sábado, 16 de janeiro de 2010

Blog em modo de baixa tensão

Devido a problemas físicos fora do meu controle, provavelmente só atualizarei o blog em Fevereiro. Janeiro tem sido um dos - senão o - mês mais tenso até agora, totalmente sem condições.

Fiquem na espera, pretendo voltar com algo relativamente interessante até lá.

Obrigado,
Renan

sábado, 5 de dezembro de 2009

Mais engenharia, menos gambiarras

Infelizmente, ainda é muito comum vermos gambiarras vindas de diferentes áreas da engenharia. De instalações elétricas feitas naquelas, passando por máquinas consertadas com peças inadequadas, placas de circuito nas quais foram empregadas quantidades industriais de Super Bonder, circuitos elétricos sobrecarregados com milhares de tomadas e canos projetados para uso com água sendo usados para substâncias inflamáveis, muitos são os jeitinhos que vemos por aí, em grandes construções, indústrias e outros lugares.

Nessas horas, pergunto: o que houve com a educação de nossos profissionais? Esqueceu-se o fazer certo? Prefiro acreditar que não, mas o fato é que muitas vezes as pressões pelo fazer mais rápido, pelo cortar qualidade em nome do custo final, pesam demais. E, infelizmente, por mais que tentemos rejeitá-las, é o que o mercado cobra em muitos casos. Mesmo que o custo venha depois, e em dobro.

Soma-se a isso o fato de isso criar uma cultura do faz de qualquer jeito, de forma que a educação para a segurança do trabalho se torna algo impossível. Afinal, como podemos criticar alguém que decidiu que um fusível pode ser substituído por um pedaço de arame farpado, se muitas vezes os próprios engenheiros são culpados de diversos mal-feitos?

Também há a mania - não tão difundida na Engenharia, até mesmo pela regulamentação dessa profissão, mas tristemente comum na Informática - de chamar o filho do vizinho do namorado da Fulana, que supostamente "entende tudo" e cobra muito menos que uma hora técnica. Para a vítima, digo, o cliente, é um excelente negócio. Até a hora do problema, na qual o "entendido" desaparece ou se recusa a reconhecer a responsabilidade pelo que fez.

Ou mesmo quando o cliente decide dar o seu próprio jeitinho, para economizar um pouquinho de dinheiro. Mesmo que não valha a pena.

Isso também colabora para a criação de uma segurança através da obscuridade, aquela que sabemos ser pouco eficiente, e causadora de diversos problemas na hora em que surge a necessidade de uma manutenção. Para o projetista, parece uma excelente ideia, que garantirá seu emprego (pois apenas ele conhece o sistema ou o projeto). Talvez funcionasse, se o trabalho em equipe não fosse cada vez mais constante nas empresas. E, para tal forma de trabalho, esconder os detalhes não apenas é inútil como é perigoso.

Todo mundo que já tentou desmontar e consertar um eletrônico descartável já foi vítima do problema do parágrafo acima. Prefiro me manter cego às gambiarras que provavelmente foram feitas internamente.

Como futuro profissional de engenharia, considero inadmissíveis tais comportamentos anti-profissionais, que podem levar ao prejuízo da imagem de uma pessoa ou mesmo de uma empresa. Por mais que seja divertido resolver problemas de forma não-ortodoxa, com materiais inusitados e montagens diferentes do comum, lembremos que a Engenharia exige planejamento, regularidade, documentação, possibilidade de manutenção e, principalmente, profissionalismo. O que nem de longe combina com gambiarras, jeitinhos e outras "soluções" do tipo.

E, por mais que isso doa no bolso dos clientes, é necessário que seja criada uma consciência que objetive resolver problemas por inteiro, e não simplesmente um toma lá dá cá. Uma análise e prevenção sistemática das causas que levam a defeitos ou falhas. Se um fusível estoura diversas vezes, uma máquina elétrica sobreaquece com facilidade, ou um disjuntor desarma repetidamente, há um motivo por trás, e não adianta mascarar o problema com um pedacinho de fita isolante ou um grampo desdobrado.

É, também, necessário que se delimitem as funções. Operadores de máquinas não são engenheiros ou técnicos de manutenção para realizarem tal função, da mesma forma que pessoas sem capacidade de assumir a responsabilidade pelo que fizeram não devem ter autorização para assinar ou gerenciar projetos.

Sendo a engenharia uma ciência, não há espaço para jeitinhos que se acumulam em cascata e resultam em uma catástrofe depois de um tempo. Não existe sistema perfeito, mas sim sistemas projetados para serem resistentes e robustos. O que não irá se obter com rolos de fita isolante, nem com ligações diretas entre pinos. É hora de se criar uma cultura do bem-feito na engenharia, que abranja do profissional ao cliente.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cuidado, idiotas ao volante!

Esses dias, dentro do campus da UFSM (ou seja, um lugar onde supostamente todos são relativamente inteligentes), quase fui atropelado por um motorista que pensava ser a faixa de segurança uma mera decoração. Bem, "quase atropelado" é um exagero, mas tive que voltar pra calçada pois o condutô não viu que... passavam pessoas na frente dele.

Provavelmente essa ignorância em relação à faixa de segurança é o comportamento mais comum entre os idiotas motorizados que vemos. Especialmente em uma cidade cercada por outras menores, na qual o trânsito é completamente diferente: é bastante claro que alguns motoristas se comportam de forma análoga a de quem dirige em uma cidade de 3, 4, 5 mil habitantes, como verdadeiros donos da rua.

Outras atrocidades no trânsito também são comuns por aqui (e em qualquer cidade relativamente grande, acredito): ultrapassagens que desafiam as leis da Física, estacionamentos em locais inadequados, total desprezo à sinalização, e outras coisas que - acredito eu - deveriam ser ensinados como maus exemplos no trânsito, assunto esse que seria desnecessário se houvessem menos motoristas metidos a machões.

Não preciso nem entrar no mérito da masturbação sonora automotiva, praticada por tais pessoas, pois esse assunto já foi praticamente espancado neste blog, exceto que em vários casos ela vem acompanhada de irresponsáveis, que usam o veículo como dispositivo de auto-afirmação sexual, fingindo que estão arrasando nas pistas dos rachas, pegas e afins com seus equipamentos "tunados".

E como não lembrar, já que falei nesse assunto, dos motoqueiros (não confundir com os motociclistas) metidos a espertalhões, aqueles que cortam e se atravessam por qualquer brecha que veem entre os carros? Ironicamente, alguns deles são os que protestam contra a violência no trânsito. Não quero generalizar, até porque não faria sentido, mas é triste ver que um pequeno grupo mancha a imagem de todos.

Ou mesmo daqueles que decidem transformar uma avenida movimentada em um palco para suas acrobacias e palhaçadas diversas, irritando todo mundo com o barulho de suas máquinas, isso quando não colocam todos em risco, ou brincar de dar arrancadas e mostrar quem manda. De novo, o carro faz o papel de objeto sexual.

Lembremos, também, dos babacas que acreditam ser uma boa ideia jogar lixo pela janela do carro, ou mesmo parar o carro para jogarem uma latinha pela janela. É interessante ver que, depois de um tempo, esses serão os que reclamarão da sujeira, da poluição, entre outros problemas ambientais que eles mesmos criaram. E daqueles que exercitam a multitarefa no carro, comendo ou conversando alegremente no celular enquanto fingem dirigir com uma mão só.

Tudo isso colabora com a minha tese de que a tecnologia, nas mãos erradas de pessoas despreparadas, é um excelente amplificador para a ignorância e a estupidez. E, como pedestre, cansei de pessoas que transformam as ruas em campos de guerra com seus tanques motorizados. Só quero que atravessar a rua (já transformada em autódromo informal por alguns) não seja uma aventura, e que não sejamos vítimas de motoristas que acreditam que o seu assento é um lugar adequado para falar no celular ou fumar, jogando a bituca pela janela.

Coisas simples, mas que não são ensinadas em nenhuma auto-escola, e nem precisariam ser. Então, acredito que esteja na hora de vermos - ao lado das campanhas pela prevenção de acidentes - campanhas por um mínimo de bom-senso e de comportamento no trânsito.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Gerenciamento de janelas no modo texto? Yes, we can!

Sempre tive curiosidade por ferramentas que conseguissem tornar o modo texto algo mais eficiente e prático do que ele já é. Até hoje uso o screen, por exemplo, para garantir que uma compilação ou um download grande não serão afetados se o X cair (o que não é raro com os drivers da Intel, ao menos para mim, entre outras coisas).

Uma ferramenta que tenho olhado atentamente é o dvtm (Dynamic Virtual Terminal Manager), que traz todos os conceitos de um tiling window manager (gerenciador de janelas que sempre mantém as janelas lado-a-lado, organizadas) para a linha de comando.

Você pode se perguntar: tá, e qual a utilidade disso?. Definitivamente, no modo texto padrão ele não é muito viável. Mas combine isso com um framebuffer e ele se torna uma ferramenta bem útil, para máquinas antigas nas quais não queremos ou não podemos rodar o X, para criar um "terminal de monitoramento" para um sistema, entre outras. Ou, simplesmente, para impressionar pessoas que ainda pensam que o modo texto é algo impraticável.

A configuração dele também é algo interessante, sendo feita diretamente na hora da compilação (!). Enfim, é uma opção bem UNIX-like, que preza pela simplicidade, eficiência e pelo faça uma coisa, mas faça bem-feito.

Para demonstrarmos um pouco dessa poderosa ferramenta, pois não achei nada em português sobre ela:

- Instale-a (ou melhor, compile-a de forma a colocar as opções que você quer). Para os usuários Arch Linux, existe uma PKGBUILD pronta no AUR.

- Execute-a (dentro de um terminal no X, se você preferir, ela é igualmente funcional dessa forma) pelo comando 'dvtm'.

Você será recebido com uma 'janela' chamada de '#1'.

Agora, pressione Mod-C (onde 'Mod', por padrão, é 'Ctrl-G') para criar uma nova janela. Você deverá ter duas janelas.

Para alternar entre elas, aperte Mod-J (janela anterior) ou Mod-K (janela posterior), sendo que a ordem delas é sinalizada por um número na "barra de título" (também pode-se usar esse número para alternar para uma janela: Mod-[1..n].
E, para colocar uma delas na área principal, basta apertar Mod-Enter. Por fim, fechamo-nas com Mod-C.

Com mais de três janelas, podemos começar a brincar com os diferentes layouts:

Mod-t -> layout vertical
















Mod-b -> layout "horizontal"














Mod-g -> meu preferido, o layout grade, mais adequado até 5 janelas, sob pena de algumas aplicações terem problema devido ao tamanho do terminal. Considero esse ser o mais adequado para, por exemplo, monitorar o sistema.












Mod-m -> maximiza a janela atual, acredito que não seja necessário um screenshot.

Nos modos vertical e horizontal, podemos redimensionar a janela principal usando Mod-L e Mod-H (lembre-se das teclas do Vi).

Janelas também podem ser minimizadas usando o Mod-. (ponto).

Outros detalhes estão disponíveis na manpage dele. Ele também possibilita a criação de uma barra de status personalizada, assunto esse explicado pela documentação disponível em http://www.brain-dump.org/projects/dvtm, e também é adequado usar o 'gpm' para ter suporte a mouse no console.

Como pontos fracos, cito, principalmente, o fato de necessitar uma recompilação para alteração de configurações, e a necessidade de mudar alguns hábitos (especialmente se formos usar tiling window managers no X, mas isso é assunto para outro dia). Ainda assim, o dvtm é uma ferramenta excelente, tanto para os sysadmins, quanto para quem quer impressionar os amigos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Hora de dar o braço a torcer, gravadoras?

Via iG Tecnologia, tentar deter a pirataria pode ser mais caro que ignorá-la. Algo óbvio para qualquer pessoa com conhecimento mais avançado em redes, mas que não ficou claro para aqueles executivos que alegam o roubo de propriedade intelectual, insistindo nas suas velhas afirmações vazias, provando desconhecerem o funcionamento da Internet.

Começando essa cascata de erros pela velha falácia de calcular o prejuízo baseado na premissa de que todos os piratas comprariam tudo aquilo que obtiveram ilegalmente, algo que sabe-se ser mentira e que pode ser desmontado conversando-se com qualquer pessoa que tenha baixado coleções de músicas, filmes ou softwares.

Outro fator que demonstra a ignorância tecnológica dos burocratas do direito autoral é o simples fato de que "monitorar" a internet, mantendo logs de acesso, é impossível devido à quantidade de informações geradas. Em uma análise feita de forma simplista (até demais), suponhamos que todos os usuários baixem 100MB por dia (valor que provavelmente não corresponde à realidade). Segundo o Ibope, 37,3 milhões de brasileiros utilizam a Internet ativamente no trabalho ou em casa.

Multiplicando esses valores, temos 3.73 petabytes (quatrilhões de bytes) por dia, ou 43 gigabytes/segundo (colocando em uma unidade mais fácil de visualizar, 10 DVDs/segundo). Simplesmente não há infra-estrutura capaz de filtrar e analisar tal tráfego em tempo real, de forma transparente; haveria uma perda de desempenho para o usuário. Além disso, seria necessário violar privacidades; em uma analogia, é como uma companhia telefônica que grampeasse todas as chamadas, de forma a identificar possíveis criminosos. Assim, ficando clara a inconstitucionalidade de uma lei do tipo.

Soma-se a isso a facilidade de conseguir pontos de acesso wireless em qualquer cidade grande, seja os não-criptografados ou os que ainda usam o obsoleto protocolo WEP de segurança, facilmente quebrável com o uso de softwares como o aircrack-ng e uma antena wireless que pode ser construída por qualquer pessoa com habilidade no uso de ferramentas mecânicas; e os serviços de proxy, como a rede TOR, que dificultam - ou mesmo impedem - a identificação do usuário.

(Incidentalmente, graças ao fato acima, leis do tipo 'three strikes' transformam-se em perigosos instrumentos de chantagem e sabotagem: a possibilidade de ter uma rede acadêmica ou corporativa desconectada, por exemplo, graças a um usuário violando direitos autorais enquanto conectado a ela)

Por fim, a ineficiência desse tipo de política revela-se ao lembrarmos que a pirataria off-line ainda existe e não foi combatida. Da mesma forma que vemos camelôs vendendo CDs e DVDs nas ruas de qualquer cidade com mais de 200 mil habitantes, podemos violar direitos autorais usando HDs externos, DVDs, MP3 players, pen-drives ou mesmo carregando um notebook com tais conteúdos no HD.

Saindo do aspecto técnico, e entrando no aspecto econômico, pergunto: se as indústrias do entretenimento choram tantas lágrimas de crocodilo devido ao roubo de propriedade intelectual, por quê elas investem tanto em criar mega-produções para colocar um artista na moda, ou explorar um tema à exaustão, e descartá-lo quando ele já não for mais útil?

Será que não é hora de revisar, ou extinguir, os cachês milionários e os luxos pagos para os atores?
Precisam eles receber tanto assim pelo status, pela fama?
E quanto aos executivos de tais indústrias, eles não se importariam de receber um pouco a menos para que a empresa pudesse ter um prejuízo menor?

Várias perguntas, que nenhuma das vítimas quer responder, talvez por estarem envolvidos demais no "evangelismo" das suas ideias, repetidas centenas de vezes e transformadas em verdades inquestionáveis. Pelo desinteresse em repensar seu modelo de negócios e aceitar que não há fórmula mágica para combater os bandidos digitais, se consolando com leis agressivas.

E, por fim, é irônico ver que, enquanto se fala tanto na ameaça da pirataria, esquece-se de que existe algo com nome parecido, que prejudica ao Brasil e a vários outros países - não apenas a uma pequena elite: a biopirataria. O roubo, disfarçado de ciência, de espécies da fauna e flora locais, que irão gerar invenções patenteadas e vendidas a preços absurdos.

Onde estão os three strikes, a tolerância zero, para esses criminosos ambientais? Cadê uma política de monitoramento das fronteiras, similar àquela que querem tanto impor aos provedores? O que houve com a Justiça, que faz vista grossa para as multinacionais, ao mesmo tempo que segue uma paranoia internacional, de inventar um 1984 em busca dos lucros perdidos por empresas insistindo em um modelo falho e elitista?

Considero que há vários outros crimes - virtuais e reais no qual a tecnologia é usada como mídia facilitadora - a serem combatidos. Que sejam aplicadas medidas agressivas contra spam, pedofilia, fraudes, calúnia, e tudo aquilo que prejudica a todos os internautas, e não apenas a uma elite que reclama de barriga cheia por não querer mudar os seus hábitos. É hora das gravadoras e estúdios darem o braço a torcer e reconhecerem que elas, na situação atual, não têm lugar em um espaço no qual a discriminação pela condição financeira se torna quase impossível, e tampouco podem se sustentar em falsas agressões para manter seu estilo de vida.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

O pedantismo, a metodologia e os professores

Acredito que todos conheçam as normas da ABNT para o trabalho acadêmico: margens, fontes, estilos a serem usados, formas de citação etc... Sem dúvida, até certo ponto essa padronização é necessária para evitar as aberrações criadas por pessoas que pensam estar escrevendo um trabalho de Ciências para a 7ª série, mas há pessoas que levam isso de forma tão obsessiva, a ponto de transformar em grades o que deveriam ser guias para a execução de trabalhos consistentes.

Constato que alguns professores têm verdadeiro fascínio em demonstrar todo seu pedantismo, quando decidem julgar um trabalho não pelo seu conteúdo, mas sim pelas fontes usadas (como já aconteceu comigo no ensino médio: um professor decidiu tirar 0,5 ponto de um trabalho... por eu não ter usado a fonte que ele queria, mas sim uma outra bastante similar) ou por um alinhamento milimétrico que deixou de ser realizado. Pergunto se um deles passa, ou passaria, a noite debruçado sobre teses de mestrado com uma régua medindo cada uma das margens de um documento de 500 páginas.

Além de tal norma ser extremamente intrincada, a ponto de certos autores de livros sobre metodologia científica e professores de tal disciplina não a compreenderem totalmente. Também, podemos esperar o quê de uma norma criada na época das máquinas de escrever, que não considera o uso de sistemas de editoração eletrônica e processadores de texto (não confundir com editores de texto como o Word; estamos falando de ferramentas como o LaTeX, que podem gerar bibliografias e formatações complexas automaticamente) e que não é de fácil acesso pelo público? Uma expansão do conceito de security through obscurity. Uma norma paranoica, perfeita para pessoas idem, a ponto de desconsiderarem trabalhos por um suposto (pois, como já dito, muitos deles têm suas próprias definições para as partes mais obscuras) erro que não afetaria em nada a sua leitura.

(pergunto o que teria acontecido com Newton caso tal presídio já existisse na época da publicação de seu Principia).

Outro caso clássico da necessidade de auto-afirmação por meio do discurso vazio é a invenção e o abuso de linguagens rebuscadas. Não proponho que ninguém comece a falar ou escrever o probrema com os troço que nóis fêis na pizquiza é que fica ruin, nem atirar falácias por todos os lugares em que passa e prega sua palavra, mas vemos o abuso do jargão tanto por parte do aluno - interessado em fingir que aprendeu, mesmo que para isso precise novamente garantir a sua segurança por meio da obscuridade - quanto do professor, preocupado em mostrar serviço e impressionar seus alunos.

E, ironicamente, o abuso do jargão e da linguagem técnica contradiz sua própria definição, quando pessoas generalizam termos e expressões de uso específico e bem-definido, usando-os para descrever eventos e ideias já cobertas por um caso maior, mais abrangente.

Que se mantenham os formalismos e os vocabulários complexos (inclusive os matemáticos, marcados pelo seu rigor, o que leva muitos a odiar tal matéria) para as demonstrações, nas quais a rigidez fornecida por elas se torna necessária de forma a refletir a exatidão, o racionalismo e a impessoalidade da ciência. E que isso não seja confundido com querer disfarçar a falta de conteúdo, ou mesmo a incapacidade de dar uma aula, usando palavras bonitas e vazias. E que as normas sejam estruturadas de forma a garantirem a consistência e a produtividade, e não a confusão de todos aqueles que precisam entregar um trabalho ou produzir um relatório de experimento.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

O ego, a incompetência e algumas distribuições Linux nacionais

Acredito que todo mundo já tenha visto aquelas distribuições Linux nacionais, fornecidas com os computadores populares. Quase sempre "quebradas", com pacotes obsoletos (como eu vi em uma delas: VirtualBox 1.5.0, sendo que já estamos na versão 3.0.4), e grande dificuldade na hora de instalar programas. Isso quando não cometem atrocidades maiores, como gambiarras diversas em arquivos de configuração mal-escritos e não-documentados. Coisas que o usuário final não nota, mas que para alguém que necessite configurar tais sistemas, traz muitos problemas.

Isso revela dois problemas de tais distros. O primeiro deles: a síndrome do precisamos fazer nossa própria distro, também conhecida como Not Invented Here (NIH). Uma reinvenção da roda desnecessária, que na minha opinião vai exatamente de encontro à própria ideia do software livre. Mas tudo bem, dizer que criou uma distro é engrandecedor, serve direitinho para que algumas pessoas possam se rotular de "desenvolvedoras".

Uma solução muito mais fácil e óbvia seria criar pacotes com as modificações, colocá-los em um repositório e aplicá-los em uma das várias distros end-user já disponíveis, assim garantindo a continuidade das atualizações - ao contrário de humilhar os usuários com versões antigas. E, também, se o usuário quisesse voltar à distro original, isso seria possível, assim como um usuário de Ubuntu pode "migrar" para o Kubuntu instalando um meta-pacote que nada mais faz do que depender dos pacotes relativos à distro desejada.

Poder-se-ia, por exemplo, pegar um Ubuntu ou openSUSE, acrescentar pacotes que reflitam as modificações desejadas, e aproveitar todos os repositórios, documentação e tutoriais, assim garantindo uma experiência mais agradável para os usuários iniciantes e acabando com a reinvenção da roda praticada em nome da satisfação pessoal.

Outro problema clássico é a síndrome de imitação do Windows. A intenção é boa, facilitar a migração, e talvez até funcione em ambientes corporativos, nos quais os usuários tem acesso restrito e pouco ou nenhum direito de instalação de programas e configuração. Exceto que... isso dificulta as coisas para um usuário doméstico, além de colaborar na criação da imagem de Windows de pobre, de cópia mal-feita.

Aparentemente, há uma falta de sinceridade e de capacidade em não tratar o usuário como um idiota. É possível, sim, criar desktops fáceis de serem usados e que não tenham uma imagem pixelada e desproporcional dizendo Iniciar, nem precisem roubar ícones do Windows (ironicamente, depois dessa, são os usuários Linux que reclamam de qualquer coisa que remotamente pareça ter sido copiada, mesmo que tal plágio não exista).

E ironicamente, o ambiente que "não deveria confundir o usuário" pode causar mais problemas. Quantas vezes já não vi um usuário desses sistemas tentando instalar o Messenger ou outro programa baixado do site da ... Microsoft? Embora o Wine já rode muito bem vários programas, ele ainda não é completamente plug-and-play.

(Um detalhe interessante: nunca vi um usuário que migrou de Windows para Mac reclamar da falta do botãozinho Iniciar ou que não tem Internet Explorer)

Mas não, para os desenvolvedores, tais ideias simples são muito distantes da realidade de quem quer poder afirmar que criou uma distro, mesmo sem ter como garantir a qualidade do sistema. Para eles, é necessário criar um ambiente sem nenhuma identidade, parcialmente compatível e completamente quebrado, assim fazendo com que o usuário-final pense o Linux é essa porcaria e alimentando os preconceitos sobre o sistema.