O desprezo do governo federal, de governos estaduais e prefeituras pelo transporte público deve-se a uma coisa muito simples: nós somos um dos maiores mercados mundiais para carros, e também temos uma certa empresinha chamada Petrobras, que vende gasolina, diesel e álcool para mantê-los abastecidos - altamente lucrativa.
Porém, o transporte individual no Brasil se aproxima da saturação, de um ponto em que teremos que pernoitar no congestionamento, que teremos que pegar o carro às 5 da manhã para chegarmos às 8 no trabalho. Até mesmo as cidades pequenas já sofrem com isso, quem imaginaria uma cidade de 200 mil habitantes (tipo Santa Maria) com congestionamento? Pois é isso que se vê na saída da UFSM à tarde, e em algumas ruas e avenidas nos horários de pico.
Em boa parte isso é motivado pela nossa cultura: o ônibus é de pobre, requer que eu me misture com a gentalha. E sejamos sinceros, a bicicleta ainda é inviável em várias cidades, posto que não há infraestrutura adequada para elas - a menos que se queira correr o risco de um acidente causado por um motorista irresponsável.
Porém, outro lado é o do sucateamento de nossos transportes públicos. Empresas deitam e rolam com serviços de má qualidade, com ônibus superlotados que não atendem boa parte da cidade, tem pouca variedade de horários, ou os dois. Um exemplo: inexistem ônibus para meu bairro depois da meia-noite, se eu quiser sair e voltar de madrugada, obrigatoriamente preciso de um carro ou de um táxi. Já descrevi esse problema em outro post.
Forma-se um círculo vicioso: ninguém quer usar o transporte público pois ele é ineficiente e está mal equipado, mas não compensa investir nele pois muitas pessoas preferem (ou se veem obrigadas a usar) o transporte individual; ele não é lucrativo.
Soma-se a isso a distância entre as residências e os locais de trabalho ou estudo. Acredito eu que todos já tenham visto, ao menos em filmes, os suburbs americanos [1]: bairros ou condomínios fechados longe do centro das cidades, projetados para que toda a mobilidade seja feita de carro. Com o aumento dos custos dos combustíveis lá fora, esse modelo cada vez mais demonstra-se falho, além do impacto na produtividade causado pelo funcionário que já chega estressado por ter passado horas no trânsito. E no Brasil já não está muito diferente, vários condomínios são fundados longe dos locais de trabalho, sendo vitimados pela falta de transporte público.
Até agora as soluções propostas foram inefetivas ou assim se tornarão a curto e médio prazo, e algumas delas contribuem para piorar o problema ao mesmo tempo em que enriquecem o bolso de alguns poucos, ou que são facilmente burladas por esses mesmos.
Rodízio? Facilmente burlado por quem tem dinheiro para comprar outro carro, ou mesmo para quem pode comprar um segundo carro mais antigo (ou seja, menos eficiente) - o tiro saiu pela culatra, nesta última situação.
Grandes obras de infraestrutura? Funcionam a curto prazo, e servem como uma excelente forma de fascinar um povo que ama projetos faraônicos; mas a longo prazo, com o aumento do volume de veículos e do seu uso (novamente, motivado porque é fácil de chegar etc...), tendem a perder a efetividade, além de causarem grandes impactos ambientais - basta lembrar das enchentes que acontecem em regiões onde a absorção de água foi impedida pelo asfalto. Tais obras requerem, também, manutenção que raramente acontece de forma adequada.
A melhor solução que vejo, a curto e médio prazo, é repensar a necessidade de sair de casa. Eu realmente preciso ir até a faculdade para assistir 3 horas de aula de slides, baseada em leitura e debate de textos, há alguma objeção a fazê-las de forma eletrônica? Preciso realmente ir ao banco ou ao cartório entregar papeladas, por quê isso não pode ser feito pela internet? Se um funcionário pode trabalhar de casa, mesmo que seja um dia da semana, por quê não? (Embora saibamos que trabalhar de casa não é tão simples quanto parece - assunto para outro post, porém)
Outra ideia importante é o transporte público como direito universal, algo tão acessível que torne o transporte pessoal desnecessário no dia-a-dia. Infelizmente - sejamos dolorosamente realistas - isso não acontecerá tão cedo, dados os sistemas de interesses envolvidos no processo: que governo iria atentar contra algo que lhe dá grandes lucros financeiros? Nenhum em sã consciência.
O excesso de carros nas ruas não é lucrativo (no aspecto financeiro e no aspecto social) a ninguém, exceto às montadoras e às petrolíferas - aquelas que movem o Brasil, mesmo que seus funcionários fiquem horas parados para chegar ao trabalho, e já cheguem estressados e cansados. Só os executivos, diretores etc... que chegarão de helicóptero para aquela reunião importantíssima.
Enquanto isso, continuemos comprando carros maiores e mais confortáveis para podermos passar mais tempo no trânsito - longe das ruas vazias, onde se pode andar em alta velocidade, que as propagandas mostram. E nos orgulhemos dos maiores congestionamentos do mundo!
[1] Não traduzi como subúrbio pois essa palavra tem uma conotação um pouco diferente em português.
(Foto: Engarrafamento na Marginal Pinheiros, São Paulo. Congestionamento - Wikipédia)
Opiniões e considerações sinceras sobre temas diversos, vindas de um engenheiro que escreve nas horas vagas (ou o contrário).
terça-feira, 15 de novembro de 2011
domingo, 13 de novembro de 2011
Platitudes diversas
Uma palavra bem interessante que descobri esses dias: platitude. Segundo o Wikicionário, significa um comentário aparentemente inteligente, porém banal, raso. E perfeitamente adequado para descrever o uso de algumas outras palavras e expressões que vemos por aí.
A primeira, e a mais empregada, delas, é a tal da consciência. A moda é ser consciente. É conscientizar. Colocar essa palavra em qualquer sentença é bem eficaz para passar a ideia de engajamento. Mesmo que essa consciência seja apenas no momento em que se compartilha uma foto no Facebook. Consciência se veste como quem veste uma camiseta de marca - e é tão profunda quanto uma. Mas afirmar que está consciente de um problema qualquer é bonito, tem uma beleza oculta que palavras como conhecer, entender etc... não têm.
Outra grande platitude é aquela que permeia as marchas contra a corrupção, pelo meio-ambiente etc...: alguém em sã consciência é a favor da corrupção (excetuando aqueles que por ela são beneficiados)? Alguém que tenha o mínimo de inteligência (excetuando-se aqueles que deliberadamente a desligam para lucrar mais) é a favor da destruição ambiental? Atiram em todas as causas ao mesmo tempo, e não acertam em nenhuma. Mas tudo bem, é bom para a sofrida e escorchada Classe Média.
Também temos aquele discurso comercial recheado dessas, empregando-as como se fossem grandes inovações: Otimizar. Disponibilizar. Dinamizar. Sustentabilidade. Inovação. Empresas pagando grandes somas para assessorias de imprensa escreverem que Objetivando dinamizar o mercado, a Padaria do Zé oferece um novo conceito em pão.... Como se impactar (de forma positiva ou negativa) o mercado não fosse o objetivo de qualquer empresa, e como se disponibilizar produtos e serviços inovadores, de forma eficiente e sustentável, não fosse o que todas as empresas fazem (ou ao menos fingem).
Quase qualquer discurso político tem um delicioso recheio de platitudes. Melhorar a cidade/estado/país através da educação/saúde/indústria etc... são falados de forma pomposa. A criminalidade é um problema; também o são a corrupção, o meio-ambiente e as desigualdades sociais. Deixam em aberto como isso será (se é que será) feito - resolvê-los é atribuição básica de um político, e não uma meta em si. Mas isso cai bem nos discursos deles: se no mandato de um prefeito, 3 pessoas em uma cidade de 100 mil deixarem de ser pobres, tecnicamente, isto é uma melhoria.
E a auto-ajuda? Basicamente um conjunto de platitudes embebidas em um discurso obscurantista, sendo vendidas como conhecimento profundo e secreto. Palestras de motivação: não se deixar abalar pelos erros, procurar conhecimento etc... Regras foram feitas para serem quebradas, e Deus ajuda quem cedo madruga. Fica bonito vindo da boca de um palestrante, não acham?
Platitudes são uma ótima ferramenta para parecermos intelectuais, cultos, profundos, engajados, para nos escondermos sob um discurso, ou mesmo se quisermos ser demagógicos e manipuladores. E enquanto isso, continuemos objetivando disponibilizar melhorias sociais sustentáveis de forma consciente, para vencermos os desafios, pois afinal a fila anda.
A primeira, e a mais empregada, delas, é a tal da consciência. A moda é ser consciente. É conscientizar. Colocar essa palavra em qualquer sentença é bem eficaz para passar a ideia de engajamento. Mesmo que essa consciência seja apenas no momento em que se compartilha uma foto no Facebook. Consciência se veste como quem veste uma camiseta de marca - e é tão profunda quanto uma. Mas afirmar que está consciente de um problema qualquer é bonito, tem uma beleza oculta que palavras como conhecer, entender etc... não têm.
Outra grande platitude é aquela que permeia as marchas contra a corrupção, pelo meio-ambiente etc...: alguém em sã consciência é a favor da corrupção (excetuando aqueles que por ela são beneficiados)? Alguém que tenha o mínimo de inteligência (excetuando-se aqueles que deliberadamente a desligam para lucrar mais) é a favor da destruição ambiental? Atiram em todas as causas ao mesmo tempo, e não acertam em nenhuma. Mas tudo bem, é bom para a sofrida e escorchada Classe Média.
Também temos aquele discurso comercial recheado dessas, empregando-as como se fossem grandes inovações: Otimizar. Disponibilizar. Dinamizar. Sustentabilidade. Inovação. Empresas pagando grandes somas para assessorias de imprensa escreverem que Objetivando dinamizar o mercado, a Padaria do Zé oferece um novo conceito em pão.... Como se impactar (de forma positiva ou negativa) o mercado não fosse o objetivo de qualquer empresa, e como se disponibilizar produtos e serviços inovadores, de forma eficiente e sustentável, não fosse o que todas as empresas fazem (ou ao menos fingem).
Quase qualquer discurso político tem um delicioso recheio de platitudes. Melhorar a cidade/estado/país através da educação/saúde/indústria etc... são falados de forma pomposa. A criminalidade é um problema; também o são a corrupção, o meio-ambiente e as desigualdades sociais. Deixam em aberto como isso será (se é que será) feito - resolvê-los é atribuição básica de um político, e não uma meta em si. Mas isso cai bem nos discursos deles: se no mandato de um prefeito, 3 pessoas em uma cidade de 100 mil deixarem de ser pobres, tecnicamente, isto é uma melhoria.
E a auto-ajuda? Basicamente um conjunto de platitudes embebidas em um discurso obscurantista, sendo vendidas como conhecimento profundo e secreto. Palestras de motivação: não se deixar abalar pelos erros, procurar conhecimento etc... Regras foram feitas para serem quebradas, e Deus ajuda quem cedo madruga. Fica bonito vindo da boca de um palestrante, não acham?
Platitudes são uma ótima ferramenta para parecermos intelectuais, cultos, profundos, engajados, para nos escondermos sob um discurso, ou mesmo se quisermos ser demagógicos e manipuladores. E enquanto isso, continuemos objetivando disponibilizar melhorias sociais sustentáveis de forma consciente, para vencermos os desafios, pois afinal a fila anda.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Sustentabilidade como ideologia? Pensamentos
"Como eu sei que a sua empresa é amigável ao meio-ambiente?"
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."
Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.
Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.
E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.
É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.
Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.
Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.
E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria?
No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.
Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.
Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.
Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.
A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.
Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."
Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.
Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.
E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.
É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.
Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.
Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.
E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria?
No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.
Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.
Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.
Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.
A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.
Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.
sábado, 15 de outubro de 2011
De veículos elétricos
Vejo vários sites de tecnologia, de notícias etc... propondo o carro (e outros meios de transporte) elétricos como "o futuro". Porém, algumas considerações que acredito serem necessárias.
Primeiramente, temos os principais problemas do carro elétrico:
1. Não resolve o problema da mobilidade urbana
Congestionamento será congestionamento e ônibus superlotado será ônibus superlotado, mesmo com carros e ônibus elétricos. Acidentes de trânsito, motoristas que dirigem de forma ineficiente etc... continuarão existindo, e não será a tecnologia que irá resolver esses problemas.
Resolve-se (ou ao menos ameniza-se) o problema da poluição, mas não se resolve os problemas sociais e psicológicos que a confusão do trânsito traz, não se resolve a incomodação de pegar aquele ônibus superlotado andando devagar, quase parando. Somando-se a isso o fato de que as empresas de ônibus provavelmente irão querer compensar seus gastos com os novos ônibus... repassando isso para os usuários, sem melhorar o serviço. (tenho a impressão de já ter visto essa história antes, mesmo com veículos clássicos).
De nada adianta resolver apenas os problemas técnicos se ainda teremos que gastar energia passando mais tempo para encontrar lugar para estacionar do que fazendo o que precisamos, em um legítimo momento Classe Média Sofre.
Existe todo um problema da mobilidade urbana, que não será resolvido apenas pela tecnologia, mas esse é o assunto para um futuro post.
2. É realmente limpo?
Ele só será menos prejudicial ao meio ambiente na medida em que a energia elétrica que o alimenta for produzida de forma menos prejudicial ao meio ambiente.
Lembrando que falar em "energia limpa" é um excelente caso de greenwashing: visto que painéis solares são feitos de semicondutores (que demandam grandes quantidades de substâncias tóxicas para sua produção), turbinas eólicas são feitas com metais e outros materiais que exigem mineração etc.... considero que este termo deveria ser evitado. Tais fontes de energia são menos poluentes, mas definitivamente não são limpas - mas bem, isso não fica bom em uma campanha publicitária.
Zero emissão de carbono? Qualquer atividade humana gera carbono. Limpar isso com árvores? A única coisa que fica limpa é a consciência de quem planta: não adianta simplesmente sair atulhando tudo de árvores e não dar os cuidados necessários a elas.
Soma-se a isso o aspecto tóxico das baterias, que sofrem com vida útil limitada: a cada alguns anos é necessário trocá-las, o que incorre em custo financeiro e impacto ambiental. Nesse aspecto, o carro elétrico poderia inclusive ser mais tóxico que aquele movido a combustíveis fósseis.
3. Armazenamento de energia
A parte de motores e seu controle, a eletrônica de potência, e de sistemas embarcados está bastante avançada. Já é possível fazer motores de alta eficiência e controlá-los de forma precisa, porém o maior problema continua sendo as baterias.
Infelizmente, os combustíveis fósseis tem um alto poder energético em relação ao seu volume, o que os torna viáveis para veículos. Conforme a Wikipédia, a gasolina armazena 47 megajoules por kilograma (MJ/kg), enquanto mesmo as baterias de lítio-oxigênio (atualmente as mais avançadas) armazenam apenas 9 MJ/kg.
Como consequência, é preciso recarregar o carro após uma certa quilometragem, em uma situação ovo ou galinha: não há pontos de recarga porque poucas pessoas têm veículos elétricos, mas poucas pessoas têm veículos elétricos porque elas têm receio de ficarem sem carga no meio da estrada.
Recargas são lentíssimas se comparadas com encher o tanque em alguns minutos: que tal ter que esperar 3 horas a cada 300 km percorridos?
Claro que isso poderá mudar com o surgimento de novas tecnologias de baterias, mas isso ainda levará um bom tempo. E estaremos sempre limitados pelo peso delas.
4. Preço
Mesmo que todos os problemas anteriores fossem resolvidos, os carros elétricos continuariam sendo mais caros - mesmo com subsídios do governo. Inclusive, se mais pessoas consumissem tais veículos, o preço da gasolina poderia vir a baixar, assim incentivando aqueles que mantém seus carros comuns a continuar com eles - o tiro saiu pela culatra.
E não duvido que o poderoso lobby dos combustíveis fósseis não deixará tais auxílios acontecerem aqui: por que motivo o "país do pré-sal" iria incentivar pessoas a migrar para uma tecnologia que dá menos lucro às empresas de óleo?
Apesar de todas essas limitações e considerações, continuam existindo diversas vantagens nos carros elétricos. Algumas:
1. Possibilidade de desenvolvimento de tecnologia
Os veículos elétricos representam excelente oportunidade de desenvolvimento de novas tecnologias e de melhorias nas já existentes. Mecânica, eletrônica, eletrotécnica, geração e transmissão de energia etc... todos poderão se beneficiar.
Mas, para isso, é necessário que não nos contentemos simplesmente em comprar tecnologias prontas; e isso provavelmente será algo difícil de se ver, exceto para as grandes empresas que já têm o dinheiro (vindo dos veículos clássicos, do petróleo etc...) e o know-how para investir nessa tecnologia.
Soma-se a isso a necessidade de reciclar profissionais para se adaptarem à manutenção dos novos sistemas automotivos encontrados em tais veículos.
2. Economia para pequenos percursos
É bastante comum ver carros andando 8, 10km, dando pequenas voltas no uso cotidiano. Considerando que a gasolina custa em média R$ 2,70 o litro, e que um carro comum consome entre 10 a 12 km/L, pode-se fazer uma boa economia se a energia for gerada de forma barata. Sem falar que o problema da recarga deixa de ser relevante para esses pequenos percursos: posso carregar meu carro durante a noite e usá-lo durante o dia, por exemplo.
A energia inclusive pode ser gerada de forma local, através de paineis solares, turbinas eólicas, aproveitando-se pequenas fontes de energia, assim trazendo mais economia e potencialmente desenvolvimento e menores impactos ambientais.
3. Conforto para os usuários
Motores elétricos podem ser bastante silenciosos, sem o ruído característico de um motor a combustão: um alívio para nossas ruas barulhentas. Isso poderia representar uma ameaça aos pedestres, o que levou vários fabricantes a desenvolverem sistemas de alerta auditivos.
Porém, nada (ainda) pode ser feito em relação aquela pessoa que gosta do ronco do motor do seu carro "tunado". Felizmente, essa é uma minoria: muitas pessoas agradecerão não precisarem mais ficar ouvindo aquela sinfonia rotativa na hora do rush.
Concluindo, um transporte que dependa menos de combustíveis fósseis é uma coisa plenamente desejável, é claro, mas se for vítima do hype existente sobre toda nova tecnologia, ele traz o risco de não colaborar para resolver, ou até mesmo, agravar os problemas ambientais e sociais. Porém, corretamente planejado e executado de forma responsável, ele pode se demonstrar proveitoso para todos.
(foto: Chevy Volt Electric Vehicle, de Tom Raftery).
Primeiramente, temos os principais problemas do carro elétrico:
1. Não resolve o problema da mobilidade urbana
Congestionamento será congestionamento e ônibus superlotado será ônibus superlotado, mesmo com carros e ônibus elétricos. Acidentes de trânsito, motoristas que dirigem de forma ineficiente etc... continuarão existindo, e não será a tecnologia que irá resolver esses problemas.
Resolve-se (ou ao menos ameniza-se) o problema da poluição, mas não se resolve os problemas sociais e psicológicos que a confusão do trânsito traz, não se resolve a incomodação de pegar aquele ônibus superlotado andando devagar, quase parando. Somando-se a isso o fato de que as empresas de ônibus provavelmente irão querer compensar seus gastos com os novos ônibus... repassando isso para os usuários, sem melhorar o serviço. (tenho a impressão de já ter visto essa história antes, mesmo com veículos clássicos).
De nada adianta resolver apenas os problemas técnicos se ainda teremos que gastar energia passando mais tempo para encontrar lugar para estacionar do que fazendo o que precisamos, em um legítimo momento Classe Média Sofre.
Existe todo um problema da mobilidade urbana, que não será resolvido apenas pela tecnologia, mas esse é o assunto para um futuro post.
2. É realmente limpo?
Ele só será menos prejudicial ao meio ambiente na medida em que a energia elétrica que o alimenta for produzida de forma menos prejudicial ao meio ambiente.
Lembrando que falar em "energia limpa" é um excelente caso de greenwashing: visto que painéis solares são feitos de semicondutores (que demandam grandes quantidades de substâncias tóxicas para sua produção), turbinas eólicas são feitas com metais e outros materiais que exigem mineração etc.... considero que este termo deveria ser evitado. Tais fontes de energia são menos poluentes, mas definitivamente não são limpas - mas bem, isso não fica bom em uma campanha publicitária.
Zero emissão de carbono? Qualquer atividade humana gera carbono. Limpar isso com árvores? A única coisa que fica limpa é a consciência de quem planta: não adianta simplesmente sair atulhando tudo de árvores e não dar os cuidados necessários a elas.
Soma-se a isso o aspecto tóxico das baterias, que sofrem com vida útil limitada: a cada alguns anos é necessário trocá-las, o que incorre em custo financeiro e impacto ambiental. Nesse aspecto, o carro elétrico poderia inclusive ser mais tóxico que aquele movido a combustíveis fósseis.
3. Armazenamento de energia
A parte de motores e seu controle, a eletrônica de potência, e de sistemas embarcados está bastante avançada. Já é possível fazer motores de alta eficiência e controlá-los de forma precisa, porém o maior problema continua sendo as baterias.
Infelizmente, os combustíveis fósseis tem um alto poder energético em relação ao seu volume, o que os torna viáveis para veículos. Conforme a Wikipédia, a gasolina armazena 47 megajoules por kilograma (MJ/kg), enquanto mesmo as baterias de lítio-oxigênio (atualmente as mais avançadas) armazenam apenas 9 MJ/kg.
Como consequência, é preciso recarregar o carro após uma certa quilometragem, em uma situação ovo ou galinha: não há pontos de recarga porque poucas pessoas têm veículos elétricos, mas poucas pessoas têm veículos elétricos porque elas têm receio de ficarem sem carga no meio da estrada.
Recargas são lentíssimas se comparadas com encher o tanque em alguns minutos: que tal ter que esperar 3 horas a cada 300 km percorridos?
Claro que isso poderá mudar com o surgimento de novas tecnologias de baterias, mas isso ainda levará um bom tempo. E estaremos sempre limitados pelo peso delas.
4. Preço
Mesmo que todos os problemas anteriores fossem resolvidos, os carros elétricos continuariam sendo mais caros - mesmo com subsídios do governo. Inclusive, se mais pessoas consumissem tais veículos, o preço da gasolina poderia vir a baixar, assim incentivando aqueles que mantém seus carros comuns a continuar com eles - o tiro saiu pela culatra.
E não duvido que o poderoso lobby dos combustíveis fósseis não deixará tais auxílios acontecerem aqui: por que motivo o "país do pré-sal" iria incentivar pessoas a migrar para uma tecnologia que dá menos lucro às empresas de óleo?
Apesar de todas essas limitações e considerações, continuam existindo diversas vantagens nos carros elétricos. Algumas:
1. Possibilidade de desenvolvimento de tecnologia
Os veículos elétricos representam excelente oportunidade de desenvolvimento de novas tecnologias e de melhorias nas já existentes. Mecânica, eletrônica, eletrotécnica, geração e transmissão de energia etc... todos poderão se beneficiar.
Mas, para isso, é necessário que não nos contentemos simplesmente em comprar tecnologias prontas; e isso provavelmente será algo difícil de se ver, exceto para as grandes empresas que já têm o dinheiro (vindo dos veículos clássicos, do petróleo etc...) e o know-how para investir nessa tecnologia.
Soma-se a isso a necessidade de reciclar profissionais para se adaptarem à manutenção dos novos sistemas automotivos encontrados em tais veículos.
2. Economia para pequenos percursos
É bastante comum ver carros andando 8, 10km, dando pequenas voltas no uso cotidiano. Considerando que a gasolina custa em média R$ 2,70 o litro, e que um carro comum consome entre 10 a 12 km/L, pode-se fazer uma boa economia se a energia for gerada de forma barata. Sem falar que o problema da recarga deixa de ser relevante para esses pequenos percursos: posso carregar meu carro durante a noite e usá-lo durante o dia, por exemplo.
A energia inclusive pode ser gerada de forma local, através de paineis solares, turbinas eólicas, aproveitando-se pequenas fontes de energia, assim trazendo mais economia e potencialmente desenvolvimento e menores impactos ambientais.
3. Conforto para os usuários
Motores elétricos podem ser bastante silenciosos, sem o ruído característico de um motor a combustão: um alívio para nossas ruas barulhentas. Isso poderia representar uma ameaça aos pedestres, o que levou vários fabricantes a desenvolverem sistemas de alerta auditivos.
Porém, nada (ainda) pode ser feito em relação aquela pessoa que gosta do ronco do motor do seu carro "tunado". Felizmente, essa é uma minoria: muitas pessoas agradecerão não precisarem mais ficar ouvindo aquela sinfonia rotativa na hora do rush.
Concluindo, um transporte que dependa menos de combustíveis fósseis é uma coisa plenamente desejável, é claro, mas se for vítima do hype existente sobre toda nova tecnologia, ele traz o risco de não colaborar para resolver, ou até mesmo, agravar os problemas ambientais e sociais. Porém, corretamente planejado e executado de forma responsável, ele pode se demonstrar proveitoso para todos.
(foto: Chevy Volt Electric Vehicle, de Tom Raftery).
sábado, 24 de setembro de 2011
Sage: uma alternativa aos pacotes matemáticos comerciais
Vários problemas em engenharia, e em outras ciências, são resolvidos com ferramentas matemáticas como sistemas de álgebra computacional (Mathematica, Maple) e sistemas para cálculo numérico (como o MATLAB).
O problema desses três pacotes é o custo deles: mesmo as licenças para fins acadêmicos não são baratas (US$ 199 não me parece barato para um estudante :). Se a sua universidade ou empresa tem o programa, muito bom, mas se ela não tem? Sobram 2 alternativas: faça-você-mesmo ou usar alternativas livres.
Embora seja plenamente possível desenvolver um programa (por exemplo, usando a NumPy, a SciPy, a GSL etc...) que resolva o mesmo problema, isso traz aquela desagradável sensação de reinvenção da roda.
Já para a segunda opção, um dos meus maiores problemas com as alternativas livres era justamente a falta de integração das diversas ferramentas, e fazê-los falar entre si às vezes era uma saga épica.
Para resolver essa necessidade, a ferramenta que acabei adotando foi o Sage, cujo objetivo é criar uma alternativa open-source viável às ferramentas como o Maple, o Mathematica, o MATLAB etc... usando as várias ferramentas livres já existentes (mais de 90, conforme os próprios desenvolvedores).
E justamente é essa a maior qualidade dele, na minha opinião: não se reinventa a roda, aproveita-se o trabalho que já existe, apenas implementando lógica para fazer a interface entre essas ferramentas (quisera eu que todos os softwares livres pensassem assim).
Uma das motivações para esse projeto é também servir de contraponto à arquitetura fechada das caixas pretas comerciais, justamente pela necessidade de "tudo ser aberto para inspeção" - ou seja, a reprodutibilidade necessária ao método científico.
Ele nasceu voltado à matemática pura, como atestam os diversos papers que o citam, mas também é plenamente utilizável para a matemática aplicada, as engenharias etc... Embora seja uma pena que a documentação pouco ou nada fale sobre esses usos.
Para quem já desenvolve em Python, melhor ainda: ele pode ser usado como um ambiente de desenvolvimento para aplicações científicas nessa linguagem, também sendo possível utilizar as diversas bibliotecas para ela disponíveis.
Outra característica bastante útil dele é a possibilidade de executá-lo em um servidor dedicado e acessado via web (acredito que nenhuma ferramenta comercial faça isso por padrão), tornando ele interessante para uso em sala de aula.
Aliás, se você não quiser instalá-lo para testar (o download tem mais de 300MB, por ser inteiramente auto-contido, não precisa de dependências externas), pode fazer isso pela internet, especialmente para os usuários Windows (não há versão nativa ainda, nem compilada no Cygwin - espera-se que isso mude logo).
(figura: fractal de Mandelbrot plotado no Sage)
O problema desses três pacotes é o custo deles: mesmo as licenças para fins acadêmicos não são baratas (US$ 199 não me parece barato para um estudante :). Se a sua universidade ou empresa tem o programa, muito bom, mas se ela não tem? Sobram 2 alternativas: faça-você-mesmo ou usar alternativas livres.
Embora seja plenamente possível desenvolver um programa (por exemplo, usando a NumPy, a SciPy, a GSL etc...) que resolva o mesmo problema, isso traz aquela desagradável sensação de reinvenção da roda.
Já para a segunda opção, um dos meus maiores problemas com as alternativas livres era justamente a falta de integração das diversas ferramentas, e fazê-los falar entre si às vezes era uma saga épica.
Para resolver essa necessidade, a ferramenta que acabei adotando foi o Sage, cujo objetivo é criar uma alternativa open-source viável às ferramentas como o Maple, o Mathematica, o MATLAB etc... usando as várias ferramentas livres já existentes (mais de 90, conforme os próprios desenvolvedores).
E justamente é essa a maior qualidade dele, na minha opinião: não se reinventa a roda, aproveita-se o trabalho que já existe, apenas implementando lógica para fazer a interface entre essas ferramentas (quisera eu que todos os softwares livres pensassem assim).
Uma das motivações para esse projeto é também servir de contraponto à arquitetura fechada das caixas pretas comerciais, justamente pela necessidade de "tudo ser aberto para inspeção" - ou seja, a reprodutibilidade necessária ao método científico.
Ele nasceu voltado à matemática pura, como atestam os diversos papers que o citam, mas também é plenamente utilizável para a matemática aplicada, as engenharias etc... Embora seja uma pena que a documentação pouco ou nada fale sobre esses usos.
Para quem já desenvolve em Python, melhor ainda: ele pode ser usado como um ambiente de desenvolvimento para aplicações científicas nessa linguagem, também sendo possível utilizar as diversas bibliotecas para ela disponíveis.
Outra característica bastante útil dele é a possibilidade de executá-lo em um servidor dedicado e acessado via web (acredito que nenhuma ferramenta comercial faça isso por padrão), tornando ele interessante para uso em sala de aula.
Aliás, se você não quiser instalá-lo para testar (o download tem mais de 300MB, por ser inteiramente auto-contido, não precisa de dependências externas), pode fazer isso pela internet, especialmente para os usuários Windows (não há versão nativa ainda, nem compilada no Cygwin - espera-se que isso mude logo).
(figura: fractal de Mandelbrot plotado no Sage)
terça-feira, 13 de setembro de 2011
De engenheiros e crimes
Infelizmente, o tratamento para crimes ambientais no Brasil (e na maioria dos outros países - proteção anti-reacionário BRAZIU EH UMA MERDA MIMIMI) é frouxo. Uma multinha ali (que a empresa paga facilmente com um dia de lucro), um puxão de orelha acolá, e continua-se poluindo, desmatando etc... impunemente.
Basta lembrar do nosso abominável novo código florestal, amplamente defendido pela bancada ruralista, e das usinas faraônicas que alguns defendem (aposta quanto que elas vão ser superfaturadas e pagaremos o pato nas nossas contas?). Enquanto isso, o Brasil, fascinado pelo progresso na forma de grandes obras, e ainda embasbacado pelo pré-sal (justamente quando lá fora tenta-se cortar o vício do petróleo) deixa o potencial eólico e solar livre para quem vier de fora, mas isso é assunto para outro post.
E depois de tudo isso, pinta-se de verde. Plantam-se umas arvorezinhas aqui e acolá, não se jogam dejetos tóxicos nos rios, compram-se umas páginas numa revista para mostrar que a empresa não fez mais do que o dever de casa, faz-se uma campanha de consciência ambiental, as ações sobem, e todo mundo fica satisfeito com o suposto desenvolvimento sustentável dela. Mesmo que o ramo de atuação dessa empresa seja incompatível com a sustentabilidade. Greenwashing em sua melhor forma. E nessas horas, pergunto sobre uma categoria de profissionais envolvidos nessas empresas, a saber: engenheiros.
Toda grande empresa tem (ou ao menos deveria ter) engenheiros responsáveis pela sua operação, e vários outros participaram do projeto dela. Pergunto se são eles complacentes com os crimes ambientais da empresa, com as falhas de projeto que foram deixadas e não sanadas - assim contradizendo o Código de Ética Profissional das Engenharias, que afirma:
Porém, pouca ou nenhuma punição se vê; não lembro de ter visto nenhum caso de engenheiros perdendo seu direito ao exercício da profissão após a indústria ou empresa pela qual ele é responsável ser punida por crimes ambientais (ou por outros crimes cometidos no exercício da sua profissão).
Da mesma forma que um médico imprudente ou negligente pode perder seu registro profissional, o mesmo deverá acontecer com os engenheiros que deixam assinar e executar uma construção com falhas de projeto, ou uma planta (odeio esse termo, qual o problema com fábrica, unidade etc...?) que intencionalmente polui e causa impactos ambientais graves.
O mesmo é válido para a segurança no trabalho. É obrigação do engenheiro fazer valer as normas, fiscalizar o trabalho para que ele esteja sendo feito corretamente (sem espaço para gambiarras, fuga das especificações etc...), de forma eficiente e econômica. Onde está o engenheiro nessas obras, onde funcionários foram pegos trabalhando sem equipamentos de proteção?
É uma pena que, a julgar pelo modelo de crescimento que queremos ver, os impactos podem ficar para trás e serem resolvidos (com um jeitinho ali, outro aqui) anos depois, quando já começarem a prejudicar a todos, ou simplesmente quando não representarem mais progresso. E nós? Num legítimo momento Classe Média Sofre, pagando a conta das obras faraônicas e a bolsa-multinacional de cada dia (legal ver que nenhum neoliberalismo resiste a um bom presentinho de um governo), ao mesmo tempo em que acompanhamos o faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
Basta lembrar do nosso abominável novo código florestal, amplamente defendido pela bancada ruralista, e das usinas faraônicas que alguns defendem (aposta quanto que elas vão ser superfaturadas e pagaremos o pato nas nossas contas?). Enquanto isso, o Brasil, fascinado pelo progresso na forma de grandes obras, e ainda embasbacado pelo pré-sal (justamente quando lá fora tenta-se cortar o vício do petróleo) deixa o potencial eólico e solar livre para quem vier de fora, mas isso é assunto para outro post.
E depois de tudo isso, pinta-se de verde. Plantam-se umas arvorezinhas aqui e acolá, não se jogam dejetos tóxicos nos rios, compram-se umas páginas numa revista para mostrar que a empresa não fez mais do que o dever de casa, faz-se uma campanha de consciência ambiental, as ações sobem, e todo mundo fica satisfeito com o suposto desenvolvimento sustentável dela. Mesmo que o ramo de atuação dessa empresa seja incompatível com a sustentabilidade. Greenwashing em sua melhor forma. E nessas horas, pergunto sobre uma categoria de profissionais envolvidos nessas empresas, a saber: engenheiros.
Toda grande empresa tem (ou ao menos deveria ter) engenheiros responsáveis pela sua operação, e vários outros participaram do projeto dela. Pergunto se são eles complacentes com os crimes ambientais da empresa, com as falhas de projeto que foram deixadas e não sanadas - assim contradizendo o Código de Ética Profissional das Engenharias, que afirma:
Da intervenção profissional sobre o meio
VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens
e de seus valores.
VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens
e de seus valores.
Porém, pouca ou nenhuma punição se vê; não lembro de ter visto nenhum caso de engenheiros perdendo seu direito ao exercício da profissão após a indústria ou empresa pela qual ele é responsável ser punida por crimes ambientais (ou por outros crimes cometidos no exercício da sua profissão).
Da mesma forma que um médico imprudente ou negligente pode perder seu registro profissional, o mesmo deverá acontecer com os engenheiros que deixam assinar e executar uma construção com falhas de projeto, ou uma planta (odeio esse termo, qual o problema com fábrica, unidade etc...?) que intencionalmente polui e causa impactos ambientais graves.
O mesmo é válido para a segurança no trabalho. É obrigação do engenheiro fazer valer as normas, fiscalizar o trabalho para que ele esteja sendo feito corretamente (sem espaço para gambiarras, fuga das especificações etc...), de forma eficiente e econômica. Onde está o engenheiro nessas obras, onde funcionários foram pegos trabalhando sem equipamentos de proteção?
É uma pena que, a julgar pelo modelo de crescimento que queremos ver, os impactos podem ficar para trás e serem resolvidos (com um jeitinho ali, outro aqui) anos depois, quando já começarem a prejudicar a todos, ou simplesmente quando não representarem mais progresso. E nós? Num legítimo momento Classe Média Sofre, pagando a conta das obras faraônicas e a bolsa-multinacional de cada dia (legal ver que nenhum neoliberalismo resiste a um bom presentinho de um governo), ao mesmo tempo em que acompanhamos o faça o que eu digo, não faça o que eu faço.
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
Da multiplicação de números aleatórios
Cuidado: esse post contém matemática, mas nada de muito difícil.
Essa tirinha, do Vida de Programador, fala em multiplicar dois números aleatórios para obter um número mais aleatório. Parece um tanto óbvio que isso é uma boa ideia, não?
Acontece que isso não funciona da forma esperada, e pode em alguns casos até diminuir a aleatoriedade dos números.
Não sei estatística o suficiente para provar de forma formal (e pelo que eu pesquisei isso vai inclusive cair em algumas contas meio tensas - o Mathematica inclusive não dá uma forma fechada para esse produto), mas de forma informal pode ser feito utilizando Python + SciPy, ou qualquer outra linguagem de programação.
Primeiro, geram-se 2 vetores seguindo a distribuição uniforme (a mais usada pelo 'random' das linguagens de programação). Após, multiplicam-se ambos, e o resultado não tem nada uniforme - aliás, parece mais exponencial, não? A mesma coisa com a soma. Vamos aos gráficos (n = 10000):
Pior ainda é multiplicar muitos números aleatórios, o que gera uma tendência extrema. Esse exemplo com 6 números aleatórios (n = 500000) demonstra:
Então, tem-se que multiplicar números aleatórios modifica a distribuição deles. Pode ser que isso seja desejável ou não vá afetar nosso problema, pode ser que não: que eles adicionem um viés, por exemplo num jogo, numa simulação, ou na seleção de propagandas a serem colocadas em um site.
Números "mais aleatórios"? Só com geradores de números aleatórios por hardware, por exemplo este, ou usando dispositivos como o /dev/random. Mas não a solução do nosso querido POGramador.
O código Python? Tem aqui.
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