sábado, 7 de fevereiro de 2009

Fuja do mic(reir)o, ilustrado

Mas o meu (sobrinho/filho/amigo/etc...) que é 'craque em computador' faz a mesma coisa por (um preço fora da realidade). Todo profissional de informática ou de design (em outras áreas acontece, mas é mais raro) já ouviu essa temida frase de um cliente que só quer "economizar" (ainda mais em tempos de crise...). O cliente se refere a um profissional em abundância nos dias atuais: o micreiro.

Normalmente, o micreiro é alguém que "aprendeu sozinho, fuçando". Nada de errado com isso, eu também aprendi muito de informática e de outras áreas sozinho, "fuçando", e esse não é o objetivo desse post. Se ele mantiver esse conhecimento apenas para ele, como um hobby, e/ou tiver interesse na área, por fim se profissionalizando nela, excelente, ele está no caminho certo. O problema do micreiro é quando ele decide atuar como profissional na área que ele se acha habilitado, e cobrando por isso. Não ficou claro? Vamos para exemplos bem práticos:

O micreiro é aquele cara que vai montar uma máquina para você ou para sua empresa com peças de procedência duvidosa, instalar programas pirateados em todos os micros da sua empresa ou escritório, e depois vai desaparecer para não assumir a responsabilidade pelo ocorrido, no caso da fiscalização bater na sua porta ou de uma peça sem garantia estragar.

É aquele que vai dar um jeitinho para fazer tudo que o cliente quer, para atender às especificações mais vagas possíveis (eu quero que faça que nem o daquela empresa, ainda que "aquela empresa" seja uma multinacional com 50 mil funcionários em 30 países e o cliente seja uma microempresa com 10 funcionários em uma mesma sede), mesmo que seja impossível ou absurdo. Fazendo uma gambiarra ali, outra aqui, ele atende às necessidades. Especificar os requisitos é para os fracos.

É ele que vai montar a sua rede passando fiozinho, com material de má qualidade (porque o cliente quer economizar, oras), clicando OK e ativando tudo que puder pendurar no mesmo servidor, e deixando tudo aberto, tudo inseguro, e na hora que der problema ele vai mandar formatar tudo e reinstalar, porque deu hacker. Segurança da Informação e projeto de redes, quem precisa disso?

É ele que vai desenvolver o sistema da sua empresa copiando e colando códigos de tutoriais e de outros programas, em algumas vezes desrespeitando as licenças de softwares, assim criando aquele programa que só ele consegue dar manutenção e garantindo o emprego dele. Algoritmos? Modelagem de dados? Lógica de programação? Análise de sistemas? Interação homem-máquina e usabilidade? Isso é para os fracos. Estudar Ciências da Computação ou Sistemas de Informação pra quê, se é possível aprender a programar com uma "apostila hacker"?

No design, é ele que, para desenhar uma logomarca (pleonasmo [1]) ou fazer um site, vai pegar o nome da sua empresa e sujar com toneladas de efeitos especiais e 37 degradês diferentes feitos no Photoshop (pirata, é claro). Para fazer um anúncio ou uma publicação? Fotos tiradas em celular, imagens de baixa resolução, e é claro, mais efeitos especiais. Afinal, o cliente pede, o cliente recebe. Dane-se a a estética e o bom-senso, o que importa é uma logomarca enorme e o telefone demarcado por setinhas rosa-pink piscando, e que as pessoas da propaganda fiquem "iguais as da revista".

E principalmente, é aquele cara que vai prostituir o serviço que ele faz, de forma desleal, concorrendo com aqueles profissionais que realmente fizeram um investimento em aprendizagem, cursos, equipamento, software etc... e que constantemente estão se reciclando. Você contrataria o serviço de um arquiteto que precisasse fazer um anúncio "qualquer projeto por R$ 50" ou de um médico que "fizesse qualquer cirurgia por R$ 20" e cuja formação fosse "aprendi lendo uns sites"? Você viajaria em um avião pilotado por alguém que "aprendeu jogando Flight Simulator"? Certamente não.

Os resultados das micreiragens são essas obras, entre muitas outras:


(fonte: www.ssw.com.au)


(fonte: www.frederiksamuel.com)


(autoria própria / Worst Web Design Ever)

Programação, administração de sistemas, redes e design, entre outros não são assuntos que se aprendem em um tutorialzinho na internet ou com apenas um livro ou curso intensivo de verão. Programar é mais do que escrever código, redes é mais do que instalar servidores e fazer cabos, design é mais do que simplesmente desenhar, e administrar sistemas é mais do que simplesmente iniciar e parar serviços. Definitivamente essas, e muitas outras disciplinas, não são coisas que possam ser aprendidas com um videozinho ou um site.

Portanto, se a sua empresa vale mais que R$ 20 (e ela, sem dúvida, vale), fuja do mic(reir)o, contrate um profissional e não um picareta. E, se ele cobrar caro, não é porque ele "se acha", mas sim porque os anos de estudo e as ferramentas custaram mais do que simplesmente um programa baixado, ele realmente valoriza seu trabalho e sabe da sua complexidade.

[1] Não sou designer, mas em pesquisas cheguei à seguinte informação: Ao falarmos "Logomarca", praticamos uma enorme redundância, pois "logo e marca são meramente a mesma coisa, portanto, banam do seu vocabulário (Alexandre Wollner)

Um comentário:

  1. Ótemo! Nóis, que é professor de português, matemática, história e às vezes geografia, agradesse o apresso pela nossa profição e os presos justos que acobramos.

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