sábado, 31 de agosto de 2013

Comparando profissionais

Poucos escrevem como um arquiteto constrói: primeiro esboçando o projeto e considerando-o detalhadamente. A maioria escreve da mesma maneira com que jogamos dominó. Nesse jogo, às vezes segundo uma intenção, às vezes por mero acaso, uma peça se encaixa na outra, e o mesmo se dá com o encadeamento e a conexão de suas frases. -- Schopenhauer, A Arte de Escrever

Sejam dois profissionais, de igual formação acadêmica e trabalhando na mesma profissão.

  • Profissional 1 projeta e planeja com base na experiência dele e dos outros. Fugir do foco do projeto? Não, a menos que seja necessário e justificável. Ele vai usar a solução mais adequada para resolver um problema. Ele não trabalha sem especificações - e quanto mais bem definidas, melhor.
  • Profissional 2 faz as coisas da cabeça dele seguindo apenas suas vontades, seus caprichos e um ou outro modismo: é uma boa ideia fazer X, mesmo que fuja do foco do projeto. Ele vai tentar forçar soluções inadequadas, "por que é mais fácil" ou "por que eu já sei fazer".


  • Profissional 1 documenta as suas decisões. Ele consegue entregar o trabalho para outra pessoa, que consegue retomar de onde ele parou. Se ele tiver que dar manutenção num projeto que ele fez há anos atrás, ele consegue.
  • Profissional 2 acha que comentários, documentação etc... são "frescura" e que os bons não precisam disso. Aliás, o profissional 2 vive de se achar melhor do que ele realmente é, e usa isso como desculpa para não aprender tecnologias novas: ele não precisa disso, afinal o salário dele está garantido. Ou ele se apega a todas as novidades sem entender o que elas realmente são.


  • Profissional 1 adota boas práticas desde o começo. Ele prima pelo trabalho dele ser limpo, enxuto e eficiente. Já o profissional 2? Só faz uma limpadinha por cima no final.
  • Profissional 2 desenvolve e testa tudo de uma vez só; já o profissional 1 desenvolve iterativamente e testa conforme desenvolve, não começando outra parte do projeto até que uma esteja funcionando adequadamente. Aliás, uma das primeiras coisas que ele faz é especificar testes.


  • Profissional 1 sabe que volume não é quantidade e que, aliás, as melhores e mais elegantes soluções são as mais simples. Já 2 quer é demonstrar a capacidade dele de ser prolixo.
  • Profissional 2 consegue cobrar mais barato por isso e entregar o trabalho mais rapidamente: boa sorte para o cliente ou para quando ele mesmo tiver que fazer manutenção. Já o profissional 1 pode demorar mais, mas entrega um trabalho melhor.

Quando o projeto do profissional 1 dá errado ou não funciona de forma satisfatória, ele sabe por onde começar a corrigir os problemas. E provavelmente ele vai achar o problema: ele vai usar as ferramentas adequadas para descobrir o defeito.

Já o profissional 2 se desespera, rasga tudo e começa de novo. Ou usa a ferramenta errada, não é muito fácil mas dá pra dar um jeitinho.

Qual deles é o melhor profissional? Qual deles é o mais comum?

E infelizmente, o que mais vemos por aí são profissionais do tipo 2. Já começa desde cedo na faculdade: deixam tudo para a última hora, não organizam, não planejam, e faltando algumas horas para a data de entrega é um desespero para tentar fazer a coisa funcionar direito.

Se apegam a formas prontas para resolver problemas, e tentam forçar todas as soluções a caberem no mesmo molde, mesmo que isso seja péssimo de um ponto de vista técnico.

Mas o pior é ver empresas que sugerem que você se comporte como um profissional do tipo 2: recentemente, desenvolvendo com o hardware de um grande fabricante, uma das recomendações era encontrar um código parecido com o que você quer fazer, copiar e colar. Justamente para fugir da abstração que eles mesmos criaram. Na hora perdi a vontade de trabalhar com o hardware.

Profissional do tipo 2: não seja esse profissional. Aprenda a fazer direito, mesmo que isso lhe custe mais a curto prazo, para evitar o retrabalho, a perda de tempo (seja sua, seja do seu sucessor).

Aliás, o livro do qual eu tirei a citação do topo deste post é uma leitura bem interessante para qualquer profissão criativa: tudo que está lá pode ser facilmente adaptado.

(Fonte da foto: http://www.flickr.com/photos/jpaxonreyes/5034760960/lightbox/)

sábado, 17 de agosto de 2013

Novo nome, sob a mesma direção

Rapidinha para quem estranhou a troca de nome:

Para nos alinharmos com as novas tendências do mercado, decidi renomear o blog. Considera-se que o novo nome traz a sinergia de uma marca forte e bem-estabelecida com o potencial inovador causado pela troca de ideias.

O nome antigo era impronunciável para muita gente, gerava confusão etc... e muita gente procurando horários de ônibus para 2112 (se as empresa de ônibus não conseguem nem acertar o horário para a semana que vem, quem dirá para daqui a 99 anos), gabaritos de provas e vestibulares para esse mesmo ano etc...

Espero que agora fique mais fácil de divulgar.

Crédito da foto: Anderson Luton/Flickr

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

De impostos e soluções burras/imediatistas/etc...

Recentemente surgiu a proposta - idiota, usando um eufemismo - de aumentar a carga tributária sobre os combustíveis para poder reduzir as passagens de ônibus. Solução óbvia, simples e inútil: ignora que as passagens não serão reduzidas (ao menos não como prometido) e que esse dinheiro arrecadado irá para o sumidouro do dinheiro público.

Ignora que estamos em séria necessidade de uma reforma tributária e política. Ignora que somos um dos poucos países onde a pirâmide está invertida: quanto mais pobre, mais imposto se paga. As grandes fortunas estão no exterior, estão em bolsa de valores, não estão sendo tributadas (e nem violando nenhuma lei: não é preciso ser criminoso para ser corrupto).

Ignora que aumentar os combustíveis reflete no custo dos fretes: já temos sérios problemas com infra-estrutura de rodagem e ainda criamos outro. Ignora que nem todo mundo usa carro simplesmente para fins pessoais e que, inclusive, o governo também gasta em combustíveis.

Pouco se fala em reduzir os impostos incidentes sobre o transporte público. Nada se fala em investigar os contratos com as empresas de ônibus (até por que, em nosso país, mexer com empresas e puní-las por corrupção - seja corruptora, seja corrupta - é tentar implantar o comunismo, não deixar o cidadão de bem ganhar dinheiro). Aliás, não se fala em obrigar as empresas (de todos os setores) a mostrarem suas prestações de contas.

Por sinal, temos um tabu enorme em punir empresas: desde que elas sejam grandes, ou seja, financiem campanhas, elas podem tudo que o cidadão de bem não pode. Encostar nelas é proibido, sob pena de ser tachado comunista, sob pena de sermos acusados de estarmos destruindo a economia ou o PIB não crescer alucinadamente (mesmo o PIB sendo um indicador ruim para medir o desenvolvimento de um país).

Muito menos ainda se fala em eliminar os privilégios dos políticos - o que já garantiria uma enorme economia para o país - e acabar com a propaganda estatal. Aliás, considero que o governo deveria ser proibido, por lei, de fazer propaganda: vender melhorias em algo que não melhorou é propaganda enganosa, e em se tratando de serviço público é relativamente fácil ver as melhorias (ou a ausência delas).

Não se fala em profissionalizar o serviço público, em tornar ele menos burocrático (como já cansei de afirmar, burocracia é corrupção: ninguém fura a fila que não está lá, ninguém sonega o imposto que não existe, ninguém paga para ter um privilégio que não é necessário), em punir as incompetências, os superfaturamentos e atrasos em obras de forma efetiva - coisas que qualquer empresa séria faz.

Todas ótimas soluções que não custam nada ao contribuinte - e inclusive poderiam aumentar a arrecadação de impostos, com mais gente usando esses produtos e serviços. Perde-se de um lado, ganha-se mais ainda de vários outros.

Pena que muito dificilmente essas mudanças acontecerão: nenhum governo gostará de não poder fazer propaganda. Ser político deixará de ser interessante. Uma reforma tributária geral causa menos efeito nas pessoas do que zerar o IPI dos carros. Na pior das hipóteses, vai ter gente irritada por ter perdido um suposto status quando o povão começar a ter acesso a melhorias.

Mas a solução mais simplista, mais burra está lá: um novo imposto, ou aumentar os existentes. Mesmo sabendo que essa história já cansou e não cola. Mesmo sabendo que isso é destrutivo para a economia - exceto quando beneficia as empresas amiguinhas dos candidatos.

Um argumento relativamente comum é país X tem a mesma carga tributária do Brasil e ninguém reclama. Uma comparação tão absurda que chega a dar pena. E os nossos serviços? Eles tem (ou um dia terão) a mesma qualidade do país X? Nesse país X temos superfaturamentos, atrasos em obras, licitações compradas e cabides de empregos? Muito provavelmente não: se eles acontecem, são esporádicos.

Países tão grandes quanto o nosso conseguem resultados melhores (e inclusive possuem programas sociais muito mais abrangentes, para ódio dos classe-média-sofre) com uma menor carga tributária: quem é o errado na história, eles ou nós?

Na verdade, quando se fala em melhorar o serviço público (qualquer um deles) no Brasil, existe um ciclo bem comum:

  1. [X = Educação/saúde/transporte público/cidadania/...] está deficiente! Vamos criar um imposto e o dinheiro será investido em X! Eu prometo!
  2. Cria-se um imposto (que, como eu já disse, os mais pobres pagam, pois é de longa data que no Brasil os ricos efetivamente não pagam impostos). X não melhora, mesmo se jogando rios caudalosos de dinheiro nele.
  3. Em uma última tentativa, pede-se "10% do PIB para X!". E coloca-se 10% do PIB lá, e mesmo assim as melhorias são insignificantes: outros países fazem melhor com menos gasto.
  4. O governo pode colocar na sua propaganda "investimos em X!" e mostrar meia dúzia de figurinhas que supostamente comprovam o investimento. Mas para cada melhoria, houveram várias pioras.
  5. Opcionalmente, cria-se um programa que promete mudanças radicais - e cumpre, nos primeiros meses, até vermos que não é bem assim e que o problema é mais profundo.
  6. Não tem passo 6, voltamos ao passo 1.

Não que o povo seja muito melhor: a solução dele muitas vezes vem em agressões, em ofensas, em palavras fortes e vazias. Eles querem uma solução - novamente - radical, imediatista e quanto mais violenta e brutal melhor. Mesmo não tendo resolvido o problema, apenas escondido ele, dá a sensação de satisfação. Mas ninguém quer sentar e discutir reais soluções, afinal não tem o mesmo prazer de dizer que fez X e Y.

Somos um país viciado em soluções simplistas, que ignoram toda a raiz de um problema, todas suas consequências e implicações. Tentamos resolver com dinheiro o que não é problema dele. Aliás, é bem comum isso vindo de certos políticos, de certos partidos: soluções imediatistas, demagógicas e - por que não dizer - burras.

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A importância da boa comunicação

Duas situações que me aconteceram esses dias e que ilustram o tema desse post, a importância de se comunicar de forma simples e efetiva:

  • Outro dia vi num desses grupos de vendas no Facebook alguém perguntar se um produto era original ou réplica (eufemismo para falsificado). A resposta: não é réplica. Não é réplica (frase essa que poderia teria sido dita mais claramente: é original) ou não, é réplica? Ficou a dúvida, causada pela simples ausência de uma vírgula.
  • Em outra situação, fui avisado por um colega (chamá-lo-ei de A) que precisava fazer um outro trabalho de uma disciplina para ser entregue no mesmo dia: entrei em pânico, até que conversei com outro colega meu - o qual confirmou que A se referia a um trabalho que já tinha sido proposto (mas que A não tinha feito ainda). 
Para quem não me conhece: sou chato com erros de escrita, principalmente os grosseiros e evitáveis (cada vez que eu leio alguém errando algo básico, eu choro). Aliás, tenho para mim que boa parte dos mal-entendidos são causados pela má comunicação. Frases sem sentido, vocabulário inadequado, pensamentos mal-estruturados, a necessidade inteira de adivinhar o que o interlocutor está dizendo. 


Acho que todos nós podemos lembrar de algum exemplo onde fomos induzidos ao erro, a conclusões inadequadas ou incorretas, etc... por uma ambiguidade ou por uma frase mal-escrita, ou mesmo de quando perdemos a paciência com gente que precisa falar muito para dizer pouco.

Não é questão de falar difícil: isso muitas vezes mais atrapalha do que ajuda! Há pessoas que infelizmente precisam mostrar que sabem e transformam qualquer frase em um texto rebuscado. É questão de falar de forma minimamente adequada para a situação: e-mails profissionais não combinam com vc ou com migo, e nenhuma situação combina com FALAR GRITANDO SEM VÍRGULAS.  

Outra situação, infelizmente comum, é entender o inglês de algumas pessoas (que deveriam se preocupar primeiramente em aprender a estruturar um raciocínio ou uma sentença, em sua língua nativa mesmo). São erros aqui, abreviaturas para cá, etc... que acabam afetando o entendimento da frase.

Por mais que meu inglês tenha alguns problemas, eu nunca precisei (e nem vejo sentido, não estou escrevendo um telegrama cobrado por palavra) trocar you por u: isso mais atrapalha do que ajuda. A propósito: não, um tradutor on-line não é um bom substituto para aprender o idioma, no máximo ele quebra um galho quando você não entende uma palavra ou uma frase.

O que precisamos, ao menos em situações profissionais, em situações mais sérias, é comunicarmos bem: sermos objetivos, diretos e respondermos ao que é pedido ou perguntado, de forma clara. É simples, mas é algo que muitos não dominam - até por que essa habilidade não é treinada. Ao contrário: por vários motivos, criou-se a cultura do lero-lero, do colocar texto para encher páginas. Daí temos manuais de instrução que não instruem, notícias que não noticiam, picuinhas semânticas sobre o significado de uma palavra, etc...

Outro fator importante é a precisão: a dúvida é sobre X? Pergunte sobre X, mas não só sobre ele: o que levou você a chegar até X. Dê todos os dados necessários para resolver o problema. Não fale mais do que o necessário, nem menos (mas na pior das hipóteses é mais fácil dar mais informações: em último caso pode-se descartar o que não interessa). 

Falta de comunicação, ou a má qualidade dessa, mata, atrapalha, atrasa projetos e cria situações desagradáveis. Mas infelizmente muitos não conseguem superá-la, seja por desconhecimento, seja pela necessidade de falar difícil (especialmente quando é para enganar os outros), ou simplesmente pela preguiça ou descaso de escrever com maiúsculas e sem abreviações. 


sexta-feira, 12 de julho de 2013

Faltam engenheiros?

A falta de engenheiros virou um pequeno pânico. Toda hora se fala nela. E realmente, vagas passam um bom tempo sem ser preenchidas: não por faltarem engenheiros (o que levou a uma disparada para as faculdades - espero daqui a uns anos ver o pessoal desiludido por que eles não vão ficar ricos), mas por motivos diversos.

Primeiramente, um motivo óbvio: muitas empresas não pagam o piso salarial para os engenheiros. Seja contratando analistas (que não são engenheiros, ou seja, não são cobertos pela lei), seja simplesmente ignorando a lei. E depois são essas mesmas empresas, e seus donos, que tem a audácia de reclamar da corrupção (dos outros, por que a delas é necessária).

E o CREA nada faz: por motivos óbvios ele não vai se meter com quem contrata quem paga a anuidade deles. Ele não vai criar animosidades com o governo ou com empresas - sob pena de ser rotulado como o órgão que está atrasando o progresso.

Ele não vai mexer um dedo para tentar cortar a burocracia, caso contrário ele vai gerar desemprego (sim, já vi gente usando essa expressão para defender o inchaço dos órgãos públicos, os cabides de emprego, a burocracia etc...). E, como bem estamos cansados de saber, burocracia é corrupção: só existe gente subornando por que há a necessidade de subornar, só se paga para furar a fila por que a fila está lá.

Nenhum governo vai se envolver para punir empresas, caso contrário o Brasil deixa de ser um país bom de investir (leia-se: país bom de conseguir altíssimos lucros) por que estão enchendo o saco do cidadão de bem que quer ganhar dinheiro.

Essa desvalorização levou muitos engenheiros a irem para outras áreas, principalmente as administrativas - onde eles acabam sendo mais valorizados e recebendo salários melhores (ou muitas vezes, apenas justos). Ou seja, acabam faltando engenheiros para as partes técnicas, operacionais etc... e isso está se fazendo notar agora com o certo crescimento econômico que estamos tendo, o que se traduz no grito de SOCORRO! FALTAM ENGENHEIROS!.

(Aliás, o problema da desvalorização não é apenas das engenharias: todas as profissões no Brasil encontram-se nessa situação, excetuando-se talvez as carreiras jurídicas e alguns poucos profissionais que conseguem explorar alguns filões. Mas isso é tema para outro texto)

Outro não menos grave problema: as universidades - principalmente e infelizmente as públicas - estão fora de sintonia com o que o mercado e a indústria precisam. O ensino ainda é fundamentalmente teorético, voltado a resolver os problemas descritos nos livros. Livros muitas vezes arcaicos, obsoletos, com tecnologias que já não se usam mais há anos.

Na graduação, eu aprendi a resolver muitos problemas em situações imaginadas: despreze a resistência do ar. Calcule não sei o que na gravidade de Júpiter. Suponha que tudo é linear e que o mundo é elegante. Deduza a fórmula. Decore a fórmula (ou ponha ela na HP). É mais importante mostrar como se chegou ao resultado do que aplicar o resultado.

Eu tive professores que davam aulas com material da época das empresas estatais de energia/telecomunicações (da época em que ainda existiam CEEE, CRT, Telebrás etc...) ou com lâminas que eles tinham escrito há 25 anos atrás.

Pouca ou nenhuma ênfase foi dada à prática, à capacidade de resolver problemas reais em um universo não-linear e cheio de fatores contraditórios. Pouco se ensinou e se praticou o troubleshooting, a arte/ciência de resolver problemas, ou sobre como se transforma um requisito em uma solução.

A opção para contornar esse problema seria fazer estágios desde cedo - opção inviável para muitos, considerada a carga horária do curso, e pior ainda quando se mora em uma cidade onde praticamente inexistem oportunidades para certos campos da engenharia.

Outra opção é o autodidatismo, infelizmente prejudicado pela cultura do diploma: não basta saber fazer e mostrar que sabe, é necessário um papel atestando que se passou por anos de aulas - das quais não foi tirado nada devido aos já citados problemas.

Uma das alternativas que os alunos acabam procurando é a pesquisa, porém em muitos casos ela é teórica, voltada à produção intelectual (que interessa a quem almeja uma pós-graduação) sobre um tema muito específico e não gera aplicação real.

A maioria dos meus professores foi direto da graduação para a pós, e o pouco de experiência profissional que eles tiveram se restringiu aos 6 meses do estágio obrigatório. Viraram os famosos especialistas de nada: sabem tudo sobre um assunto extremamente específico, e só.

E eles não veem nada de mal nisso, o conhecimento deles rende um fator de impacto (a moeda do mundo acadêmico) alto, graças ao sem-número de papers que eles podem publicar.

Colabora com isso tudo a tal da dedicação exclusiva, que aliena os professores e os impede de vivenciar o mundo real. Um professor pode ficar horas descrevendo as maravilhas do empreendedorismo, mas não pode empreender. Um professor pode ficar horas descrevendo o que deveria ser feito na indústria, mas não pode fazer. Um professor de administração não pode administrar.

Sem falar nos requisitos impossíveis de algumas empresas: é necessário que o engenheiro seja jovem (afinal, profissional velho "não aprende", "não tem flexibilidade") mas tenha vasta experiência.

É necessário que ele seja recém-formado, mas tenha conhecimentos profundos (que não se adquirem sem o exercício da profissão). É necessário que ele tenha 10 anos de experiência em uma tecnologia que só existe há 5. É preciso que ele seja jovem, fale 3 idiomas fluentemente e tenha experiência em liderança. Condições impossíveis para 99,9% dos formandos.

Por fim: muitas das empresas daqui ainda mantém a mentalidade de que pesquisa e desenvolvimento, treinamento etc... são gastos. O negócio é vender o mesmo produto ou serviço por anos, e ainda prejudicar quem tenta fornecer algo melhor e mais barato.

Com essa mentalidade, não me surpreende que o país esteja tão atrasado em inovação e que nossa sexta (ou sétima? não sei) maior economia seja baseada em indústria de baixíssima tecnologia.

Faltam engenheiros? Faltam. Por culpa de muita gente: por culpa de todo o nosso modelo educacional, que - guiado por professores que sabem quase tudo sobre quase nada - avalia a capacidade de resolver problemas teóricos e não de aplicar conhecimentos.

Por culpa das empresas, que decidiram ignorar a lei ao mesmo tempo em que reclamam de quem ignora as leis - e depois reclamam que nenhum engenheiro quer aceitar o salário horrível que eles oferecem.

Por culpa da burocracia (que, estranhamente, não vitima as grandes empresas - as mesmas que tem dinheiro para financiar campanhas e comprar seus benefícios) e pela inutilidade do conselho profissional.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Já tinha gente acordada

Depois dos recentes acontecimentos virou lugar-comum dizer que o brasileiro acordou. E de certa forma é verdade, o povo foi as ruas, embora com causas vagas e desconexas.

Porém, muitos dos que dizem isso omitiram que os movimentos sociais já estavam acordados há um bom tempo. Eles acordaram cedo, antes do sol nascer. Estavam protestando por direitos das minorias, lutando por justiça para os mais necessitados, tentando abrir caminhos.

Só que chamavam eles de vagabundos, gente sem ter o que fazer. Diziam que os militantes não eram gente de bem, por que gente de bem estava trabalhando, e não defendendo coisas de vagabundos. Foi nessa mesa que pediram lógica circular (gente de bem não defende coisa de vagabundo por que vagabundo não é gente de bem)?

Eles diziam que as mulheres que lutavam por igualdade de direitos queriam destruir a sociedade. Que direitos reprodutivos seriam assassinato e que educação sexual iria formar uma geração promíscua. O negócio deles é o obscurantismo. E ironicamente, eles reclamam da educação, mas queriam que fosse ensinado apenas o que lhes interessava: não queriam nenhuma contradição e nenhuma discussão.

Eles diziam que os movimentos LGBT eram viadagem e que se eles tivessem direitos fundamentais teríamos que legalizar a pedofilia e a zoofilia, em um declive escorregadio perigosamente burro. Defendiam a velha família mamãe-fica-em-casa-papai-foi-trabalhar. Sempre com os mesmos argumentos. Sempre com a mesma fala do pastor.

Eles diziam que as minorias queriam viver de bolsa-esmola, que elas queriam privilégios e que elas não podiam reclamar por estarem sendo desalojadas em nome de um suposto progresso. Que quem reclamava das mastodônticas (e superfaturadas, e de enorme impacto ambiental) obras estava querendo que o país vivesse atrasado.

Eles diziam que quem era contra as religiões organizadas estava querendo expulsar Deus do país. Que era perseguição religiosa. Que não havia nada de errado em uma tal cura gay (como curar o que não é doença?) ou em um pastor servir ao dinheiro e não a Deus. Eles diziam que discurso de ódio era liberdade de expressão.

Eles diziam que eles deveriam estar protestando contra a corrupção, o que é tão específico quanto protestar pela paz ou protestar pelo meio-ambiente. Só protestar por uma causa genérica e não atacar suas reais causas: financiamento privado de campanha, especulação, burocracia etc... que, em última instância, estão intimamente ligadas ao sistema econômico, é fácil.

Para muitos deles, a corrupção, e todos os outros problemas do país, nasceram com o PT. O país era uma maravilha há 10 anos atrás e hoje é um inferno. Ignoravam toda a dinâmica do capitalismo e o simples fato de que, para existir corrupção, precisa haver corruptor. Corruptor esse que sempre sai ignorado.

E principalmente: ignoram as pequenas corrupções. Faz parte do entitlement [1] deles: eles podem cometer, afinal o governo rouba e não dá nada, ninguém vai ver, é por uma boa causa etc... afinal eles tem motivos nobres.

Eles não lembram da corrupção na hora de comprar coisa pirata, de colar na prova, de usar o telefone/carro da empresa para fins pessoais, de ganhar troco a mais, de mentir. Quando era dos outros era corrupção, quando eram eles fazendo, sempre achavam um pretexto ou uma desculpa esfarrapada.  

Até antes, muitos deles achavam a violência policial algo normal e aceitável, desde que fosse contra quem eles não gostam. Desde que fosse contra "vagabundo". Desde que fosse contra ladrão de galinha, mas o ladrão rico ficava na paz assistindo tudo. Agora eles entenderam o que a periferia e as minorias estão tristemente cansadas de ver: abusos de poder constantes, provocações e violência gratuita.

O discurso de alguns deles mudou da noite para o dia. E não sei se isso é bom ou ruim. Parece ruim: mudou só por modismo, só por que agora é a minha causa, só por que agora é minha vez de brilhar, só por que agora eu posso sair gritando sem pensar. Muitos deles odiavam o Bananão até uns dias atrás, hoje dizem que um filho dele não fugirá à luta.

Já tinha gente acordada muito antes, mas eles sempre mandaram essas pessoas calarem a boca por que o discurso deles não era o que eles queriam ouvir, não condizia com a ideologia deles.

Já tinha gente acordada. Gente que acordou bem antes do sol nascer. Mas eles mandavam elas voltarem a dormir e não encherem o saco. Agora, que é do interesse da extrema direita um golpe militar (sim, eu vi gente desejando isso)e, inclusive, tem gente flertando com o nazismo - que sinceramente é o sonho de muitos deles, pois vai dar desculpa para eles eliminarem quem não presta. Não sei se realmente acordamos ou simplesmente estamos sonâmbulos e balbuciando durante o sono.

[1] Entitlement (não sei se tem tradução em português): quando a pessoa acha que tem um direito que ela na verdade não tem, e reclama quando dizem não para ela.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

O que vem depois?

Imagina na Copa virou lugar comum. Para denotar desde descaso até ironia. Vem com uma risadinha nervosa. E acho que todos já imaginam que vai vir o de sempre: obras feitas às pressas pela empreiteira do filho daquele político importante, com material de má qualidade.

A pergunta que deveria ser feita, mas que nunca vi nem mesmo ser suscitada: o que vem depois?. E, fazendo um pequeno exercício de imaginação, já conseguimos ver a resposta. E ela não tem nada de bonito.

Vem o custo - tanto financeiro quanto social - das grandes obras. Elefantes brancos, feitos de qualquer jeito, espalhados pelas cidades, que se tornaram inúteis depois de uma meia-dúzia de joguinhos. Ninguém ganhou nada, exceto as grandes empresas. Elas mesmas, as que financiam campanhas (inclusive as de um certo partido que se diz contra, mas na hora do vamos-ver...).

Em nome de um tal desenvolvimento (só se for do bolso de alguns), em nome desses eventos, em nomes de grandes elefantes brancos, justifica-se tudo. Justifica-se violência. Justifica-se e tapa-se os olhos para o discurso de ódio. Justifica-se tirar dinheiro de setores fundamentais e já negligenciados. A tal da 'governabilidade' (que eu realmente entendo como dançar conforme a música, nunca haverão mudanças etc...) ataca em cheio.

E o pior: constatar isso é ser pessimista. É complexo de vira-lata. É torcer para que tudo dê errado para tentar derrubar o governo. É ser reaça. Eu sou do PIG (PIG esse que ironicamente recebe uma boladona de dinheiro público). Não seria uma má ideia que tudo desse errado, o país ficasse com a imagem manchada lá fora, e uma reeleição quase garantida fosse evitada... mas não que os outros candidatos sejam muito melhores.

Saindo da política, vem a decadência. A infraestrutura vai provavelmente deixar de ser mantida com rigor e continuidade, afinal não dá mais dinheiro, não tem mais ninguém para ver. A segurança que protegia apenas os turistas endinheirados vai sumir. Se o país perder na Copa, perdemos, mas se o país ganhar, perdemos mais ainda: já temos várias reeleições garantidas. Teremos uma certa presidenta se reelegendo enquanto o povo ainda está eufórico por nada.

Ficaremos com as as leis anti-terrorismo: por terrorista leia-se: ousou exercer a liberdade de expressão garantida pela Constituição, estava em um protesto pacífico e foi recebido com agressão policial. O terrorismo oficializado de cada dia, na forma da negação de direitos humanos básicos e da negação de cidadania, não conta.

Qualquer manifestação será tratada como vandalismo; enquanto isso, o vandalismo de cada dia - em cada tribo indígena que é atacada em nome de grandes obras, em cada escola abandonada, em cada centavo do dinheiro público que vai para o lixo, em cada morador de rua que aparece morto, em cada desalojamento - é normal, é o preço do progresso que ninguém pediu.

As leis que proíbem qualquer tipo de manifestação em dia de jogo acabarão se tornando permanentes devido à sua conveniência (significa que o povo não pode encher nosso saco). Precisa parecer que está tudo bem, que o custo de vida não disparou por causa desses grandes eventos, não podem saber que todas todas as profissões aqui estão desvalorizadas e que a sexta maior economia é uma simples fachada.

Esperemos, de forma bem otimista, quase inocente, quase infantil, que isso não ocorra e que esses eventos sejam só mais uns eventos quaisquer. Na verdade, não: espero que Copa, Olimpíadas etc... sirvam para o país passar vergonha internacional. Que sejam marcados por protestos que desafiem as leis anti-liberdade de expressão. Que os outros países vejam que sim, somos só uma fachada gigante.