sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um Belo Monte de hipocrisia ambiental

Recentemente, vimos um movimento de atores globais protestando contra a construção da usina de Belo Monte, e disto surgiram uma sequência de respostas e contra-respostas.

Sem entrar no mérito da questão Belo Monte, posto que não tenho uma opinião completamente estável sobre o assunto (não sou muito favorável à construção dela, antes que perguntem, mas não é pela questão ambiental ou indígena) eu gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo a mídia abraçou esta causa com tanta força, com tanta vigorosidade, ao mesmo tempo em que menospreza ou nada fala sobre outros problemas ambientais?

Somos o país que mais usa agrotóxicos, e ainda somos os únicos que toleramos a pulverização destes: forma altamente poluidora de aplicação. Porém, sabe-se que eles são fundamentais para o latifúndio, para o agronegócio - o mesmo em teoria capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, mas que na prática não alimenta 5, devido à especulação e ao fato de muita dessa produção ser usada para alimentação animal - por si só um problema ambiental - e para exportação. E isto foi quantas vezes questionado na mídia? Pouquíssimas. Mas, quando o Brasil demonstra ser o celeiro e o abatedouro do mundo, a mídia toda está lá.

Só se tomam medidas quando já é muito tarde: quando surgem problemas diversos de saúde causados pelo uso incorreto destes produtos químicos, a mídia está prontinha para cair em cima e cobrar satisfações - e o governo pouco ou nada faz para punir aqueles que causaram o desastre, notadamente os órgãos que somente fornecem crédito agrícola mediante o uso de pesticidas, assim favorecendo um grupinho de marcas enquanto todos aturam o prejuízo: impacto ambiental, problemas de saúde, perda da nossa soberania alimentar etc...

Por que a grande mídia nunca fala sobre o impacto ambiental da pecuária e sobre alternativas alimentares (exceto quando o assunto são dietas milagrosas e picaretagem, digo, terapias alternativas) como alternativa ao desmatamento e à poluição causados pela produção animal?

E onde está ela na hora de defender o transporte coletivo em substituição ao transporte individual, de exigir e fiscalizar que de fato ocorram as melhorias radicais e urgentes para resolver as situações lamentáveis que vemos em diversas cidades? Por que vemos reportagens sobre meio-ambiente (ou pior, reportagens sobre congestionamentos épicos), e 2 minutos após vemos a propaganda de um novo modelo de carro, desfilando por ruas largas, absolutamente limpas, perfeitamente pavimentadas e vazias que não existem em nenhum lugar do mundo?

Por que essa grande mídia não critica o consumismo, a urbanização desenfreada, o lucro a qualquer custo, os quais também são causadores de enormes impactos ambientais e sociais? Simples: qualquer coisa que contradiga as propagandas de felicidade em 48 vezes no cartão vai contra o interesse dela. E obviamente, questionar um crescimento baseado no consumo (e auto-limitante por sua própria natureza) vai contra os interesses de quem paga milhares de reais por uma propaganda de 30 segundos no horário nobre.

Em suma, várias coisas que também causam impacto ambiental tão grande quanto, ou maior que o de milhares de usinas, passam batidas. No máximo viram uma coluna na Veja ou uma matéria do Globo Repórter - na mesma edição em que uma empresa de agronegócio ou um grande grupo industrial colocará uma propaganda olhe, estamos fazendo nossa obrigação em não poluir, logo após a propaganda de mais um carro de luxo.

Em toda essa campanha, ficou um gosto enorme de greenwashing: pintar de verde, para aumentar a audiência e fazer com que pessoas finalmente possam se sentir engajadas, que elas se identifiquem com um modelo pago para ler um script. O qual se acumula num belo monte de hipocrisias, junto com as grandes obras pintadas de verde e com as promessas de reflorestamento. Uma "sustentabilidade" enlatada, fácil de ser distribuída por ai. Uma coleção de platitudes.

Em tempo: não sou muito favorável à construção de Belo Monte pela questão da nossa defasagem quanto à eficiência energética. Iluminação pública acesa quando não é necessário, equipamentos antigos, prédios onde o uso de ar-condicionado é mandatório, gatos etc... tudo isso anulará os efeitos de qualquer nova fonte de energia, por mais limpa que ela seja. Fundamentalmente, estamos pegando o financiamento para pagar o empréstimo que pegamos para cobrir o desperdício.

2 comentários:

  1. Excelente post, Renan. Tomei a liberdade de reproduzi-lo em meu blog (com os devidos créditos, é claro)!

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