sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Beleza, software e distribuições Linux

Voltei para o Arch Linux como meu sistema operacional principal, devido a um pequeno motivo que sempre acaba me expulsando de outras distros: simplicidade. Cansei de arquivos de configuração feitos para serem editados por máquina (e não por humanos), de GUIs de uso obrigatório para ajustes no sistema, e de outras complicações desnecessárias. E isto permite uma reflexão sobre a questão da beleza.

Na matemática, uma solução 'bela' para um problema é simples e elegante. Usa o mínimo de axiomas, premissas e hipóteses possíveis, e pode ser facilmente generalizada para a resolução de diversos outros problemas do mesmo ramo. Evitam-se métodos muito complicados, number crunching etc... os quais são vistos como 'feios' e 'desengonçados'.

Podemos fazer uma analogia para um software bonito - não no aspecto da usabilidade, mas nos aspectos construtivos dele:
  • usar o mínimo necessário de bibliotecas;
  • ser o mais portátil possível (exceto em situações onde se usam recursos específicos de um sistema operacional);
  • ter documentação de qualidade onde ele não for auto-explanatório;
  • fugir dos anti-padrões de projeto;
  • ser facilmente adaptável para as mais diversas situações.

Como consequência, temos uma ferramenta ou um sistema mais fáceis de manter e de administrar. Torna-se simples modificá-lo para a resolução de diversos problemas, ou aplicá-lo em situações distintas. Eles se tornam mais convidativos para o trabalho em equipe e para o reuso de código.

Nesses aspectos, sinto que muitas das distribuições Linux sofrem de uma falta de elegância: scripts de inicialização pouco amigáveis para quem os edita manualmente, XML atirado para lá e para cá - obviamente prevendo que os arquivos serão editados por outros programas, pacotes fragmentados etc...

O mesmo com outros softwares, são pequenas coisas que conseguem estragar o dia de um sysadmin ou de um usuário mais avançado, como:

  • Configurações armazenadas em formato binário (ou XML) e que só podem ser feitas pela interface gráfica.
  • Reinvenções contínuas (algumas quadradas) de rodas diversas.
  • Excesso de dependências nem tão necessárias (e que no mínimo deveriam ser opcionais).
  • Ocultar mensagens de erro para o bem do usuário.
  • Entre outras diversas coisas que tornam a aplicação feia.  
Outro aspecto que a simplicidade traz é a flexibilidade: várias pequenas ferramentas podem - ou deveriam poder - ser interligadas para formar um todo, em vez de precisarmos de uma ferramenta monolítica para cada tarefa. Partes que se encaixam para formar um sistema, que podem ser reaproveitadas conforme necessário, e não um sistema 'faz tudo' altamente especializado em uma tarefa.

Da mesma forma, desenvolve-se uma vez e depois simplesmente se usa o trabalho já feito; o tempo gasto em debugging é menor. Facilita-se a portabilidade, e outras pessoas também podem aproveitar aquilo que já foi feito.

É importante notar que simplicidade não necessariamente se traduz em menor número de linhas de código, ou vice-versa: considero ser preferível escrever código um pouco maior, mas mais simples de entender, a usar hacks para economizar algumas poucas linhas de código. Soluções engenhosas são bem-vindas, desde que elas não sacrifiquem as premissas já feitas anteriormente.

Elegância e simplicidade para resolução de problemas não são más ideias: economizam recursos e evitam dor de cabeça para quem precisa ou quer interagir em um nível mais baixo. Podem custar mais na hora de desenvolver a solução, mas a longo prazo, simplificam o trabalho do desenvolvedor, do sysadmin ou de qualquer outro profissional.

E já que eu falei no Arch Linux, é justamente isso tudo que o Jeito Arch (The Arch Way) incorpora. Complexidade sem complicação, código simples e correto, ferramentas compactas e projetadas para interoperar. Arquivos de configuração feitos para serem lidos e entendidos por seres humanos. Tudo aquilo que pode ser considerado fundamental para um software bonito.


Recomendo, por fim, a leitura do excelente Most Software Stinks!, que define princípios gerais para um software bonito.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Mimimi pseudo-ativista

Recentemente, vimos o caso de uma pessoa que matou um cachorro de forma violenta, assim atraindo a ira de milhares de pessoas que clamam, com os olhos cheios de sangue, por vingança. (Quem é o animal irracional violento agora, por sinal?). É a galera metida a boazinha, a pseudo-ativista.

São os mesmos que compartilham fotos de animais mutilados, esperando uma tal "consciência" acontecer, mas logo depois colocam fotos daquele churrasco de domingo, esquecendo-se do sofrimento que ocorre na indústria da pecuária - tanto para animais quanto para os que nela trabalham, como no caso da Brasil Foods, uma das maiores produtoras de proteína animal do mundo (que orgulho para o agronegócio brasileiro!).

São os mesmos que protestam por paz, que rezam todas as noites para o fim da violência, que participam de marcha contra isso e aquilo, mas não hesitam em apontar o dedo para os outros e usar o nome de Deus ou de Jesus como racionalização de seus preconceitos. Ou mesmo desejar vingança, se igualando àqueles que eles desejam combater - cadê o Deus é amor?

Participam de marchas contra a corrupção dos outros, mas não perdem a oportunidade de passarem a perna em alguém, de mentirem para o chefe, de comprarem coisa pirata/contrabandeada e acharem que estão fazendo um grande negócio. A corrupção dos outros é um problema, a minha "não dá nada".

Reclamam de machismo, de homofobia, de falta de tolerância, de racismo, mas não perdem a oportunidade de destilarem comentários cancerígenos sobre aquele viadinho que tá andando com o filho deles, ou aquele pretinho que atendeu ele outro dia. Se é para se misturar com a gentalha, então? Impossível: eles querem produtos diferenciados para a gente diferenciada. 

Plantam arvorezinhas, assinam protestos contra Belo Monte, "abraçam" uma "sustentabilidade", mas tudo é descartável, tudo é enlatado ou comprado congelado, todas as refeições têm que ter carne, e são vítimas certeiras da obsolescência programada. Desperdiçam energia, jogam lixo em lugares inadequados, produzem lixo em excesso, e depois reclamam do meio-ambiente. 

Cospem um discurso pronto, que já vem de brinde com o kit-reacionário: Bolsa-Família é sustentar vagabundo com o dinheiro da sofrida classe média. País dos impostos. Bandido bom é bandido morto. Ditadura gay (estranho que nunca vi alguém dizer que as leis anti-racismo são ditadura negra ou que a lei Maria da Penha é ditadura feminina). Moral e bons costumes. Estudante que protesta é vagabundo.

(Já que eu falei em estudante que protesta é vagabundo, lembram da ocupação da reitoria da UFSM? Pois bem, muitos dos que a criticavam duramente, hoje se beneficiam daquilo que foi obtido com ela. Irônico, né?).

O pseudo-ativismo torna-se uma excelente forma de parecer engajado, consciente, e outras platitudes do mesmo naipe. E tenta arrastar ao máximo outras pessoas para seu círculo: quem não entra é irresponsável, é inconsciente, é ignorante, é tudo o mais. Tudo a ver com as palavras de amor que ele deseja, com a paz que ele tanto quer... ou não.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Review rápido e instalação de Linux: Dell XPS 15

Recebi quinta-feira passada (15/12) o meu notebook Dell XPS 15, comprado em uma promoção da Dell para substituir o meu velho guerreiro Acer 7720. As impressões até agora:

  • MUITO RÁPIDO. Acho que isso é desnecessário dizer, pela máquina ser um i7 e ter 6 GB de RAM (ia comprar com 8 GB, mas a Dell queria R$ 400 a mais. Aham, senta lá - compare o preço de um pente de 4 GB e multiplique por 2).

    Até o momento não consegui fazer a máquina ficar lenta, mesmo subindo 3 ou 4 máquinas virtuais ao mesmo tempo.
  •  O som é um dos melhores que já ouvi em um notebook, mas não usarei muito, a menos que eu queira compartilhar minha música com vizinhos.
  • Ao contrário de outras marcas (ei, Acer, estou olhando para você), os aplicativos que vêm inclusos são bastante úteis.
      Não chegam a ser crapware, embora o login pela webcam não seja muito viável por demorar mais do que se leva para digitar uma senha.

Agora, vamos a alguns problemas:

  •  Não tem teclado numérico dedicado.
  • A tecla Delete é mal-posicionada, fica muito fácil encostar no botão da Waves sem querer.
  • Esquenta que é uma beleza, e fica notavelmente desconfortável depois de um tempo. Recomendo a compra de uma base refrigerada.
Após confirmar que tudo funcionava, instalei o openSUSE 12.1 em dual-boot com o Windows que veio nesta máquina. Praticamente tudo funcionou, então é mais fácil comentar e citar o que não funciona:


  • nVidia Optimus, motivada pela má-vontade desta primeira em lançar drivers (ao menos um driver mínimo para desligar a placa).

    A placa de vídeo fica ligada à toa, sem fazer nada exceto gastar recursos (não parece familiar?). Se instalar o driver da nVidia, perde-se o driver da Intel, a nVidia ficará sempre habilitada. Como não jogo no Linux, a solução que encontrei foi usar o módulo acpi_call, que permite enviar comandos direto para o hardware, por consequência permitindo desativar a placa.

  O procedimento adotado foi:

  1.    Compilar o módulo e carregá-lo.
  2.    Usar o script test_off.sh, incluso no source do módulo, para identificar qual a flag que desativa a placa de vídeo (pode mudar de configuração para configuração), é a que o script disser works

         No meu caso, a flag é \_SB.PCI0.PEG0.PEGP._OFF. 
  3.   Após descobrir a flag, colocar este procedimento nos scripts de inicialização. Fiz um pequeno script, quando eu limpá-lo coloco em algum repositório e compartilho.
EDIT 22/12/2011: Eu estava tendo o problema de não conseguir reiniciar a máquina (a tela ficava preta e só desligava no dedão), que foi resolvido com o procedimento oposto (mandar a placa ligar na hora do reboot).

Voltei para o sysinit (sei que não é o ideal, mas não aprendi a mexer no systemd ainda e precisava disso para ontem) e coloquei no arquivo /etc/init.d/halt.local a linha:

echo '\_SB.PCI0.PEG0.PEGP._ON' > /proc/acpi/call

Pronto, reiniciando sem nenhum problema.
  •  Tive alguns problemas com o Bluetooth, mas provavelmente foi erro naquela peça entre o teclado e a cadeira.
  • Não testei no Linux: HDMI, DisplayPort, USB 3.0 e Blu-Ray (não tenho dispositivos capazes de usar essas tecnologias, parei no DVD, na porta S-Video e na USB 2.0). E não entendo qual o preconceito com a saída de vídeo VGA, ainda muito usada por projetores e afins.  
  • Suspend funciona, hibernação não (testado no kernel 3.1.7)
  • Consegui entre 2h30 e 3h de bateria no Linux (sem tweaks), comparado com 3h30 a 4h no Windows.

  • Multitouch não funcionou completamente, só para scroll. Talvez seja alguma configuração errada.

  • A inicialização se dá em menos de 30 segundos (do GRUB ao KDE) e o desempenho é excelente também. MUITO melhor que aquele obtido no Windows, o qual demora quase 2 minutos para completar o boot.
  • O nouveau (driver aberto para as nVidias) não suporta a placa presente nesta máquina, e inclusive pode causar interferência no vídeo Intel, na forma de pequenos glitches. Desinstalar os pacotes referentes a ele, resolve o problema.
  • Leitor de cartões não funciona completamente (às vezes aceita o cartão, às vezes não). Uma solução é rodar o comando  sudo sh -c "echo 1 > /sys/bus/pci/rescan" quando for inserido um cartão.
  •  

Adendo:

Substituí o openSUSE 12.1 pelo Arch Linux devido a problemas de compatibilidade de hardware e a alguns bugs que tive com o KDE no openSUSE, e tudo o dito anteriormente se aplica.


Conclusão:

Embora o Linux rode muito bem nesta máquina, inclusive melhor que o Windows (aliás, o quê que não roda melhor que o Windows?), não recomendo a instalação para usuários completamente iniciantes; porém usuários com um pouco mais de experiência - isto é, conhecimento para mexer na linha de comando, configurações etc... - não terão dificuldade alguma, porém.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um Belo Monte de hipocrisia ambiental

Recentemente, vimos um movimento de atores globais protestando contra a construção da usina de Belo Monte, e disto surgiram uma sequência de respostas e contra-respostas.

Sem entrar no mérito da questão Belo Monte, posto que não tenho uma opinião completamente estável sobre o assunto (não sou muito favorável à construção dela, antes que perguntem, mas não é pela questão ambiental ou indígena) eu gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo a mídia abraçou esta causa com tanta força, com tanta vigorosidade, ao mesmo tempo em que menospreza ou nada fala sobre outros problemas ambientais?

Somos o país que mais usa agrotóxicos, e ainda somos os únicos que toleramos a pulverização destes: forma altamente poluidora de aplicação. Porém, sabe-se que eles são fundamentais para o latifúndio, para o agronegócio - o mesmo em teoria capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, mas que na prática não alimenta 5, devido à especulação e ao fato de muita dessa produção ser usada para alimentação animal - por si só um problema ambiental - e para exportação. E isto foi quantas vezes questionado na mídia? Pouquíssimas. Mas, quando o Brasil demonstra ser o celeiro e o abatedouro do mundo, a mídia toda está lá.

Só se tomam medidas quando já é muito tarde: quando surgem problemas diversos de saúde causados pelo uso incorreto destes produtos químicos, a mídia está prontinha para cair em cima e cobrar satisfações - e o governo pouco ou nada faz para punir aqueles que causaram o desastre, notadamente os órgãos que somente fornecem crédito agrícola mediante o uso de pesticidas, assim favorecendo um grupinho de marcas enquanto todos aturam o prejuízo: impacto ambiental, problemas de saúde, perda da nossa soberania alimentar etc...

Por que a grande mídia nunca fala sobre o impacto ambiental da pecuária e sobre alternativas alimentares (exceto quando o assunto são dietas milagrosas e picaretagem, digo, terapias alternativas) como alternativa ao desmatamento e à poluição causados pela produção animal?

E onde está ela na hora de defender o transporte coletivo em substituição ao transporte individual, de exigir e fiscalizar que de fato ocorram as melhorias radicais e urgentes para resolver as situações lamentáveis que vemos em diversas cidades? Por que vemos reportagens sobre meio-ambiente (ou pior, reportagens sobre congestionamentos épicos), e 2 minutos após vemos a propaganda de um novo modelo de carro, desfilando por ruas largas, absolutamente limpas, perfeitamente pavimentadas e vazias que não existem em nenhum lugar do mundo?

Por que essa grande mídia não critica o consumismo, a urbanização desenfreada, o lucro a qualquer custo, os quais também são causadores de enormes impactos ambientais e sociais? Simples: qualquer coisa que contradiga as propagandas de felicidade em 48 vezes no cartão vai contra o interesse dela. E obviamente, questionar um crescimento baseado no consumo (e auto-limitante por sua própria natureza) vai contra os interesses de quem paga milhares de reais por uma propaganda de 30 segundos no horário nobre.

Em suma, várias coisas que também causam impacto ambiental tão grande quanto, ou maior que o de milhares de usinas, passam batidas. No máximo viram uma coluna na Veja ou uma matéria do Globo Repórter - na mesma edição em que uma empresa de agronegócio ou um grande grupo industrial colocará uma propaganda olhe, estamos fazendo nossa obrigação em não poluir, logo após a propaganda de mais um carro de luxo.

Em toda essa campanha, ficou um gosto enorme de greenwashing: pintar de verde, para aumentar a audiência e fazer com que pessoas finalmente possam se sentir engajadas, que elas se identifiquem com um modelo pago para ler um script. O qual se acumula num belo monte de hipocrisias, junto com as grandes obras pintadas de verde e com as promessas de reflorestamento. Uma "sustentabilidade" enlatada, fácil de ser distribuída por ai. Uma coleção de platitudes.

Em tempo: não sou muito favorável à construção de Belo Monte pela questão da nossa defasagem quanto à eficiência energética. Iluminação pública acesa quando não é necessário, equipamentos antigos, prédios onde o uso de ar-condicionado é mandatório, gatos etc... tudo isso anulará os efeitos de qualquer nova fonte de energia, por mais limpa que ela seja. Fundamentalmente, estamos pegando o financiamento para pagar o empréstimo que pegamos para cobrir o desperdício.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Parados no trânsito

O desprezo do governo federal, de governos estaduais e prefeituras pelo transporte público deve-se a uma coisa muito simples: nós somos um dos maiores mercados mundiais para carros, e também temos uma certa empresinha chamada Petrobras, que vende gasolina, diesel e álcool para mantê-los abastecidos - altamente lucrativa.

Porém, o transporte individual no Brasil se aproxima da saturação, de um ponto em que teremos que pernoitar no congestionamento, que teremos que pegar o carro às 5 da manhã para chegarmos às 8 no trabalho. Até mesmo as cidades pequenas já sofrem com isso, quem imaginaria uma cidade de 200 mil habitantes (tipo Santa Maria) com congestionamento? Pois é isso que se vê na saída da UFSM à tarde, e em algumas ruas e avenidas nos horários de pico.

Em boa parte isso é motivado pela nossa cultura: o ônibus é de pobre, requer que eu me misture com a gentalha. E sejamos sinceros, a bicicleta ainda é inviável em várias cidades, posto que não há infraestrutura adequada para elas - a menos que se queira correr o risco de um acidente causado por um motorista irresponsável.

Porém, outro lado é o do sucateamento de nossos transportes públicos. Empresas deitam e rolam com serviços de má qualidade, com ônibus superlotados que não atendem boa parte da cidade, tem pouca variedade de horários, ou os dois. Um exemplo: inexistem ônibus para meu bairro depois da meia-noite, se eu quiser sair e voltar de madrugada, obrigatoriamente preciso de um carro ou de um táxi. Já descrevi esse problema em outro post.

Forma-se um círculo vicioso: ninguém quer usar o transporte público pois ele é ineficiente e está mal equipado, mas não compensa investir nele pois muitas pessoas preferem (ou se veem obrigadas a usar) o transporte individual; ele não é lucrativo.

Soma-se a isso a distância entre as residências e os locais de trabalho ou estudo. Acredito eu que todos já tenham visto, ao menos em filmes, os suburbs americanos [1]: bairros ou condomínios fechados longe do centro das cidades, projetados para que toda a mobilidade seja feita de carro. Com o aumento dos custos dos combustíveis lá fora, esse modelo cada vez mais demonstra-se falho, além do impacto na produtividade causado pelo funcionário que já chega estressado por ter passado horas no trânsito. E no Brasil já não está muito diferente, vários condomínios são fundados longe dos locais de trabalho, sendo vitimados pela falta de transporte público.

Até agora as soluções propostas foram inefetivas ou assim se tornarão a curto e médio prazo, e algumas delas contribuem para piorar o problema ao mesmo tempo em que enriquecem o bolso de alguns poucos, ou que são facilmente burladas por esses mesmos.

Rodízio? Facilmente burlado por quem tem dinheiro para comprar outro carro, ou mesmo para quem pode comprar um segundo carro mais antigo (ou seja, menos eficiente) - o tiro saiu pela culatra, nesta última situação.

Grandes obras de infraestrutura? Funcionam a curto prazo, e servem como uma excelente forma de fascinar um povo que ama projetos faraônicos; mas a longo prazo, com o aumento do volume de veículos e do seu uso (novamente, motivado porque é fácil de chegar etc...), tendem a perder a efetividade, além de causarem grandes impactos ambientais - basta lembrar das enchentes que acontecem em regiões onde a absorção de água foi impedida pelo asfalto. Tais obras requerem, também, manutenção que raramente acontece de forma adequada.

A melhor solução que vejo, a curto e médio prazo, é repensar a necessidade de sair de casa. Eu realmente preciso ir até a faculdade para assistir 3 horas de aula de slides, baseada em leitura e debate de textos, há alguma objeção a fazê-las de forma eletrônica? Preciso realmente ir ao banco ou ao cartório entregar papeladas, por quê isso não pode ser feito pela internet? Se um funcionário pode trabalhar de casa, mesmo que seja um dia da semana, por quê não? (Embora saibamos que trabalhar de casa não é tão simples quanto parece - assunto para outro post, porém)

Outra ideia importante é o transporte público como direito universal, algo tão acessível que torne o transporte pessoal desnecessário no dia-a-dia. Infelizmente - sejamos dolorosamente realistas - isso não acontecerá tão cedo, dados os sistemas de interesses envolvidos no processo: que governo iria atentar contra algo que lhe dá grandes lucros financeiros? Nenhum em sã consciência.

O excesso de carros nas ruas não é lucrativo (no aspecto financeiro e no aspecto social) a ninguém, exceto às montadoras e às petrolíferas - aquelas que movem o Brasil, mesmo que seus funcionários fiquem horas parados para chegar ao trabalho, e já cheguem estressados e cansados. Só os executivos, diretores etc... que chegarão de helicóptero para aquela reunião importantíssima.

Enquanto isso, continuemos comprando carros maiores e mais confortáveis para podermos passar mais tempo no trânsito - longe das ruas vazias, onde se pode andar em alta velocidade, que as propagandas mostram. E nos orgulhemos dos maiores congestionamentos do mundo!

[1] Não traduzi como subúrbio pois essa palavra tem uma conotação um pouco diferente em português.

(Foto: Engarrafamento na Marginal Pinheiros, São Paulo. Congestionamento - Wikipédia)

domingo, 13 de novembro de 2011

Platitudes diversas

Uma palavra bem interessante que descobri esses dias: platitude. Segundo o  Wikicionário, significa um comentário aparentemente inteligente, porém banal, raso. E perfeitamente adequado para descrever o uso de algumas outras palavras e expressões que vemos por aí.

A primeira, e a mais empregada, delas, é a tal da consciência. A moda é ser consciente. É conscientizar. Colocar essa palavra em qualquer sentença é bem eficaz para passar a ideia de engajamento. Mesmo que essa consciência seja apenas no momento em que se compartilha uma foto no Facebook. Consciência se veste como quem veste uma camiseta de marca - e é tão profunda quanto uma. Mas afirmar que está consciente de um problema qualquer é bonito, tem uma beleza oculta que palavras como conhecer, entender etc... não têm.

Outra grande platitude é aquela que permeia as marchas contra a corrupção, pelo meio-ambiente etc...: alguém em sã consciência é a favor da corrupção (excetuando aqueles que por ela são beneficiados)? Alguém que tenha o mínimo de inteligência (excetuando-se aqueles que deliberadamente a desligam para lucrar mais) é a favor da destruição ambiental? Atiram em todas as causas ao mesmo tempo, e não acertam em nenhuma. Mas tudo bem, é bom para a sofrida e escorchada Classe Média.

Também temos aquele discurso comercial recheado dessas, empregando-as como se fossem grandes inovações: Otimizar. Disponibilizar. Dinamizar. Sustentabilidade. Inovação. Empresas pagando grandes somas para assessorias de imprensa escreverem que Objetivando dinamizar o mercado, a Padaria do Zé oferece um novo conceito em pão.... Como se impactar (de forma positiva ou negativa) o mercado não fosse o objetivo de qualquer empresa, e como se disponibilizar produtos e serviços inovadores, de forma eficiente e sustentável, não fosse o que todas as empresas fazem (ou ao menos fingem).

Quase qualquer discurso político tem um delicioso recheio de platitudes. Melhorar a cidade/estado/país através da educação/saúde/indústria etc... são falados de forma pomposa. A criminalidade é um problema; também o são a corrupção, o meio-ambiente e as desigualdades sociais. Deixam em aberto como isso será (se é que será) feito - resolvê-los é atribuição básica de um político, e não uma meta em si. Mas isso cai bem nos discursos deles: se no mandato de um prefeito, 3 pessoas em uma cidade de 100 mil deixarem de ser pobres, tecnicamente, isto é uma melhoria.

E a auto-ajuda? Basicamente um conjunto de platitudes embebidas em um discurso obscurantista, sendo vendidas como conhecimento profundo e secreto. Palestras de motivação: não se deixar abalar pelos erros, procurar conhecimento etc... Regras foram feitas para serem quebradas, e Deus ajuda quem cedo madruga. Fica bonito vindo da boca de um palestrante, não acham?

Platitudes são uma ótima ferramenta para parecermos intelectuais, cultos, profundos, engajados, para nos escondermos sob um discurso, ou mesmo se quisermos ser demagógicos e manipuladores. E enquanto isso, continuemos objetivando disponibilizar melhorias sociais sustentáveis de forma consciente, para vencermos os desafios, pois afinal a fila anda.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sustentabilidade como ideologia? Pensamentos

"Como eu sei que a sua empresa é amigável ao meio-ambiente?"
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."

Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.

Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.

E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.


É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.

Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.

Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.

E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria? 

No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.


Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.

Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.

Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.

A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.


Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.