no MSN durante a aula? Acredito que não.
  • Muitos professores não querem se renovar, posto que chegaram na sua zona de conforto; é bem possível que eles usem os tablets como porta-copos, ou não queiram mudar suas aulas. 
  • Por fim, considero que nossos problemas na educação são low-tech: é hipocrisia falar em tablets na sala de aula quando muitos alunos sequer têm salas adequadas para estudar, quando muitos professores são impotentes perante os alunos mal-educados, e quando não se pode garantir que o tablet não será roubado na próxima esquina para trocar por uma pedra de crack. 
Mais do que simplesmente ensinar os alunos a consumirem conteúdo, é preciso promover a verdadeira inclusão digital através da criação, com tecnologias livres e abertas, assim formando pessoas que saibam fazer mais do que Office e internet. Fazê-los pensar, refletir e expressar isso, em vez de simplesmente preparar pessoas para marcar bolinhas em uma folha óptica em um vestibular/concurso.



Gostaria de ver alunos aprendendo a se expressar, a desenvolver o raciocínio lógico, usando softwares livres para criar pequenos projetos: sites, programas etc... Claro que um aluno  não vai sair do ensino médio criando patches para o kernel ou fundando uma startup da Web 2.0, mas garanto que de dentro de uma aula dessas podem sim sair excelentes ideias - o que dificilmente aconteceria se os alunos se posicionassem de forma passiva, apenas recebendo conteúdo, e precisando de um Mac pra rodar o SDK do iPad.

É totalmente possível fazer isso com software proprietário, porém realmente é certo obrigar os alunos a piratearem um software para usar em casa, ou viver de esmolas disfarçadas de doação de licenças?
É certo obrigar eles a serem dependentes de uma empresa e dos seus caprichos?
É certo alienar os alunos e criar uma geração dependente de um único fabricante, assim aprofundando o oligopólio das grandes empresas? Acredito que não, e tampouco que isso tudo seja aceitável e adotado em nome da "modernização" do nosso ensino, quando nossos problemas são muito mais prosaicos e se resolvem sem nenhuma tecnologia mais avançada.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Viciados em formatos proprietários

Infelizmente, ainda vejo um uso inaceitável de formatos proprietários nas universidades públicas, e em outros órgãos, algumas vezes chegando ao ponto de professores exigirem o envio de trabalhos e documentos no famigerado e maldito '.doc', e arranjando complicações com os alunos que não o fazem. Ou mesmo, quando documentos importantes - tais como fichas de inscrição e formulários - são gerados nestes formatos fechados.

Vários usuários comuns, e a maioria dos usuários Windows, não irão se importar. Mas os usuários de sistemas operacionais que não o mais usado saem prejudicados, posto que não há como garantir a compatibilidade perfeita das ferramentas livres com esses formatos fechados - muitas vezes, as ferramentas livres implementaram a compatibilidade com eles através da engenharia reversa ou de especificações mal-feitas.       

E por quê pessoas geram arquivos neste formato? Vamos analisar os motivos:
  •  Primeiramente: a maioria dos usuários leigos não sabe o que é um formato de arquivo. Para eles, salvou e abriu, está bom. Logo, tem-se aí um problema fundamental no ensino de informática: não se ensina a trabalhar com um editor de texto, ensina-se a trabalhar com o Word. Não se ensina a usar um browser, ensina-se a usar o Internet Explorer. Proliferam por aí os cursos de Office, mas posso contar nos dedos os cursos de OpenOffice que eu já vi.
  •  Quais são os softwares mais usados? Adivinhem: aqueles que geram arquivos em formatos proprietários por padrão. Mesmo que eu não gere arquivos do Word, preciso ter o Word instalado se eu quiser visualizar um .doc ou .docx com a garantia de que ele montará corretamente. Infelizmente, isso é consequência do item anterior.
  • Não tenho como contar que meu recipiente instalará um OpenOffice só para visualizar meu arquivo no formato deste, ou gerar um arquivo neste formato. Entretanto, ele pode presumir, de forma razoável, que a maioria das pessoas tem o Word disponível - e de fato elas têm, quem não usa essa ferramenta é uma exceção.

A extrema dependência destes, de forma que a entrega de trabalhos, documentos etc... torna-se uma imposição, é inaceitável para uma universidade pública, ou em qualquer serviço público, posto que obriga os usuários a dependerem de uma única ferramenta comercial - isto implica que preciso comprar um Office apenas para enviar trabalhos obrigatórios para disciplinas.
E se eu não tenho condições de comprar? Ah, pega meu CD emprestado aí, assim alimentando um círculo vicioso: preciso piratear o software mais usado, que assim se torna ainda mais pirateado e, portanto, ainda mais utilizado. Com isso, a Microsoft e outras empresas aumentam seu mindshare.

Somam-se a isso todos os problemas inerentes ao uso de tais formatos: incompatibilidades entre versões, impossibilidade de uso de sistemas de controle de versão, e o "bloat" causado por estes arquivos. Enquanto eu posso gerenciar meus documentos LaTeX usando uma ferramenta como o Git ou o Mercurial, posto que eles são arquivos texto, e que eu posso compilar um documento LaTeX de 20 anos atrás sem maiores problemas, o mesmo não se pode dizer de arquivos do Word. De um ponto de vista da computação, formatos binários são mais eficientes para armazenar dados estruturados. Porém, não considero que tal eficiência justifique-se para armazenar meros documentos em texto.

E gostaria de ver se haveria tanto uso de formatos proprietários, fosse o combate à pirataria de software mais ferrenho e mais agressivo, algo feito sistematicamente e não apenas baseado em denúncias. Todo mundo tem Windows e Office em casa? Tem, mas garanto que esmagadora maioria desses são piratas - e muitos dos seus usuários não sabem, ou sabem mas continuam tapando os olhos à questão dos formatos fechados, fingindo que o problema é do cara chato que não usa Windows.

A universidade poderia fornecer licenças? Poderia. Considero isto uma péssima ideia, entretanto, visto que o uso de formatos fechados é um vício, prejudicial a todos, a ser quebrado - e as licenças acadêmicas são apenas válidas enquanto o estudante não completa seu curso, ou seja, a velha e extremamente eficaz estratégia de dar a droga (no sentido de substância viciante) de graça de forma a criar viciados.

Deve-se educar para o uso de softwares livres e formatos abertos sempre que possível, e preferencialmente tornar isto um requisito, em benefício de toda uma sociedade que reduz sua dependência tecnológica.

Porém, a adoção de formatos abertos não é interesse da indústria, principalmente daquela que desenvolve "softwares de consumo" usados no desktop: visto que tais formatos não suportam DRM, e que eles facilitam a interoperabilidade, eles impossibilitam o tão almejado vendor lock-in, a criação de uma dependência cada vez mais aprofundada.

É hora de cortar a dependência extrema com formatos proprietários da qual somos vítima diariamente, mas que é negligenciada por muitos. É preciso cobrar e acabar com a história do '.doc'. Mas infelizmente, tão cedo isso não irá ocorrer, posto que seria necessária uma mudança muito grande no ensino de informática e no processo de inclusão digital, e que a indústria do software certamente sairia prejudicada.

domingo, 3 de abril de 2011

O professor mais-ou-menos

Gostaria de poder dizer que sempre tive excelentes professores na faculdade, mas infelizmente a realidade é outra. Tais professores, infelizmente, parecem cada vez ser mais uma exceção, e a maioria deles são os professores mais-ou-menos (os professores ruins e muito ruins existem, mas são poucos - considero como 'mais ou menos' o que o pessoal chamaria de 'professor ruim').

Normalmente, o professor mais-ou-menos é aquele que se contenta com pouco. Se contenta com ir para a faculdade, dar sua aula e depois voltar para casa. Nunca está disponível para ajudar os alunos, não se envolve em nenhum projeto de extensão, de pesquisa ou de reciclagem. Pode ficar com o mesmo conhecimento para sempre, afinal é o que basta para ele dar a mesma aula durante anos.

Ele usa o mesmo material de aula há muito tempo, várias vezes com os mesmos livros que ele usou na graduação. E é irônico ver que, ao passo em que a cobrança para com os alunos em relação à atualização é ferrenha, o professor pode se dar o luxo de ficar estagnado e repetindo o mesmo conteúdo mecanicamente durante anos.

É aquele professor que encontra motivos para prejudicar seus alunos: desconta pontos por picuinhas em uma prova, tais como um passo não-crucial omitido em um cálculo, rejeita o uso de calculadoras pela paranoia dos alunos poderem usá-las para colar, diminui a nota da turma toda pelo erro de um aluno, etc... exceto na hora de ajudar as meninas que ele sonha em comer. Que transforma uma matéria interessante em algo absolutamente chato.

Já que eu falei em ajudar as meninas, posso citar uma historinha que aconteceu semestre passado comigo: durante uma prova, o professor se levanta e do mais absoluto nada começa a ajudar uma menina da sala. Se um menino fosse lá fazer a mesmíssima pergunta para ele, recebia um belo te vira, estamos em prova. Hipocrisia, hipocrisia ou tentativa de um professor forever alone de puxar o saco de alguém?

Ele não sabe como reagir perante os avanços nas ferramentas de ensino: slides? Apenas para serem lidos de forma monótona e mecânica. Trabalhos? Precisam obrigatoriamente serem entregues impressos - pergunto o que esse professor faz com os trabalhos de semestres passados. Internet? Não presta, tem muita besteira (e de fato tem, mas espera-se que todo aluno universitário, e que todo professor saiba separar a informação válida da ruim, verificar fatos e fontes etc...).

É aquele professor que surfa na onda da estabilidade, que chegou à sua zona de conforto e que dela só sairá quando se aposentar. Que confunde experiência com direito a estagnação, ou anos de carreira com experiência - já vi muitas pessoas há anos fazendo a mesma coisa e que não melhoram, continuam sendo mais-ou-menos nisso. Por sinal, o profissional experiente não é aquele que sobe de nível na cadeia empresarial, recebendo mais responsabilidades e afazeres por isso?

Ele cobra dos alunos o que ele não consegue oferecer: exatidão, organização, responsabilidade e compromisso. O que dizer de um professor que não planeja as aulas e vai fazendo tudo on the fly, decidindo aleatoriamente qual é o próximo assunto? De um professor que enche dois quadros com cálculos para chegar no fim e "ah, eu errei lá no começo"? Lamentável.

Confunde quantidade com qualidade, atola os alunos com exercícios que podem ser feitos de maneira mecânica, ao invés de dar uma pequena quantidade de exercícios de alta qualidade e que façam o aluno pensar. Dá provas de decoreba, de resolução de problemas teóricos [1].

E talvez eu seja pessimista, cínico etc... mas infelizmente noto que os bons professores são poucos, e cada vez mais raros. E normalmente esses bons professores são jovens, ao contrário do que alguns insistem em dizer no que toca a experiência (o professor mais experiente supostamente deveria ser melhor).

Enquanto isso, vamos com os professores mais-ou-menos, já que principalmente nas universidades federais os alunos têm pouco poder de decisão: não vão ser eles que vão conseguir demitir um professor, a menos que algo muito grave ocorra. Os professores mais-ou-menos estarão lá até que a morte ou a aposentadoria os separe das mesmas aulas chatas que eles dão há anos.

[1] É claro que há disciplinas onde tais problemas são necessários - Cálculo e Física, por exemplo. Mas nas disciplinas de aplicação, nas profissionalizantes, é válido obrigar o aluno a decorar informações puramente teóricas e despejá-las no papel, em vez de fazer com que ele pense e aplique o que ele sabe para resolver um problema - assim como no mundo real?

quinta-feira, 3 de março de 2011

Anotações sobre alunos incompetentes na universidade

Normalmente, reconhece-se um aluno potencialmente incompetente ainda no ensino médio. É aquele aluno que só estuda para as provas um dia antes, que dá um jeitinho de fazer trabalhos no copia-e-cola ou Fulano, coloca o meu nome aí, que vai pra aula pra bater boca e xingar o professor. Embora hajam exceções, tais características invariavelmente tendem a se transportar quando ele entra no ensino superior.

Ele é o legítimo aluno-porta. É aquele que não adiciona nada às aulas, que não argumenta, que não opina, nada. Comporta-se como se estivesse no ensino médio, só que com bebida e festas. Deixa estudos para a última hora, fazendo madrugadões e depois dormindo em cima da prova, e assim faz com que sua formatura fique para o infinitésimo semestre.

Ele é desinteressado, e sempre deixa pra fazer trabalhos na última hora, copiando e colando - e às vezes mudando a ordem das palavras, para evitar eventuais detecções de plágios que possam ocorrer. Apresentações de trabalhos? Ele dá um jeitinho de se esquivar, ou de fingir muito bem, o suficiente para não reprovar. Aliás, não reprovar é com ele mesmo - o que é diferente de saber a matéria: ele sempre dá um jeitinho de colar nas provas.

Não se interessa por nada e não vai atrás de assuntos que o interessem, espera que todo o conhecimento venha aparecer na cabeça dele por osmose - o que invariavelmente não ocorre. É aquele aluno que não liga para nada e está interessado apenas em se formar de qualquer jeito. 

Pergunto: que profissional será ele quando se formar? Certamente não será nenhum grande profissional. Há então duas opções: ou será um mau profissional, daqueles que será proibido de exercer a profissão, ou será um profissional mais-ou-menos, que faz um trabalho meia-boca, só para tapar buracos e garantir seu salário no fim do mês. Mesmo tendo o diploma, ele não terá a responsabilidade necessária para exercer a sua profissão - algo que se constrói durante a universidade, com trabalhos, projetos etc... os quais ele sempre dava um jeitinho de burlar.

Ele não se valorizará como profissional: pegará o emprego mais mixaria que puder, por não ter capacitação para exercer um cargo onde as exigências sejam altas - visto que ele sempre fugia de todas as dificuldades e desafios que a universidade fornecia para ele aprofundar seus conhecimentos. Não vai precisar querer colocar em prática o quase-nada que ele sabe.

E esse aluno incompetente, infelizmente, está tomando o lugar de alguém interessado. Alguém que conseguiria tirar algo dos seus anos na universidade, mas que não conseguiu passar no vestibular. Alguém que realmente aproveitaria a oportunidade.

A universidade requer uma mudança na forma de pensar e de encarar os estudos. O aluno está nela por opção (tirando os raros casos em que os pais obrigam, ou vencem pela teimosia ou birra) e dela pode se desligar se quiser: não está mais no ensino obrigatório. Mas, se prefere estar nela, que o faça de forma efetiva, e não apenas fingindo.

E também é necessária mais dureza por parte dos professores: é necessário coibir (e punir quando necessário) o copiar-e-colar, e projetar provas que exijam que o aluno pense, e não apenas despeje informações e cálculos nela. Pois é assim que qualquer profissão funciona: não há perguntas teóricas, há problemas a serem resolvidos - os quais necessitam do conhecimento teórico e dos cálculos para tal.


Foto: "What you don't want to see by your student programmer's computer", do usuário quinn.anya no Flickr.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

A maldição das impressoras



"Além dos cartuchos custarem mais caro que as impressoras, o que é mais irritante é quando a sua impressora deixa de funcionar a menos que todas as cores estejam disponíveis.

ERRO: Impossível imprimir 'AlgumDocumentoEmPretoEBranco.doc' pois a impressora está sem tinta ciano."

Hoje eu queria imprimir uma coisinha com a minha multifuncional. Coisinha simples, uma única página preto-e-branco. Porém, estou sem cartucho colorido (ele queimou depois de várias recargas), o que não deveria me afetar, obviamente.

Exceto que... ela simplesmente se recusa a operar sem cartucho colorido. Mesmo para um documento em preto-e-branco, preciso de um cartucho de R$ 50 e que não dura nada, visto que tem apenas 5 ml - isso nos dá incríveis R$ 10 mil por litro. Nem o petróleo é tão caro assim. Nada justifica que a tinta seja tão cara assim - se ela contivesse sangue de uma espécie rara de unicórnios encontrados apenas em uma pequena ilha no Atlântico Norte, quem sabe. Não é nenhum vinho sofisticadíssimo, é apenas uma mistura de derivados de petróleo!

Obviamente, isso se deve a uma estratégia análoga à venda a droga por um preço baixo e crie viciados. O objeto do "vício" é o cartucho de tinta; a impressora é vendida por um preço muito baixo, no conceito de loss leader: vende-se um produto pelo preço abaixo do mercado, e o lucro será obtido vendendo acessórios/suprimentos/planos para ele.

E muitas vezes, tenho a impressão (sem trocadilhos) que impressoras são os únicos eletrônicos que não evoluíram tanto quanto o ecossistema computacional ao seu redor. Aliás, tenho muitas vezes a impressão que elas regrediram.

Uma impressora de 10 anos atrás faz o mesmo trabalho que uma atual, mas não tem tantos badulaques, não precisa de um driver gigante [1], tem botões que me permitem pausar/cancelar uma impressão - ao contrário das atuais, onde tudo é por software, e me permite recarregar os cartuchos sem precisar de 'reset' ou afins para burlar os sistemas "anti-recarga" neles embutido.

Outra coisa que nunca me interessou é a impressão de fotos, sinceramente nunca vi motivação para fazer isso em casa: uma das coisas que mais gosto na fotografia digital é justamente não imprimir, e se eu quiser fazer isso, é muito melhor colocar as fotos em um CD ou pen-drive e levar a um laboratório fotográfico, onde posso imprimí-las por um preço razoável e com qualidade melhor.

Acabo fazendo a maioria das minhas impressões no xerox da universidade onde estudo. Pode ser mais caro, mas a qualidade é muito melhor, posso encadernar ali mesmo por uma pequena quantia a mais, e a longo prazo, a relação custo/benefício acaba compensando.

Tenho pouca utilidade para uma impressora ou multifuncional em casa, e portanto gostaria de alguma coisa simples, voltada àqueles que imprimem textos e ocasionalmente imagens, e que escaneiam uma figura ou foto de vez em quando. Nada de impressoras com sistemas operacionais completo em telas touch-screen, recursos para imprimir fotos em alta qualidade, scanners de alta definição, leitores de cartões para trocentos formatos e milhões de configurações: algo que apenas imprima, escaneie e copie.

Recomendo a leitura do excelente "Why I Believe Printers Were Sent From Hell To Make Us Miserable", de onde tirei a imagem que ilustra este post, para entender os principais problemas com as impressoras. Enquanto isso, vou me estressando com a impressora.

[1] A minha primeira impressora, há 10 anos atrás, vinha com um CD com todos os drivers necessários para os sistemas operacionais em uso à época, e estes mal ocupavam 100MB na mídia. Apenas despachei ela devido ao fato dela usar a porta paralela e não ter drivers para os Windows após o XP.

A minha impressora atual veio com dois CDs: um para Windows e outro para Mac. O driver ocupa uns 500MB na instalação mínima com todos os utilitários, e se eu quiser instalar apenas o driver? Boa sorte. Felizmente a HP é razoavelmente inteligente e os drivers para Linux são muito bons.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

"Review": HD externo Hitachi XL1000

Obs: NÃO TENHO MAIS ESSE HD! NÃO TENHO COMO RESPONDER PERGUNTAS SOBRE ELE!

Comprei recentemente um HD externo Hitachi XL1000, de 1TB, para suprir minha necessidade por armazenamento e backup. Ele não é exatamente portátil (até onde eu sei não existe HD de 1TB 2.5", e ele efetivamente é um HD de desktop em uma case), tem a espessura de um livro mais grosso e precisa de fonte de alimentação externa (não é alimentado pela USB). 

Meu primeiro passo foi formatá-lo em outro sistema de arquivos. Escolhi o NTFS mesmo, devido à compatibilidade com ambos Windows e Linux. Mas testei ele brevemente com ReiserFS, criando e deletando arquivos, e não houve problema algum.

O desempenho dele é bom: não espero rodar uma máquina virtual a partir dele, mas testei com vídeos e eles rodaram bem. Uma possibilidade bem interessante, mas que não explorei por ela ser desnecessária para mim, é a de instalar um Linux em uma partição nele, encher o resto com drivers/utilitários/imagens de disco e e usar ele como um "HD de restauração" para o técnico/profissional de TI que precisa consertar computadores no seu dia-a-dia.

Uma sacada inteligente PRA CARAMBA dele é permitir que o usuário escolha qual o tipo de tomada que o adaptador usa. Realmente, MUITO bem pensado, especialmente para quem viaja para o exterior.

Outra coisa inteligente é o fato dele entrar em stand-by automaticamente quando o computador é desligado, ou seja, pode-se deixá-lo ligado sempre na tomada.

Os problemas dele:

- O LED de acesso faz com que o logotipo da Hitachi piscando, e isso se torna irritante após um tempo.
- Conectores são bastante frágeis e não inspiram confiança para conexão-desconexão repetitivos.
- Um pouco barulhento, mas isso não chega a afetar seu uso no dia-a-dia.
- O "startup" dele é lento, demora uns 15 segundos até estar disponível.

E infelizmente, se eu quiser acessar o HD em ambos Linux e Windows, eu precisarei formatá-lo no NTFS (não considero FAT32), e o ntfs-3g (aliás, primeira vez que uso ele: quando ele surgiu, eu já não fazia dual-boot e tampouco precisava de NTFS), mas isso não é culpa do dispositivo.

Só o tempo dirá se ele é um dispositivo robusto, mas no momento estou bastante satisfeito: consigo fazer backup dos meus arquivos do notebook (uns 160GB) e ainda sobra uma boa quantidade de espaço.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mais uma da nossa amiguinha MPAA: desconectar o Google

A mais recente da MPAA: ela ameaçou tirar o Google da internet por supostas violações de copyright. Mais uma ideia daquelas que só poderia vir de advogados e executivos sem nenhum conhecimento técnico.

Primeiramente, o Google não tem um provedor. Ele É seu próprio provedor, e usa serviços de vários outros em vários países. Desconectar o Google não vai ser algo tão simples assim - se é que é possível. Gostaria de ver o mecanismo que a MPAA propõe para isto: vão cortar as  rotas BGP do Google, deixando ele no escuro?

Após: na remota hipótese de porcos voarem, vacas tussirem e isso ocorrer, o que será feito? Todos os domínios *.google.com redirecionarão para um this page was removed due to violation of the terms of service? Os serviços hospedados no Google morrerão - os mesmos que certamente são usados pelos próprios advogados da MPAA e dos estúdios, e por esmagadora maioria da internet? Isso irá causar um protesto de quase toda a internet. 

Outra coisa importante é que todos os mecanismos de identificação por endereço IP são falhos: é muito comum empresas terem um conjunto de conexões de internet para si, e elas servirem de conectividade para toda a empresa. Uma empresa com 5 mil funcionários pode ter 50 endereços IP alocados - ou seja, em caso de recebimento de denúncia, identificar quem-quando-onde-como torna-se praticamente impossível. Ao menos é o caso com o IPv4; com o IPv6, onde não há NAT e teoricamente TODOS podem ter endereços IP válidos, esse problema provavelmente será resolvido.

Um usuário doméstico, cuja conexão recebe um IP dinâmico a cada vez que ele liga o modem/disca para o provedor, pode ser erroneamente punido pelo que outro usuário fez com aquele mesmo endereço IP há alguns meses antes.

Por fim, tenho minhas dúvidas: DUVIDO que os executivos da MPAA, ou familiares deles, não tenham nada pirata em suas casas.
DUVIDO que as redes dessa própria MPAA não tenham sido usadas para pirataria.
Lembro que, na cidade onde eu morava há alguns anos atrás, um policial foi visto... comprando CDs piratas. Irônico, não? Quem observa os observadores?

Além disso, eles introduziram MUITAS pessoas ao mundo da pirataria: lembro da época em que ela ainda engatinhava, no underground da internet, e apenas os mais iniciados conseguiam usar o IRC para baixar uma música ou um filme.
E, do jeito que a MPAA/RIAA/* gostam de cantar vitória cada vez que um site com conteúdo pirata é tirado do ar... garanto que muitos leigos, que antes não sabiam o que era "baixar músicas", ouviram falar nisso com a grande mídia.

Tudo caminha em direção a uma vitória pírrica para a indústria da propriedade intelectual, algo suficiente para abalar a imagem de tais instituições, já degradada devido a tantos anos de paranoia injustificada (estamos em 2011, há uns 5 anos que eu cobro um estudo científico sobre o real efeito da pirataria no lucro da indústria) e infrutífera. Espero que os porcos voem e que este seja o tiro no pé definitivo para essas a$$ociaçõe$ repre$entante$ de uma indú$tria de produções de baixa qualidade.