sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Beleza, software e distribuições Linux

Voltei para o Arch Linux como meu sistema operacional principal, devido a um pequeno motivo que sempre acaba me expulsando de outras distros: simplicidade. Cansei de arquivos de configuração feitos para serem editados por máquina (e não por humanos), de GUIs de uso obrigatório para ajustes no sistema, e de outras complicações desnecessárias. E isto permite uma reflexão sobre a questão da beleza.

Na matemática, uma solução 'bela' para um problema é simples e elegante. Usa o mínimo de axiomas, premissas e hipóteses possíveis, e pode ser facilmente generalizada para a resolução de diversos outros problemas do mesmo ramo. Evitam-se métodos muito complicados, number crunching etc... os quais são vistos como 'feios' e 'desengonçados'.

Podemos fazer uma analogia para um software bonito - não no aspecto da usabilidade, mas nos aspectos construtivos dele:
  • usar o mínimo necessário de bibliotecas;
  • ser o mais portátil possível (exceto em situações onde se usam recursos específicos de um sistema operacional);
  • ter documentação de qualidade onde ele não for auto-explanatório;
  • fugir dos anti-padrões de projeto;
  • ser facilmente adaptável para as mais diversas situações.

Como consequência, temos uma ferramenta ou um sistema mais fáceis de manter e de administrar. Torna-se simples modificá-lo para a resolução de diversos problemas, ou aplicá-lo em situações distintas. Eles se tornam mais convidativos para o trabalho em equipe e para o reuso de código.

Nesses aspectos, sinto que muitas das distribuições Linux sofrem de uma falta de elegância: scripts de inicialização pouco amigáveis para quem os edita manualmente, XML atirado para lá e para cá - obviamente prevendo que os arquivos serão editados por outros programas, pacotes fragmentados etc...

O mesmo com outros softwares, são pequenas coisas que conseguem estragar o dia de um sysadmin ou de um usuário mais avançado, como:

  • Configurações armazenadas em formato binário (ou XML) e que só podem ser feitas pela interface gráfica.
  • Reinvenções contínuas (algumas quadradas) de rodas diversas.
  • Excesso de dependências nem tão necessárias (e que no mínimo deveriam ser opcionais).
  • Ocultar mensagens de erro para o bem do usuário.
  • Entre outras diversas coisas que tornam a aplicação feia.  
Outro aspecto que a simplicidade traz é a flexibilidade: várias pequenas ferramentas podem - ou deveriam poder - ser interligadas para formar um todo, em vez de precisarmos de uma ferramenta monolítica para cada tarefa. Partes que se encaixam para formar um sistema, que podem ser reaproveitadas conforme necessário, e não um sistema 'faz tudo' altamente especializado em uma tarefa.

Da mesma forma, desenvolve-se uma vez e depois simplesmente se usa o trabalho já feito; o tempo gasto em debugging é menor. Facilita-se a portabilidade, e outras pessoas também podem aproveitar aquilo que já foi feito.

É importante notar que simplicidade não necessariamente se traduz em menor número de linhas de código, ou vice-versa: considero ser preferível escrever código um pouco maior, mas mais simples de entender, a usar hacks para economizar algumas poucas linhas de código. Soluções engenhosas são bem-vindas, desde que elas não sacrifiquem as premissas já feitas anteriormente.

Elegância e simplicidade para resolução de problemas não são más ideias: economizam recursos e evitam dor de cabeça para quem precisa ou quer interagir em um nível mais baixo. Podem custar mais na hora de desenvolver a solução, mas a longo prazo, simplificam o trabalho do desenvolvedor, do sysadmin ou de qualquer outro profissional.

E já que eu falei no Arch Linux, é justamente isso tudo que o Jeito Arch (The Arch Way) incorpora. Complexidade sem complicação, código simples e correto, ferramentas compactas e projetadas para interoperar. Arquivos de configuração feitos para serem lidos e entendidos por seres humanos. Tudo aquilo que pode ser considerado fundamental para um software bonito.


Recomendo, por fim, a leitura do excelente Most Software Stinks!, que define princípios gerais para um software bonito.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Mimimi pseudo-ativista

Recentemente, vimos o caso de uma pessoa que matou um cachorro de forma violenta, assim atraindo a ira de milhares de pessoas que clamam, com os olhos cheios de sangue, por vingança. (Quem é o animal irracional violento agora, por sinal?). É a galera metida a boazinha, a pseudo-ativista.

São os mesmos que compartilham fotos de animais mutilados, esperando uma tal "consciência" acontecer, mas logo depois colocam fotos daquele churrasco de domingo, esquecendo-se do sofrimento que ocorre na indústria da pecuária - tanto para animais quanto para os que nela trabalham, como no caso da Brasil Foods, uma das maiores produtoras de proteína animal do mundo (que orgulho para o agronegócio brasileiro!).

São os mesmos que protestam por paz, que rezam todas as noites para o fim da violência, que participam de marcha contra isso e aquilo, mas não hesitam em apontar o dedo para os outros e usar o nome de Deus ou de Jesus como racionalização de seus preconceitos. Ou mesmo desejar vingança, se igualando àqueles que eles desejam combater - cadê o Deus é amor?

Participam de marchas contra a corrupção dos outros, mas não perdem a oportunidade de passarem a perna em alguém, de mentirem para o chefe, de comprarem coisa pirata/contrabandeada e acharem que estão fazendo um grande negócio. A corrupção dos outros é um problema, a minha "não dá nada".

Reclamam de machismo, de homofobia, de falta de tolerância, de racismo, mas não perdem a oportunidade de destilarem comentários cancerígenos sobre aquele viadinho que tá andando com o filho deles, ou aquele pretinho que atendeu ele outro dia. Se é para se misturar com a gentalha, então? Impossível: eles querem produtos diferenciados para a gente diferenciada

Plantam arvorezinhas, assinam protestos contra Belo Monte, "abraçam" uma "sustentabilidade", mas tudo é descartável, tudo é enlatado ou comprado congelado, todas as refeições têm que ter carne, e são vítimas certeiras da obsolescência programada. Desperdiçam energia, jogam lixo em lugares inadequados, produzem lixo em excesso, e depois reclamam do meio-ambiente. 

Cospem um discurso pronto, que já vem de brinde com o kit-reacionário: Bolsa-Família é sustentar vagabundo com o dinheiro da sofrida classe média. País dos impostos. Bandido bom é bandido morto. Ditadura gay (estranho que nunca vi alguém dizer que as leis anti-racismo são ditadura negra ou que a lei Maria da Penha é ditadura feminina). Moral e bons costumes. Estudante que protesta é vagabundo.

(Já que eu falei em estudante que protesta é vagabundo, lembram da ocupação da reitoria da UFSM? Pois bem, muitos dos que a criticavam duramente, hoje se beneficiam daquilo que foi obtido com ela. Irônico, né?).

O pseudo-ativismo torna-se uma excelente forma de parecer engajado, consciente, e outras platitudes do mesmo naipe. E tenta arrastar ao máximo outras pessoas para seu círculo: quem não entra é irresponsável, é inconsciente, é ignorante, é tudo o mais. Tudo a ver com as palavras de amor que ele deseja, com a paz que ele tanto quer... ou não.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Review rápido e instalação de Linux: Dell XPS 15

Recebi quinta-feira passada (15/12) o meu notebook Dell XPS 15, comprado em uma promoção da Dell para substituir o meu velho guerreiro Acer 7720. As impressões até agora:

  • MUITO RÁPIDO. Acho que isso é desnecessário dizer, pela máquina ser um i7 e ter 6 GB de RAM (ia comprar com 8 GB, mas a Dell queria R$ 400 a mais. Aham, senta lá - compare o preço de um pente de 4 GB e multiplique por 2).

    Até o momento não consegui fazer a máquina ficar lenta, mesmo subindo 3 ou 4 máquinas virtuais ao mesmo tempo.
  •  O som é um dos melhores que já ouvi em um notebook, mas não usarei muito, a menos que eu queira compartilhar minha música com vizinhos.
  • Ao contrário de outras marcas (ei, Acer, estou olhando para você), os aplicativos que vêm inclusos são bastante úteis.
      Não chegam a ser crapware, embora o login pela webcam não seja muito viável por demorar mais do que se leva para digitar uma senha.

Agora, vamos a alguns problemas:

  •  Não tem teclado numérico dedicado.
  • A tecla Delete é mal-posicionada, fica muito fácil encostar no botão da Waves sem querer.
  • Esquenta que é uma beleza, e fica notavelmente desconfortável depois de um tempo. Recomendo a compra de uma base refrigerada.
Após confirmar que tudo funcionava, instalei o openSUSE 12.1 em dual-boot com o Windows que veio nesta máquina. Praticamente tudo funcionou, então é mais fácil comentar e citar o que não funciona:


  • nVidia Optimus, motivada pela má-vontade desta primeira em lançar drivers (ao menos um driver mínimo para desligar a placa).

    A placa de vídeo fica ligada à toa, sem fazer nada exceto gastar recursos (não parece familiar?). Se instalar o driver da nVidia, perde-se o driver da Intel, a nVidia ficará sempre habilitada. Como não jogo no Linux, a solução que encontrei foi usar o módulo acpi_call, que permite enviar comandos direto para o hardware, por consequência permitindo desativar a placa.

  O procedimento adotado foi:

  1.    Compilar o módulo e carregá-lo.
  2.    Usar o script test_off.sh, incluso no source do módulo, para identificar qual a flag que desativa a placa de vídeo (pode mudar de configuração para configuração), é a que o script disser works

         No meu caso, a flag é \_SB.PCI0.PEG0.PEGP._OFF. 
  3.   Após descobrir a flag, colocar este procedimento nos scripts de inicialização. Fiz um pequeno script, quando eu limpá-lo coloco em algum repositório e compartilho.
EDIT 22/12/2011: Eu estava tendo o problema de não conseguir reiniciar a máquina (a tela ficava preta e só desligava no dedão), que foi resolvido com o procedimento oposto (mandar a placa ligar na hora do reboot).

Voltei para o sysinit (sei que não é o ideal, mas não aprendi a mexer no systemd ainda e precisava disso para ontem) e coloquei no arquivo /etc/init.d/halt.local a linha:

echo '\_SB.PCI0.PEG0.PEGP._ON' > /proc/acpi/call

Pronto, reiniciando sem nenhum problema.
  •  Tive alguns problemas com o Bluetooth, mas provavelmente foi erro naquela peça entre o teclado e a cadeira.
  • Não testei no Linux: HDMI, DisplayPort, USB 3.0 e Blu-Ray (não tenho dispositivos capazes de usar essas tecnologias, parei no DVD, na porta S-Video e na USB 2.0). E não entendo qual o preconceito com a saída de vídeo VGA, ainda muito usada por projetores e afins.  
  • Suspend funciona, hibernação não (testado no kernel 3.1.7)
  • Consegui entre 2h30 e 3h de bateria no Linux (sem tweaks), comparado com 3h30 a 4h no Windows.

  • Multitouch não funcionou completamente, só para scroll. Talvez seja alguma configuração errada.

  • A inicialização se dá em menos de 30 segundos (do GRUB ao KDE) e o desempenho é excelente também. MUITO melhor que aquele obtido no Windows, o qual demora quase 2 minutos para completar o boot.
  • O nouveau (driver aberto para as nVidias) não suporta a placa presente nesta máquina, e inclusive pode causar interferência no vídeo Intel, na forma de pequenos glitches. Desinstalar os pacotes referentes a ele, resolve o problema.
  • Leitor de cartões não funciona completamente (às vezes aceita o cartão, às vezes não). Uma solução é rodar o comando  sudo sh -c "echo 1 > /sys/bus/pci/rescan" quando for inserido um cartão.
  •  

Adendo:

Substituí o openSUSE 12.1 pelo Arch Linux devido a problemas de compatibilidade de hardware e a alguns bugs que tive com o KDE no openSUSE, e tudo o dito anteriormente se aplica.


Conclusão:

Embora o Linux rode muito bem nesta máquina, inclusive melhor que o Windows (aliás, o quê que não roda melhor que o Windows?), não recomendo a instalação para usuários completamente iniciantes; porém usuários com um pouco mais de experiência - isto é, conhecimento para mexer na linha de comando, configurações etc... - não terão dificuldade alguma, porém.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Um Belo Monte de hipocrisia ambiental

Recentemente, vimos um movimento de atores globais protestando contra a construção da usina de Belo Monte, e disto surgiram uma sequência de respostas e contra-respostas.

Sem entrar no mérito da questão Belo Monte, posto que não tenho uma opinião completamente estável sobre o assunto (não sou muito favorável à construção dela, antes que perguntem, mas não é pela questão ambiental ou indígena) eu gostaria de fazer uma pergunta: por que motivo a mídia abraçou esta causa com tanta força, com tanta vigorosidade, ao mesmo tempo em que menospreza ou nada fala sobre outros problemas ambientais?

Somos o país que mais usa agrotóxicos, e ainda somos os únicos que toleramos a pulverização destes: forma altamente poluidora de aplicação. Porém, sabe-se que eles são fundamentais para o latifúndio, para o agronegócio - o mesmo em teoria capaz de alimentar 12 bilhões de pessoas, mas que na prática não alimenta 5, devido à especulação e ao fato de muita dessa produção ser usada para alimentação animal - por si só um problema ambiental - e para exportação. E isto foi quantas vezes questionado na mídia? Pouquíssimas. Mas, quando o Brasil demonstra ser o celeiro e o abatedouro do mundo, a mídia toda está lá.

Só se tomam medidas quando já é muito tarde: quando surgem problemas diversos de saúde causados pelo uso incorreto destes produtos químicos, a mídia está prontinha para cair em cima e cobrar satisfações - e o governo pouco ou nada faz para punir aqueles que causaram o desastre, notadamente os órgãos que somente fornecem crédito agrícola mediante o uso de pesticidas, assim favorecendo um grupinho de marcas enquanto todos aturam o prejuízo: impacto ambiental, problemas de saúde, perda da nossa soberania alimentar etc...

Por que a grande mídia nunca fala sobre o impacto ambiental da pecuária e sobre alternativas alimentares (exceto quando o assunto são dietas milagrosas e picaretagem, digo, terapias alternativas) como alternativa ao desmatamento e à poluição causados pela produção animal?

E onde está ela na hora de defender o transporte coletivo em substituição ao transporte individual, de exigir e fiscalizar que de fato ocorram as melhorias radicais e urgentes para resolver as situações lamentáveis que vemos em diversas cidades? Por que vemos reportagens sobre meio-ambiente (ou pior, reportagens sobre congestionamentos épicos), e 2 minutos após vemos a propaganda de um novo modelo de carro, desfilando por ruas largas, absolutamente limpas, perfeitamente pavimentadas e vazias que não existem em nenhum lugar do mundo?

Por que essa grande mídia não critica o consumismo, a urbanização desenfreada, o lucro a qualquer custo, os quais também são causadores de enormes impactos ambientais e sociais? Simples: qualquer coisa que contradiga as propagandas de felicidade em 48 vezes no cartão vai contra o interesse dela. E obviamente, questionar um crescimento baseado no consumo (e auto-limitante por sua própria natureza) vai contra os interesses de quem paga milhares de reais por uma propaganda de 30 segundos no horário nobre.

Em suma, várias coisas que também causam impacto ambiental tão grande quanto, ou maior que o de milhares de usinas, passam batidas. No máximo viram uma coluna na Veja ou uma matéria do Globo Repórter - na mesma edição em que uma empresa de agronegócio ou um grande grupo industrial colocará uma propaganda olhe, estamos fazendo nossa obrigação em não poluir, logo após a propaganda de mais um carro de luxo.

Em toda essa campanha, ficou um gosto enorme de greenwashing: pintar de verde, para aumentar a audiência e fazer com que pessoas finalmente possam se sentir engajadas, que elas se identifiquem com um modelo pago para ler um script. O qual se acumula num belo monte de hipocrisias, junto com as grandes obras pintadas de verde e com as promessas de reflorestamento. Uma "sustentabilidade" enlatada, fácil de ser distribuída por ai. Uma coleção de platitudes.

Em tempo: não sou muito favorável à construção de Belo Monte pela questão da nossa defasagem quanto à eficiência energética. Iluminação pública acesa quando não é necessário, equipamentos antigos, prédios onde o uso de ar-condicionado é mandatório, gatos etc... tudo isso anulará os efeitos de qualquer nova fonte de energia, por mais limpa que ela seja. Fundamentalmente, estamos pegando o financiamento para pagar o empréstimo que pegamos para cobrir o desperdício.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Parados no trânsito

O desprezo do governo federal, de governos estaduais e prefeituras pelo transporte público deve-se a uma coisa muito simples: nós somos um dos maiores mercados mundiais para carros, e também temos uma certa empresinha chamada Petrobras, que vende gasolina, diesel e álcool para mantê-los abastecidos - altamente lucrativa.

Porém, o transporte individual no Brasil se aproxima da saturação, de um ponto em que teremos que pernoitar no congestionamento, que teremos que pegar o carro às 5 da manhã para chegarmos às 8 no trabalho. Até mesmo as cidades pequenas já sofrem com isso, quem imaginaria uma cidade de 200 mil habitantes (tipo Santa Maria) com congestionamento? Pois é isso que se vê na saída da UFSM à tarde, e em algumas ruas e avenidas nos horários de pico.

Em boa parte isso é motivado pela nossa cultura: o ônibus é de pobre, requer que eu me misture com a gentalha. E sejamos sinceros, a bicicleta ainda é inviável em várias cidades, posto que não há infraestrutura adequada para elas - a menos que se queira correr o risco de um acidente causado por um motorista irresponsável.

Porém, outro lado é o do sucateamento de nossos transportes públicos. Empresas deitam e rolam com serviços de má qualidade, com ônibus superlotados que não atendem boa parte da cidade, tem pouca variedade de horários, ou os dois. Um exemplo: inexistem ônibus para meu bairro depois da meia-noite, se eu quiser sair e voltar de madrugada, obrigatoriamente preciso de um carro ou de um táxi. Já descrevi esse problema em outro post.

Forma-se um círculo vicioso: ninguém quer usar o transporte público pois ele é ineficiente e está mal equipado, mas não compensa investir nele pois muitas pessoas preferem (ou se veem obrigadas a usar) o transporte individual; ele não é lucrativo.

Soma-se a isso a distância entre as residências e os locais de trabalho ou estudo. Acredito eu que todos já tenham visto, ao menos em filmes, os suburbs americanos [1]: bairros ou condomínios fechados longe do centro das cidades, projetados para que toda a mobilidade seja feita de carro. Com o aumento dos custos dos combustíveis lá fora, esse modelo cada vez mais demonstra-se falho, além do impacto na produtividade causado pelo funcionário que já chega estressado por ter passado horas no trânsito. E no Brasil já não está muito diferente, vários condomínios são fundados longe dos locais de trabalho, sendo vitimados pela falta de transporte público.

Até agora as soluções propostas foram inefetivas ou assim se tornarão a curto e médio prazo, e algumas delas contribuem para piorar o problema ao mesmo tempo em que enriquecem o bolso de alguns poucos, ou que são facilmente burladas por esses mesmos.

Rodízio? Facilmente burlado por quem tem dinheiro para comprar outro carro, ou mesmo para quem pode comprar um segundo carro mais antigo (ou seja, menos eficiente) - o tiro saiu pela culatra, nesta última situação.

Grandes obras de infraestrutura? Funcionam a curto prazo, e servem como uma excelente forma de fascinar um povo que ama projetos faraônicos; mas a longo prazo, com o aumento do volume de veículos e do seu uso (novamente, motivado porque é fácil de chegar etc...), tendem a perder a efetividade, além de causarem grandes impactos ambientais - basta lembrar das enchentes que acontecem em regiões onde a absorção de água foi impedida pelo asfalto. Tais obras requerem, também, manutenção que raramente acontece de forma adequada.

A melhor solução que vejo, a curto e médio prazo, é repensar a necessidade de sair de casa. Eu realmente preciso ir até a faculdade para assistir 3 horas de aula de slides, baseada em leitura e debate de textos, há alguma objeção a fazê-las de forma eletrônica? Preciso realmente ir ao banco ou ao cartório entregar papeladas, por quê isso não pode ser feito pela internet? Se um funcionário pode trabalhar de casa, mesmo que seja um dia da semana, por quê não? (Embora saibamos que trabalhar de casa não é tão simples quanto parece - assunto para outro post, porém)

Outra ideia importante é o transporte público como direito universal, algo tão acessível que torne o transporte pessoal desnecessário no dia-a-dia. Infelizmente - sejamos dolorosamente realistas - isso não acontecerá tão cedo, dados os sistemas de interesses envolvidos no processo: que governo iria atentar contra algo que lhe dá grandes lucros financeiros? Nenhum em sã consciência.

O excesso de carros nas ruas não é lucrativo (no aspecto financeiro e no aspecto social) a ninguém, exceto às montadoras e às petrolíferas - aquelas que movem o Brasil, mesmo que seus funcionários fiquem horas parados para chegar ao trabalho, e já cheguem estressados e cansados. Só os executivos, diretores etc... que chegarão de helicóptero para aquela reunião importantíssima.

Enquanto isso, continuemos comprando carros maiores e mais confortáveis para podermos passar mais tempo no trânsito - longe das ruas vazias, onde se pode andar em alta velocidade, que as propagandas mostram. E nos orgulhemos dos maiores congestionamentos do mundo!

[1] Não traduzi como subúrbio pois essa palavra tem uma conotação um pouco diferente em português.

(Foto: Engarrafamento na Marginal Pinheiros, São Paulo. Congestionamento - Wikipédia)

domingo, 13 de novembro de 2011

Platitudes diversas

Uma palavra bem interessante que descobri esses dias: platitude. Segundo o  Wikicionário, significa um comentário aparentemente inteligente, porém banal, raso. E perfeitamente adequado para descrever o uso de algumas outras palavras e expressões que vemos por aí.

A primeira, e a mais empregada, delas, é a tal da consciência. A moda é ser consciente. É conscientizar. Colocar essa palavra em qualquer sentença é bem eficaz para passar a ideia de engajamento. Mesmo que essa consciência seja apenas no momento em que se compartilha uma foto no Facebook. Consciência se veste como quem veste uma camiseta de marca - e é tão profunda quanto uma. Mas afirmar que está consciente de um problema qualquer é bonito, tem uma beleza oculta que palavras como conhecer, entender etc... não têm.

Outra grande platitude é aquela que permeia as marchas contra a corrupção, pelo meio-ambiente etc...: alguém em sã consciência é a favor da corrupção (excetuando aqueles que por ela são beneficiados)? Alguém que tenha o mínimo de inteligência (excetuando-se aqueles que deliberadamente a desligam para lucrar mais) é a favor da destruição ambiental? Atiram em todas as causas ao mesmo tempo, e não acertam em nenhuma. Mas tudo bem, é bom para a sofrida e escorchada Classe Média.

Também temos aquele discurso comercial recheado dessas, empregando-as como se fossem grandes inovações: Otimizar. Disponibilizar. Dinamizar. Sustentabilidade. Inovação. Empresas pagando grandes somas para assessorias de imprensa escreverem que Objetivando dinamizar o mercado, a Padaria do Zé oferece um novo conceito em pão.... Como se impactar (de forma positiva ou negativa) o mercado não fosse o objetivo de qualquer empresa, e como se disponibilizar produtos e serviços inovadores, de forma eficiente e sustentável, não fosse o que todas as empresas fazem (ou ao menos fingem).

Quase qualquer discurso político tem um delicioso recheio de platitudes. Melhorar a cidade/estado/país através da educação/saúde/indústria etc... são falados de forma pomposa. A criminalidade é um problema; também o são a corrupção, o meio-ambiente e as desigualdades sociais. Deixam em aberto como isso será (se é que será) feito - resolvê-los é atribuição básica de um político, e não uma meta em si. Mas isso cai bem nos discursos deles: se no mandato de um prefeito, 3 pessoas em uma cidade de 100 mil deixarem de ser pobres, tecnicamente, isto é uma melhoria.

E a auto-ajuda? Basicamente um conjunto de platitudes embebidas em um discurso obscurantista, sendo vendidas como conhecimento profundo e secreto. Palestras de motivação: não se deixar abalar pelos erros, procurar conhecimento etc... Regras foram feitas para serem quebradas, e Deus ajuda quem cedo madruga. Fica bonito vindo da boca de um palestrante, não acham?

Platitudes são uma ótima ferramenta para parecermos intelectuais, cultos, profundos, engajados, para nos escondermos sob um discurso, ou mesmo se quisermos ser demagógicos e manipuladores. E enquanto isso, continuemos objetivando disponibilizar melhorias sociais sustentáveis de forma consciente, para vencermos os desafios, pois afinal a fila anda.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Sustentabilidade como ideologia? Pensamentos

"Como eu sei que a sua empresa é amigável ao meio-ambiente?"
"O vocabulário, a tipografia, as fotos de natureza no panfleto."

Como premissa desse post, entendo a sustentabilidade como algo que almeja ser um estilo de vida, uma nova forma de pensar o mundo e as relações das pessoas inseridas neste; ela tem, ou quer ter, o objetivo de ser um contraponto ao capitalismo selvagem, ao consumo desnecessário e desenfreado, e ao lucro excessivo obtido a qualquer custo - ao mesmo tempo em que se mantém o compromisso com a verdade e a responsabilidade. Então, proponho alguns questionamentos sobre esta como ideologia.

Por quê tantas pessoas que se orgulham de ser sustentáveis não resistirão ao próximo lançamento da Apple (ou de qualquer outro fabricante de gadgets) ou a comprar produtos fabricados de forma limpa - mesmo que elas não precisem deles? Continuam com o mesmo estilo de vida, mas agora mais verdinho, só pra combinar com aquelas roupas feitas de material reciclado que elas comprou para ajudar: não vejo nada de ecologicamente correto nisso. Na verdade, o "limpo" virou uma plataforma de marketing, alimentada por uma "indulgência": posso consumir sem culpa, afinal (teoricamente) não estou poluindo.

E ela é excelente nesse aspecto, se ignorarmos o greenwashing. É possível ver sustentabilidade em uma obra faraônica que desaloja centenas de pessoas ou em um condomínio de luxo com um nome "verde", que fomenta a especulação imobiliária e complica a situação da mobilidade urbana - afinal, ônibus "de pobre" não entra? Improvável, e não vai ser plantando arvorezinhas e abraçando causas sociais que isso vai magicamente se tornar sustentável.


É possível ver "sustentabilidade" num banco que financia projetos pintados de verde, ao mesmo tempo em que enriquece o quadro de diretores (assim amplificando as desigualdades sociais) e cobra tarifas abusivas de seus correntistas? Sinceramente, acho impossível.

Por sinal, as causas sociais viraram uma excelente muleta: não posso deixar de negar a importância de algumas delas (principalmente as que encontram embasamento em ONGs, projetos de universidades etc...), porém elas não anulam os problemas sociais e ambientais causados pelas atividades de certas empresas; podendo inclusive servir como uma excelente fachada - quem se importa se poluímos? olhe, ajudamos vários projetos!
Mas a nossa empresa está dentro da lei ambiental. Não, ela não é sustentável por isso: ela está cumprindo a obrigação dela, da mesma forma que ninguém se torna heroi por cumprir a lei. Ou, em outras palavras: não somos criminosos - é adequado dizer isso? Tire suas próprias conclusões sobre essa afirmação, colocada em um anúncio ou no material institucional de uma empresa.

Nisso também entra o aspecto da verdade: produtos sustentáveis, cujo funcionamento e eficiência sejam fundamentados em conhecimento racional, não empregando pseudociência, linguagem obscurantista etc... Onde o mecanismo que os torna "limpos" seja documentado, explicado e pronto para qualquer pessoa que queira inspecioná-los.

E mesmo que tudo esteja dentro da lei, existe o contraponto que eu afirmei no primeiro parágrafo: há sustentabilidade nas operações da empresa se houver um lucro abusivo e trabalhadores sendo mantidos em péssimas condições - ou seja, as mesmas infelizes condições de boa parte da indústria? 

No que toca o aspecto das relações entre pessoa, sociedade e meio, faz sentido o respeito ao meio-ambiente se não respeitamos as pessoas que nele vivem e dele dependem, direta ou indiretamente - ou seja, todos? Não vejo coerência em alguém que repete o mantra salve o planeta ao mesmo tempo em que mantém posições fundamentalistas, intolerantes e reacionárias. Definitivamente, não há nada de "limpo" em defender pena de morte para vagabundo (como se pena de morte tivesse utilidade para reduzir a criminalidade - mas isso não é o assunto desse post) ou arrotar o nome de uma divindade como justificativa para o ódio a uma pessoa tão cidadã e tão ser-humana quanto qualquer outra.


Outro problema são as ideias mirabolantes, geniais e inviáveis. Claro que seria ótimo que todo mundo pudesse consumir produtos sustentáveis - é uma pena que isso dificilmente irá acontecer sem incentivos governamentais que não virão devido a um sistema de interesses - algo que gera lucro suficiente para resolver, ou apenas mascarar, os problemas ambientais gerados pelas atividades não-sustentáveis.

Ainda temos a questão da auditoria e da continuidade: plantamos X árvores para cada R$ X vendidos? Além de cair na questão da indulgência - oba! posso consumir sem preocupação, meu impacto ambiental será compensado - quem garante que essas árvores serão plantadas e mantidas? Desconheço qualquer instituto que faça isso.

Por fim, se a sustentabilidade é algo que traria ganhos para a sociedade toda, por quê tantas ideias, muitas vezes celebradas como para mudar o mundo, são vítimas de autores que as trancam sob as 7 chaves do direito autoral, das patentes etc...? Considerando a premissa que fiz no primeiro parágrafo, fechar o conhecimento é algo que passa longe de ser uma atitude sustentável, especialmente quando ele poderia beneficiar a humanidade.

A sustentabilidade, não é algo que se irá atingir apenas com pequenos esforços individuais, esparsos e dispersos, comprando produtos verdes, plantando arvorezinhas etc... Talvez ela seja atingida com mudanças de estilo de vida, infelizmente inacessíveis para muita gente - mesmo que elas tenham dinheiro - visto que é necessário desapegar-se de preconceitos e de ignorâncias diversas. Mas principalmente: ela irá precisar de uma mãozinha dos governos, o que dificilmente irá acontecer, afinal... o lucro a qualquer custo (neste caso, com os impostos) não tem nada de sustentável, por mais que se despolua, se replante, por mais que não se faça mais do que a obrigação.


Se quisermos ver ela acontecer, precisamos de soluções simples, de forma que qualquer pessoa possa empregá-las, e baratas, vindas de pessoas que não têm medo do compartilhamento de conhecimento.


sábado, 15 de outubro de 2011

De veículos elétricos

Vejo vários sites de tecnologia, de notícias etc... propondo o carro (e outros meios de transporte) elétricos como "o futuro". Porém, algumas considerações que acredito serem necessárias.

Primeiramente, temos os principais problemas do carro elétrico:

1. Não resolve o problema da mobilidade urbana

Congestionamento será congestionamento e ônibus superlotado será ônibus superlotado, mesmo com carros e ônibus elétricos. Acidentes de trânsito, motoristas que dirigem de forma ineficiente etc... continuarão existindo, e não será a tecnologia que irá resolver esses problemas.

Resolve-se (ou ao menos ameniza-se) o problema da poluição, mas não se resolve os problemas sociais e psicológicos que a confusão do trânsito traz, não se resolve a incomodação de pegar aquele ônibus superlotado andando devagar, quase parando. Somando-se a isso o fato de que as empresas de ônibus provavelmente irão querer compensar seus gastos com os novos ônibus... repassando isso para os usuários, sem melhorar o serviço. (tenho a impressão de já ter visto essa história antes, mesmo com veículos clássicos).

De nada adianta resolver apenas os problemas técnicos se ainda teremos que gastar energia passando mais tempo para encontrar lugar para estacionar do que fazendo o que precisamos, em um legítimo momento Classe Média Sofre.

Existe todo um problema da mobilidade urbana, que não será resolvido apenas pela tecnologia, mas esse é o assunto para um futuro post.

2. É realmente limpo?

Ele só será menos prejudicial ao meio ambiente na medida em que a energia elétrica que o alimenta for produzida de forma menos prejudicial ao meio ambiente.

Lembrando que falar em "energia limpa" é um excelente caso de greenwashing: visto que painéis solares são feitos de semicondutores (que demandam grandes quantidades de substâncias tóxicas para sua produção), turbinas eólicas são feitas com metais e outros materiais que exigem mineração etc.... considero que este termo deveria ser evitado. Tais fontes de energia são menos poluentes, mas definitivamente não são limpas - mas bem, isso não fica bom em uma campanha publicitária.

Zero emissão de carbono? Qualquer atividade humana gera carbono. Limpar isso com árvores? A única coisa que fica limpa é a consciência de quem planta: não adianta simplesmente sair atulhando tudo de árvores e não dar os cuidados necessários a elas.

Soma-se a isso o aspecto tóxico das baterias, que sofrem com vida útil limitada: a cada alguns anos é necessário trocá-las, o que incorre em custo financeiro e impacto ambiental. Nesse aspecto, o carro elétrico poderia inclusive ser mais tóxico que aquele movido a combustíveis fósseis.

3. Armazenamento de energia


A parte de motores e seu controle, a eletrônica de potência, e de sistemas embarcados está bastante avançada. Já é possível fazer motores de alta eficiência e controlá-los de forma precisa, porém o maior problema continua sendo as baterias.

Infelizmente, os combustíveis fósseis tem um alto poder energético em relação ao seu volume, o que os torna viáveis para veículos. Conforme a Wikipédia, a gasolina armazena 47 megajoules por kilograma (MJ/kg), enquanto mesmo as baterias de lítio-oxigênio (atualmente as mais avançadas) armazenam apenas 9 MJ/kg.

Como consequência, é preciso recarregar o carro após uma certa quilometragem, em uma situação ovo ou galinha: não há pontos de recarga porque poucas pessoas têm veículos elétricos, mas poucas pessoas têm veículos elétricos porque elas têm receio de ficarem sem carga no meio da estrada.

Recargas são lentíssimas se comparadas com encher o tanque em alguns minutos: que tal ter que esperar 3 horas a cada 300 km percorridos?

Claro que isso poderá mudar com o surgimento de novas tecnologias de baterias, mas isso ainda levará um bom tempo. E estaremos sempre limitados pelo peso delas.

4. Preço


Mesmo que todos os problemas anteriores fossem resolvidos, os carros elétricos continuariam sendo mais caros - mesmo com subsídios do governo. Inclusive, se mais pessoas consumissem tais veículos, o preço da gasolina poderia vir a baixar, assim incentivando aqueles que mantém seus carros comuns a continuar com eles - o tiro saiu pela culatra.

E não duvido que o poderoso lobby dos combustíveis fósseis não deixará tais auxílios acontecerem aqui: por que motivo o "país do pré-sal" iria incentivar pessoas a migrar para uma tecnologia que dá menos lucro às empresas de óleo?

Apesar de todas essas limitações e considerações, continuam existindo diversas vantagens nos carros elétricos. Algumas:

1. Possibilidade de desenvolvimento de tecnologia


Os veículos elétricos representam excelente oportunidade de desenvolvimento de novas tecnologias e de melhorias nas já existentes. Mecânica, eletrônica, eletrotécnica, geração e transmissão de energia etc... todos poderão se beneficiar.

Mas, para isso, é necessário que não nos contentemos simplesmente em comprar tecnologias prontas; e isso provavelmente será algo difícil de se ver, exceto para as grandes empresas que já têm o dinheiro (vindo dos veículos clássicos, do petróleo etc...) e o know-how para investir nessa tecnologia.

Soma-se a isso a necessidade de reciclar profissionais para se adaptarem à manutenção dos novos sistemas automotivos encontrados em tais veículos.

2. Economia para pequenos percursos


É bastante comum ver carros andando 8, 10km, dando pequenas voltas no uso cotidiano. Considerando que a gasolina custa em média R$ 2,70 o litro, e que um carro comum consome entre 10 a 12 km/L, pode-se fazer uma boa economia se a energia for gerada de forma barata. Sem falar que o problema da recarga deixa de ser relevante para esses pequenos percursos: posso carregar meu carro durante a noite e usá-lo durante o dia, por exemplo.

A energia inclusive pode ser gerada de forma local, através de paineis solares, turbinas eólicas, aproveitando-se pequenas fontes de energia, assim trazendo mais economia e potencialmente desenvolvimento e menores impactos ambientais. 

3. Conforto para os usuários

Motores elétricos podem ser bastante silenciosos, sem o ruído característico de um motor a combustão: um alívio para nossas ruas barulhentas. Isso poderia representar uma ameaça aos pedestres, o que levou vários fabricantes a desenvolverem sistemas de alerta auditivos.

Porém, nada (ainda) pode ser feito em relação aquela pessoa que gosta do ronco do motor do seu carro "tunado". Felizmente, essa é uma minoria: muitas pessoas agradecerão não precisarem mais ficar ouvindo aquela sinfonia rotativa na hora do rush.

 Concluindo, um transporte que dependa menos de combustíveis fósseis é uma coisa plenamente desejável, é claro, mas se for vítima do hype existente sobre toda nova tecnologia, ele traz o risco de não colaborar para resolver, ou até mesmo, agravar os problemas ambientais e sociais. Porém, corretamente planejado e executado de forma responsável, ele pode se demonstrar proveitoso para todos.

(foto: Chevy Volt Electric Vehicle, de Tom Raftery).

sábado, 24 de setembro de 2011

Sage: uma alternativa aos pacotes matemáticos comerciais

Vários problemas em engenharia, e em outras ciências, são resolvidos com ferramentas matemáticas como sistemas de álgebra computacional (Mathematica, Maple) e sistemas para cálculo numérico (como o MATLAB).

O problema desses três pacotes é o custo deles: mesmo as licenças para fins acadêmicos não são baratas (US$ 199 não me parece barato para um estudante :). Se a sua universidade ou empresa tem o programa, muito bom, mas se ela não tem? Sobram 2 alternativas: faça-você-mesmo ou usar alternativas livres.

Embora seja plenamente possível desenvolver um programa (por exemplo, usando a NumPy, a SciPy, a GSL etc...) que resolva o mesmo problema, isso traz aquela desagradável sensação de reinvenção da roda.

Já para a segunda opção, um dos meus maiores problemas com as alternativas livres era justamente a falta de integração das diversas ferramentas, e fazê-los falar entre si às vezes era uma saga épica.

Para resolver essa necessidade, a ferramenta que acabei adotando foi o Sage, cujo objetivo é criar uma alternativa open-source viável às ferramentas como o Maple, o Mathematica, o MATLAB etc... usando as várias ferramentas livres já existentes (mais de 90, conforme os próprios desenvolvedores).

E justamente é essa a maior qualidade dele, na minha opinião: não se reinventa a roda, aproveita-se o trabalho que já existe, apenas implementando lógica para fazer a interface entre essas ferramentas (quisera eu que todos os softwares livres pensassem assim).

Uma das motivações para esse projeto é também servir de contraponto à arquitetura fechada das caixas pretas comerciais, justamente pela necessidade de "tudo ser aberto para inspeção" - ou seja, a reprodutibilidade necessária ao método científico. 

Ele nasceu voltado à matemática pura, como atestam os diversos papers que o citam, mas também é plenamente utilizável para a matemática aplicada, as engenharias etc... Embora seja uma pena que a documentação pouco ou nada fale sobre esses usos.

Para quem já desenvolve em Python, melhor ainda: ele pode ser usado como um ambiente de desenvolvimento para aplicações científicas nessa linguagem, também sendo possível utilizar as diversas bibliotecas para ela disponíveis.

Outra característica bastante útil dele é a possibilidade de executá-lo em um servidor dedicado e acessado via web (acredito que nenhuma ferramenta comercial faça isso por padrão), tornando ele interessante para uso em sala de aula.

Aliás, se você não quiser instalá-lo para testar (o download tem mais de 300MB, por ser inteiramente auto-contido, não precisa de dependências externas), pode fazer isso pela internet, especialmente para os usuários Windows (não há versão nativa ainda, nem compilada no Cygwin - espera-se que isso mude logo).

(figura: fractal de Mandelbrot plotado no Sage)

terça-feira, 13 de setembro de 2011

De engenheiros e crimes

Infelizmente, o tratamento para crimes ambientais no Brasil (e na maioria dos outros países - proteção anti-reacionário BRAZIU EH UMA MERDA MIMIMI) é frouxo. Uma multinha ali (que a empresa paga facilmente com um dia de lucro), um puxão de orelha acolá, e continua-se poluindo, desmatando etc... impunemente.

Basta lembrar do nosso abominável novo código florestal, amplamente defendido pela bancada ruralista, e das usinas faraônicas que alguns defendem (aposta quanto que elas vão ser superfaturadas e pagaremos o pato nas nossas contas?). Enquanto isso, o Brasil, fascinado pelo progresso na forma de grandes obras, e ainda embasbacado pelo pré-sal (justamente quando lá fora tenta-se cortar o vício do petróleo) deixa o potencial eólico e solar livre para quem vier de fora, mas isso é assunto para outro post.

E depois de tudo isso, pinta-se de verde. Plantam-se umas arvorezinhas aqui e acolá, não se jogam dejetos tóxicos nos rios, compram-se umas páginas numa revista para mostrar que a empresa não fez mais do que o dever de casa, faz-se uma campanha de consciência ambiental, as ações sobem, e todo mundo fica satisfeito com o suposto desenvolvimento sustentável dela. Mesmo que o ramo de atuação dessa empresa seja incompatível com a sustentabilidade. Greenwashing em sua melhor forma. E nessas horas, pergunto sobre uma categoria de profissionais envolvidos nessas empresas, a saber: engenheiros.

Toda grande empresa tem (ou ao menos deveria ter) engenheiros responsáveis pela sua operação, e vários outros participaram do projeto dela. Pergunto se são eles complacentes com os crimes ambientais da empresa, com as falhas de projeto que foram deixadas e não sanadas - assim contradizendo o Código de Ética Profissional das Engenharias, que afirma:

Da intervenção profissional sobre o meio

VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável na intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens
e de seus valores.

Porém, pouca ou nenhuma punição se vê; não lembro de ter visto nenhum caso de engenheiros perdendo seu direito ao exercício da profissão após a indústria ou empresa pela qual ele é responsável ser punida por crimes ambientais (ou por outros crimes cometidos no exercício da sua profissão).

 
Da mesma forma que um médico imprudente ou negligente pode perder seu registro profissional, o mesmo deverá acontecer com os engenheiros que deixam assinar e executar uma construção com falhas de projeto, ou uma planta (odeio esse termo, qual o problema com fábrica, unidade etc...?) que intencionalmente polui e causa impactos ambientais graves.


O mesmo é válido para a segurança no trabalho. É obrigação do engenheiro fazer valer as normas, fiscalizar o trabalho para que ele esteja sendo feito corretamente (sem espaço para gambiarras, fuga das especificações etc...), de forma eficiente e econômica. Onde está o engenheiro nessas obras, onde funcionários foram pegos trabalhando sem equipamentos de proteção?

É uma pena que, a julgar pelo modelo de crescimento que queremos ver, os impactos podem ficar para trás e serem resolvidos (com um jeitinho ali, outro aqui) anos depois, quando já começarem a prejudicar a todos, ou simplesmente quando não representarem mais progresso. E nós? Num legítimo momento Classe Média Sofre, pagando a conta das obras faraônicas e a bolsa-multinacional de cada dia (legal ver que nenhum neoliberalismo resiste a um bom presentinho de um governo), ao mesmo tempo em que acompanhamos o faça o que eu digo, não faça o que eu faço.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Da multiplicação de números aleatórios

Cuidado: esse post contém matemática, mas nada de muito difícil.

Essa tirinha, do Vida de Programador, fala em multiplicar dois números aleatórios para obter um número mais aleatório. Parece um tanto óbvio que isso é uma boa ideia, não?

Acontece que isso não funciona da forma esperada, e pode em alguns casos até diminuir a aleatoriedade dos números.

Não sei estatística o suficiente para provar de forma formal (e pelo que eu pesquisei isso vai inclusive cair em algumas contas meio tensas - o Mathematica inclusive não dá uma forma fechada para esse produto), mas de forma informal pode ser feito utilizando Python + SciPy, ou qualquer outra linguagem de programação.

Primeiro, geram-se 2 vetores seguindo a distribuição uniforme (a mais usada pelo 'random' das linguagens de programação). Após, multiplicam-se ambos, e o resultado não tem nada uniforme - aliás, parece mais exponencial, não? A mesma coisa com a soma. Vamos aos gráficos (n = 10000):





























Pior ainda é multiplicar muitos números aleatórios, o que gera uma tendência extrema. Esse exemplo com 6 números aleatórios (n = 500000) demonstra:















Então, tem-se que multiplicar números aleatórios modifica a distribuição deles. Pode ser que isso seja desejável ou não vá afetar nosso problema, pode ser que não: que eles adicionem um viés, por exemplo num jogo, numa simulação, ou na seleção de propagandas a serem colocadas em um site.

Números "mais aleatórios"? Só com geradores de números aleatórios por hardware, por exemplo este, ou usando dispositivos como o /dev/random. Mas não a solução do nosso querido POGramador.

O código Python? Tem aqui.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Não trabalho (nem faço seus trabalhos) de graça

Vejo muitas pessoas querendo que profissionais façam trabalhos de graça ou por preços módicos, muitas vezes usando o velho mimimi do vai ajudar pro seu currículo, vai ser bom para divulgar seu trabalho etc... Infelizmente, isso tudo não cola, ao menos não para os bons profissionais. Evidente que podemos abrir exceções para situações de pobreza, de desastres naturais etc... mas certamente quem tem acesso a internet e pede isso em fóruns não cai nessa situação

Todos os profissionais despenderam tempo e dinheiro para se tornarem o que são hoje: cursos, ferramentas, equipamento, estudo etc... e continuam investindo nisso. Temos que pagar impostos e, em alguns casos (como muitos dos cursos de nível superior), para uma associação de classe. E assinamos embaixo, assumimos responsabilidade pelo nosso trabalho e não iremos desaparecer da noite pro dia (a menos que sejamos abduzidos) deixando o pepino nas mãos do cliente.

Contraste com o moleque que faz qualquer serviço por 30 reau. Leia-se faz: suas soluções são porcarias que impossibilitam melhorias, manutenções, atualizações etc... assim dando a ele garantia que seu cliente ficará "viciado". E também, ele torna-se uma poderosa máquina de destruir mercados e lesar toda a concorrência que cobra o preço que ela considera justo pelo serviço dela - afinal, a maioria das pessoas olha primeiro... o preço, visto que elas não têm conhecimento técnico para analisar designs, códigos-fonte, projetos etc...


Você confiaria num engenheiro que vende seus serviços a 30 reau? Ou em um médico que faz qualquer cirurgia por esse mesmo valor? Eu, e qualquer pessoa sensata, não: há algo de bem errado (e bem ilegal) em um profissional que cobra menos do que seu trabalho vale. Não tenho conhecimentos para afirmar sobre as profissões da saúde, do direito etc... mas na Engenharia, o código de ética do CONFEA é bastante claro sobre isso:

Art. 10 - No exercício da profissão são condutas vedadas ao
profissional:
[...]
III - nas relações com os clientes, empregadores e colaboradores:
a) formular proposta de salários inferiores ao mínimo profissional legal;
b) apresentar proposta de honorários com valores vis ou extorsivos ou desrespeitando tabelas de honorários mínimos aplicáveis;

Para a realização de um bom trabalho, são necessários vários passos, entender o problema, procurar a solução que melhor atende às necessidades, implementá-la e garantir o seu funcionamento durante o ciclo de vida do produto, da empresa etc... e não será numa mensagem em um fórum ou no Twitter que essa consultoria se dará. Podem-se tirar dúvidas, podem-se dar ajudas pontuais, mas não podemos propor uma solução completa em 140 caracteres ou com informações esparsas fornecidas em um fórum aleatório.

Nas profissões com nível superior, a situação se agrava. Para um engenheiro, não existe fazer um projetinho, fazer um jeitinho ali, assinar uns papéis. Por mais simples que seja (ou que aparente ser) a solução de um problema, existe um trabalho no qual irei colocar meu nome e meu registro do CREA, e com meu nome nele, fica implícito que assumirei as consequências - sob risco inclusive de ter meu registro profissional cassado - se ele tiver alguma falha grave. A mesma coisa para um médico ou um advogado, creio eu.


Tampouco posso fazer gatos, gambiarras etc... para você sair ganhando de forma ilegal - novamente, existe um pequeno e importantíssimo conceito chamado responsabilidade criminal. E nem posso aceitar pagamentos para que eu tape os olhos perante esse tipo de violação. Citando o mesmo código de ética:
Da honradez da profissão
III - A profissão é alto título de honra e sua prática exige conduta honesta, digna e cidadã;
Acho que é bem óbvio que eu fazer uma mutreta para você não é "conduta honesta, digna e cidadã".

E o pior são as pessoas que se emputecem quando ouvem um não, não trabalho de graça. Para elas, você é um mente-fechada que não quer se abrir a novas experiências, que não quer colaborar com os outros etc... E não quero mesmo: não quero contribuir com quem me desvaloriza.

O mesmo se aplica aos trabalhos universitários (e escolares como um todo): quem é o aluno que tem interesse em passar? Você, não eu. É você quem tem que fazer seus trabalhos, seus projetos, seus artigos e seus estudos, sob pena de você se tornar um mero portador de diploma, e não um profissional. Ah, mas eu não sei escrever direito? Pois bem, aprenda antes que seja tarde demais - você está na faculdade, e não será expulso por perguntar para um professor ou pedir uma revisão de nota.

Você pode pedir para alguém fazer seus trabalhos na faculdade, mas não poderá pedir para alguém realizar seu trabalho depois que você estiver formado. Tampouco você vai conseguir ir longe se esses trabalhos forem meros remixes de outros que você achou no Google ou pegou com o pessoal do semestre passado, intercalados com um copia-cola daqui, um plágio dali etc... Basta lembrar que isso pode facilmente acabar com uma carreira.

Não, não trabalho de graça. Não importa qual o mimimi que você use. Não gostou? Contrate um profissional que valha os 50 reais que você quer pagar. E tampouco faço seus trabalhos, não importa o quanto você pague, a menos que você concorde em colocar o meu nome no seu diploma.

(ps: antes que venham me falar disso, serviços do tipo formato seu trabalho nas normas da ABNT ou traduzo seu trabalho/artigo não caem na situação de "faço seu trabalho")

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Saga Épica Acadêmica Integrada

Esse ano, tive que submeter (argh! odeio essa palavra! qual o problema com enviar?) um artigo para a Jornada Acadêmica Integrada (JAI) da UFSM. Resolvi - como sempre faço - submetê-lo uns dias antes do prazo final, justamente para evitar o aborrecimento de sistema indisponível que ocorreria mais para o fim do prazo. Aliás, sempre sou um dos primeiros a enviar artigos, assim que abre o prazo eu envio, e conforme vou evoluindo o artigo, reenvio.

Dito e feito: o sistema passou o domingo todo (31/07), último dia para a submissão, apresentando lentidão e dando erro (timeout, Bad Request etc...) para tarefas tão simples quanto alterar uma palavra no texto ou alterar um dado na inscrição.

Os alunos da UFSM já estão acostumados com a lentidão no Portal do Aluno na época de matrículas - sendo o sistema da JAI hospedado nos mesmos servidores (o endereço IP é o mesmo), já era algo a ser esperado. Porém, o que me surpreende é que a universidade até hoje não tomou atitudes para mitigar um problema que ocorre sistematicamente a cada semestre.

A inscrição da JAI, por exemplo, poderia ter sido colocada na nuvem ou em um hosting dedicado, que com certeza tem mais infra-estrutura que a universidade para essas situações incomuns. Evitaria todos os aborrecimentos que aconteceram até agora; e é algo tão simples, que qualquer congresso ou evento sério faz.

Essa opção se torna ainda mais relevante considerando-se que as conexões da UFSM com a internet já estão saturadas (qualquer pessoa que tenha usado em horário de pico lá sabe) devido ao grande número de usuários.

No geral, fica a mensagem: você está organizando um evento sério, para o qual você espera um grande número de acessos e inscrições? Então tenha infra-estrutura séria, para um grande número de pessoas acessando concorrentemente. E se o seu evento teve problemas com isso, aprenda a lição: melhor superdimensionar e preparar para a pior situação do que subdimensionar e ficar sendo otimista o tempo todo.




Não ficou claro? Troque 'um evento' por 'uma empresa' ou 'uma loja virtual' no parágrafo acima. Acredito que agora eu tenha me feito entender. Você se tornaria cliente de uma empresa ou loja cujo site toda hora dá erro e que não aguenta a demanda? Eu não.

Ah, mas fulano deixou para enviar o artigo na última hora. Embora seja válido e razoável o o argumento, e haja uma certa irresponsabilidade em deixar isso para o fim do prazo, ele não isenta dos desenvolvedores e administradores do site a obrigação de garantir que seu serviço funcionará de forma aceitável.

Agora, espero que eles leiam os logs (e as mensagens que o sistema diz ter enviado para os administradores) e tomem uma atitude para o próximo ano.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Se o seu site está cheio de babacas, é culpa sua

Recentemente, li este post, o qual toca em alguns aspectos bem interessantes sobre as premissas que o autor considera necessárias para o sucesso de uma comunidade virtual.

O argumento de muitos sites é o clássico não temos responsabilidade sobre os comentários postados. Ele pode ser válido de um ponto de vista legal, mas não de um ponto de vista moral: você é responsável sim pelos comentários do seu site. Você possibilitou que ele fosse usado para apologia ao crime, para promoção do ódio, e isso está no seu domínio ou no da sua empresa. 

Vamos aos 5 pontos suscitados no post:

1. Você deve ter humanos de verdade dedicados a monitorar e responder à sua comunidade

Começa por aí: muitas comunidades, fóruns etc... não possuem moderação ativa. Ter uma comunidade cheia é um símbolo de status, um e-penis. Mas a parte chata, de ler e participar ativa e sistematicamente dela, de reconhecer comportamentos e expulsar usuários bagunceiros, e ninguém quer.

As tarefas de moderação podem (e devem) ser divididas entre vários usuários, desde que eles aceitem as responsabilidades que isso implica, e não simplesmente usem isso para mostrar ó, eu sou foda, sou moderador de uma comunidade com 50 mil membros.

2. Você deve ter políticas na comunidade sobre o que é e o que não é um comportamento aceitável

Também é uma falha de planejamento das comunidades. Muitos donos e moderadores não definem regras, ou quando elas existem, não as fazem acontecer ou valer.

Aplicando ao Orkut e outras redes sociais, parte dessas regras poderia ser justamente a proibição de perfis falsos, algo que (in)felizmente irá atrair haters, pois já não se torna possível inflar comunidades (considerando que os donos das comunidades são coerentes com as regras que eles estabelecem), e para algumas pessoas que tem medo de dar a cara a tapa pela sua opinião, preferindo ficar escondidas atrás de um fake.

Outra parte dessas regras deveria versar sobre erros de linguagem, vocabulário aceitável, menção e uso de informações pessoais, e outros comportamentos relevantes.

Regras devem ser claramente definidas, em palavras exatas e simples, porém devem ser interpretadas de forma flexível, para evitar infratores tentando se esquivar e alegar que o comportamento deles não estava definido nas regras. Também não se deve poupar moderadores e usuários mais avançados delas, para evitar a ilusão de eu posso, eu cheguei aqui antes.

3. Seu site deve permitir identidades confiáveis

Novamente entra na questão dos fakes e do incrível poder da anonimidade por eles fornecida. E muitas vezes, ela é exatamente usada para fins inadequados, inclusive, várias vezes já vi pessoas que postavam anonimamente porque se eu colocar meu perfil aqui, eles vão me encher o saco.
 
Comentários anônimos são válidos em algumas situações específicas, por exemplo, proteção à identidade - o que não é o caso de uma rede social ou de um fórum, obviamente. Logo, ela torna-se injustificável e até mesmo perigosa.

O autor do post propõe o uso de pseudônimos permanentes - como vemos na maioria dos fóruns: não é necessário que o usuário mostre o seu nome, apenas é necessário que ele mantenha o seu apelido. Mas, quando necessário, não se deve ter medo de mostrar o nome real dos usuários.

Também é considerado o uso de sistemas de reputação, não baseados em pontuação ou número de posts (o que levaria muitos a floodarem ou responder 'sim' a qualquer coisinha), mas sim no comportamento do usuário. Não na quantidade, mas sim na qualidade.

4. Você deve ter a tecnologia para facilmente identificar e impedir comportamentos inadequados

Nas redes sociais mais utilizadas, essas ferramentas são limitadas ou inexistem. Mas muitos outros sites, principalmente os de notícias, usam ferramentas desenvolvidas sob medida, e não há justificativa para o não uso de buscas por palavras-chave, análises estatísticas etc... para detectar comentários irrelevantes. Inclusive, as mesmas técnicas que os filtros anti-spam empregam são aplicáveis.

5. Você deve ter condições para permitir ter uma boa comunidade, ou deve procurar outro ramo de trabalho

Evidentemente isso não se aplica para aquelas comunidades pequenas, ou para blogs pessoais atualizados apenas ocasionalmente. Mas para os blogueiros profissionais, aqueles que publicam regularmente e lucram com propaganda e parcerias no seu blog, ou para fóruns maiores, não há pretexto para não ter o mínimo de filtragem nos comentários.

E essa afirmação é muito mais válida para os grandes portais: para esses, inexiste qualquer motivo para deixar o caos consumir as suas comunidades. Dinheiro há de sobra, desenvolvedores e recursos técnicos também.

Ou mesmo, se você não tem as condições para garantir o cumprimento de todos os itens, é válido desativar os comentários - o que já é feito há muito tempo por blogs técnicos ou científicos. Dado que muito do compartilhamento hoje se dá pelas redes sociais, percebo (observação não-científica) que eles se tornam relevantes apenas para discussões prolongadas - as quais podem ser feitas em outros meios.

Isso tudo pode ser aplicado a diversos sites. Atualmente, é impossível ler os comentários do Terra, do G1, de vídeos famosos no YouTube etc... sem encontrar:

  •  Alguém conseguindo interpolar os direitos dos homossexuais ou que "viados são a abominação do diabo" (sic), ou alguém falando em Deus ou religiões. Em ambas as situações é possível constatar tentativas de burlar censores: es/cre-ve.se$ass/im, troka-ce l3tras etc...
  •  Pessoas demonstrando total desconhecimento do assunto da notícia, ou simplesmente de mimimi.
  •  Corajosos de internet posando de justiceiros e propondo soluções fantásticas e que não funcionam para os problemas.
  •  Gente que ainda acredita na história de que a internet é uma terra anônima sem leis e normas.
  •  Fanboys e hateboys duelando epicamente entre si para saber quem é mais barulhento, abafando qualquer discussão sensata que poderia vir a acontecer.

De um ponto de vista puramente comercial, essas "polêmicas" geram lucro. Geram mindshare, geram acessos etc... Isso é bom para o site, e portanto eles dificilmente vão filtrar o conteúdo - até a hora em que eles vêem sua imagem prejudicada e precisam repintá-la.

Você é responsável pelo conteúdo dos comentários do seu blog sim. Você é responsável pelo conteúdo dos anúncios dele [1], e os anunciantes são responsáveis por conhecerem o lugar onde eles anunciam - nenhuma empresa séria gostaria de ver seu anúncio em um jornal ou site que prega o ódio, certo?




Se o seu site está cheio de babacas, e você não fez seu dever de casa, é culpa sua. Não adianta chorar e dizer que a internet odeia você ao mesmo tempo em que deixa o caos imperar no seu site.

[1] Um exemplo que sempre gosto de comentar é um site ou publicação de uma organização ambiental aceitando anúncios de uma empresa do agronegócio conhecida por fazer greenwashing. Sinceramente, não consigo confiar numa organização que contradiz seus ideais por dinheiro.

Imagem do post: http://xkcd.com/386/

sábado, 16 de julho de 2011

Onde o Orkut, e seus usuários, erraram

Cada vez menos uso o Orkut. Tenho ele para ler algumas comunidades e ocasionalmente interagir com alguém que ainda não me tenha adicionado no Facebook ou que não me siga no Twitter, mas isso é raro. Considero aqui alguns motivos que me levaram a abandoná-lo: 

1. Comunidades? Que comunidades?

Adianta ter uma comunidade com 5 milhões de membros se:
  • tudo o que tem nelas são jogos do tipo "beija ou passa?", "continue a história com 3 palavras", "me add", trollagens etc... não há um fluxo de ideias real simplesmente por não existir comunidade!

Noto (observação não-científica) que comunidades on-line centradas num tema, e apenas nele, tendem a ser menores. Fóruns podem ter milhares, dezenas de milhares de usuários, com algo em comum, que é o interesse num tema - mesmo no Orkut constatamos isso, comunidades mais técnicas ou mais focadas tendem a ser menores. E essas comunidades ainda falham em alguns aspectos, básicos para qualquer sistema de discussões (fórum, mailing list, newsgroup etc...):
  •  não há uma ferramenta de "quote" (o que é necessário para a comunidade efetivamente ser um fórum), a formatação de textos muitas vezes é quebrada;
  •  os posts são limitados a 2048 caracteres (inviabiliza um texto mais longo, uma discussão mais comprida etc...);
  •  90% das comunidades são somente para membros (ou seja, quero ser um mero lurker, mas não posso, preciso engrossar a lista de usuários).
Felizmente o Orkut tomou medidas contra o roubo de comunidades, proibindo a troca de nome: antigamente essa prática era muito comum, justamente para se obter uma comunidade mais antiga. Bombardeava-se o perfil do moderador com denúncias, ou ele era vítima de algum bug ou site malicioso, e pegava-se o cobiçado prêmio: uma comunidade criada em 2005, já com 10 mil membros de brinde.

Inclusive, várias vezes já fui incluído em comunidades pornográficas, obscenas ou nada-a-ver comigo, justamente porque alguém roubou uma comunidade e renomeou.

Muitas das comunidades lá já são irrelevantes. Entrar na comunidade de algum software ou tecnologia? Para quê, se ela já possui um fórum ou lista de discussão mais abrangente, com pessoas de todo o mundo? Não vejo muito sentido.

2. No meio do caminho tinha um CAPTCHA - ou, insegurança e limitações diversas

Quero sair de um monte de comunidades ao mesmo tempo? Não posso. Estou em uma discussão e excedi um limite X de mensagens por dia? Preciso digitar um CAPTCHA. Editei o meu perfil e coloquei um link? Mais outro CAPTCHA. E assim vai.

Em outros serviços também há essas confirmações, mas elas não são comuns. Não lembro de tê-las visto no Facebook ou no Google+, por exemplo, exceto em situações muito incomuns (por exemplo, um flood de links).

Infelizmente essa medida tornou-se necessária devido ao grande número de spams, de malwares entre outros. Por um bom tempo, quando foram relatadas diversas falhas de XSS, usei o Orkut somente com o NoScript - do contrário, corria o risco de ver meu perfil "invadido", e como meu perfil ligava à conta Google, poderia perder meu e-mail (à época eu não separava contas pessoais e profissionais).

3. "Perfil lotado" ou mamãe, quero ser famoso

Já afirmei no meu Twitter que quem tem 5 mil amigos não tem amigos. Mesmo pessoas famosas, ou pessoas que lidam com pessoas, dificilmente chegam a ter tantos amigos - considero que o mais justo nesse caso seria uma fan page.

Como o Orkut não tem esse recurso, vemos celebridades virtuais (e attention whores) criando infinitos perfis. Fazem de tudo para chamar a atenção: participam de jogos me add e saem adicionando todos os novos amiguinhos, que colecionam como figurinhas num álbum. Colocam fotos pesadamente editadas em trajes provocantes, e ao mesmo tempo entram em comunidades não acho um(a) namorado(a) decente, quero amor etc...

Quer conseguir amigos, seguidores etc...? Produza conteúdo de qualidade e relevante: pode não ser tão eficiente em termos de quantidade, mas certamente gera uma rede de contatos de maior qualidade. Ou você está a fim de ter 50 mil amigos e seguidores que não dizem nada?

4. Bobajadas diversas

Scraps abestalhados e perfis coloridos: duas verdadeiras abominações. Que atire a primeira pedra quem nunca recebeu um scrap piscante ou entrou num perfil que expressava toda a individualidade do dono... copiado de um site tipo "perfis prontos".

Outro problema são os fakes. Não aquele fake discreto, mas aquele que claramente é um troll usando a carapuça de uma pessoa cool. É impossível manter uma discussão inteligente com uma pessoa que esconde a cara atrás de uma foto de uma gatinha saturada no Photoshop e que reage a qualquer coisa com sarcasmo e xingamentos.

5. iscrevenu asim, everthng wrng

Diversas vezes eu já desisti de acompanhar um tópico no Orkut por causa dos erros de gramática e de ortografia cometidos. Outras vezes, já me desinteressei por alguém devido ao fato de seu perfil estar totalmente escrito em miguxês ou ela assassinar a língua.

Não é só um problema brasileiro, antes que algum reacionário BRASIL EH UMA MERDA MIMIMI INCLUSÃO DIGITAL MIMIMI, do tipo que povoa o Classe Média Sofre, venha aqui: comunidades cujo idioma principal é o inglês também padecem com pessoas (notadamente os indianos) que escrevem como quem está digitando um SMS: é 'u wrong' pra cá, 'plz add me' pra lá, 'ur good' acolá...

Isso é algo que não vejo em bons fóruns, listas de discussão etc.... Tanto em português quanto em inglês, os usuários ao menos tentam escrever corretamente - e muitas vezes conseguem, sob pena de serem rejeitados, de não receberem resposta ou mesmo de serem repreendidos.

6. "Mamãe, quero ser criativo"

Ah, se eu tivesse um real para cada perfil pronto, para cada invasão de perfil que eu vejo no Orkut... eu estaria ricaço. De tal forma que há sites dedicados a isso: expresse toda sua individualidade e a profundidade da sua amizade (tá, cansei de rimar) pegando um texto pronto, copiando, colando e só colocando o nome do seu melhor amigo.

7. Falta de consistência

Uma das coisas que sempre elogiei no Facebook é a padronização: todos os perfis têm o mesmo formato para interesses e gostos, têm direito a um username (melhor do que dizer "me procura"), todos os grupos têm os mesmos recursos etc... em uma interface simples, limpa e gostosa de usar. E é exatamente essa simplicidade que faz falta no Orkut.

O Facebook, o Google+, etc... apesar de todas as outras falhas e limitações, conseguiram - ao menos para mim - se demonstrar melhor que o Orkut, justamente por não terem os recursos problemáticos ou terem implementado eles de uma forma mais sensata. Se eles verão a suposta orkutização (a qual até hoje é um mito hipster, ao menos para mim), só o tempo poderá dizer - duvido muito, devido a curva de aprendizagem envolvida, suficiente para espantar muitos usuários leigos.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Transporte Público: você está fazendo isso errado.

Recentemente, li um comentário de uma pessoa que criticava a luta do DCE da UFSM para impedir o aumento nas passagens de ônibus. Tal pessoa argumentava o que é um aumento de R$ 0,10? Eu, e mais boa parte das pessoas que usa ônibus cotidianamente nesta cidade, respondemos: é muito! Vamos a dois pequenos exemplos que já presenciei:

  • Outro dia, para voltar para casa eu tive que pegar um ônibus sobrecarregado de tão cheio (acredito eu que tinha mais de 80 pessoas), que chegava a ter dificuldade para vencer algumas subidas devido ao peso e a sua idade. Um ônibus no qual era praticamente impossível se movimentar.Fico imaginando o caos que seria se alguém lá dentro declarasse que era um assalto, ou mesmo se alguém passasse mal lá.
  • Costumo pegar o ônibus Faixa Nova devido a me poupar um quilômetro de caminhada. Ocorre que, no horário onde ele é mais necessário - ou seja, 17:00 às 18:00, há um grande vácuo na disponibilidade dessa linha, são muitos poucos ônibus para muita gente que sai nesse horário. E o mais legal de tudo, esta linha simplesmente inexiste nos fins de semana. Felizmente as provas em sábados foram banidas do meu curso, senão não conseguiria fazê-las sem depender de transporte individual.
Outro problema crônico é a limitação artificial do número de passagens que posso comprar como estudante. Se eu faço um estágio e preciso de mais passagens do que uma pessoa que somente estuda, não tenho opção senão pagar as passagens extras do meu próprio bolso. Não é o meu caso, mas é o caso de muita gente; não sei como ficou a situação com o uso do bilhete eletrônico, mas pelo que sei ela não mudou.

Sem falar nos ônibus que mudam de rota sozinhos (por duas vezes, um ônibus onde claramente estava escrito "Faixa Nova" simplesmente foi pela Faixa Velha), ou mesmo que não descem nas paradas.

Tenho medo de um dia me ver com uma perna ou um braço quebrados, usando muletas, e tendo que andar de ônibus, posto que não dirijo (e mesmo que eu dirigisse, obviamente não teria condições de fazê-lo nessa situação). Coitado de quem está machucado ou doente e precisa ir pro HUSM de ônibus.

O que são R$ 0,10 a mais? Muito, para um serviço que melhorou exatos R$ 0,00. 

Como querem que Santa Maria quer ser uma cidade moderna, quer atrair investimentos, quer ter um parque tecnológico etc... quando nem um serviço de ônibus decente a gente tem? Como querem que as pessoas usem transporte coletivo com ônibus que vão estufados e devagar-quase-parando - qual a vantagem que o ônibus, neste contexto, tem perante o carro? Nenhuma.

Faço a pergunta: quantos dos que trabalham lá na ATU de fato usam o serviço por ela administrado? Quantos dos que trabalham definindo rotas e horários conhecem a realidade dos usuários do sistema? Nunca fui ouvido, e acredito que nenhum estudante foi, na hora de planejar os horários. Estranha associação essa que não ouve seus usuários, mas depois quer impor aumentos...




Termino com um vídeo bem interessante que foi repassado pelo DCE da UFSM, com cenas que todos os usuários de ônibus já presenciaram, de certa forma:



Foto do post: http://twitpic.com/54v242 (créditos: @juliadelcarmo)

sábado, 4 de junho de 2011

A educação de verdade não interessa

Podem me chamar de pessimista, mas cheguei à conclusão que a educação no Brasil nunca será levada à sério. Por quê? Simplesmente porque um povo bem educado tem uma arma muito grande nas mãos, que é a crítica e a rejeição. A capacidade de dizer discordo de tal coisa, não preciso disso, isso está errado, a capacidade de organização e de manifestação como vimos em vários outros países. E isso vai contra muitos interesses: do governo, dos líderes religiosos, de alguns grupos de empresários etc...

Com educação boa, onde as pessoas aprendam a pensar e a avaliar os impactos de suas  atitudes no meio-ambiente e na sociedade, cai o consumismo, cai a manipulação que a propaganda tenta causar. Propagandas não funcionam contra uma pessoa que saiba desmontá-las e reconhecer todos os artifícios usados nelas, não se deixando enganar pelos estilos de vida felizes que podem ser comprados em 48 vezes. Crianças que aprendam o valor do dinheiro, do trabalho, da responsabilidade social e ambiental desde cedo? Não sobra espaço para o lucrativo filão da publicidade infantil. 

Criando pessoas críticas, que leiam e entendam o que está escrito em contratos, licenças e termos de uso, prejudica as empresas que enfiam cláusulas abusivas neles. Pessoas que conheçam seus próprios direitos e deveres e saibam defendê-los e cumprí-los, respectivamente? Perdem-se os adevogados que vemos por aí (sem desmerecer os bons profissionais), os contratos que sempre prejudicam o idiota - digo, cliente etc...

Pessoas educadas para o respeito e a tolerância não são homofóbicas, nem racistas. Não sobra espaço para o discurso de bancadas religiosas que inventam argumentos em Deus para o ódio e a intolerância. E, por sinal, a religião é uma das mais prejudicadas com um ensino de verdade: em observações pessoais (sem valor científico), noto que justamente as pessoas com maior nível cultural têm uma propensão maior ao ceticismo e ao ateísmo. Uma escola laica, que não tenha medo de mostrar o que realmente está por trás das religiões, uma escola que use e ensine o método científico em todas as atividades, é um grande pesadelo para os religiosos mais fanáticos e para o país do dízimo com débito em conta.

Aliás, uma escola sem rabo preso, onde não houvessem tabus para discutir assuntos polêmicos, seria um inferno... para os políticos, que veriam suas ideologias e suas atitudes discutidas abertamente em sala de aula. Para as elites que ainda tentam enfiar garganta abaixo um modelo ridículo de progresso, legislando a seu favor. Para quem usa o medo e a desinformação como ferramenta para controlar seus rebanhos. Uma escola onde não houvesse vergonha ou problema em discutir sexualidade, religião, drogas, sistemas econômicos, meio-ambiente etc... iria ser excelente para os alunos - em todos os aspectos, mas péssimo para vários outros setores da sociedade.




Outro fator limitante é a família do aluno. Como um pai ignorante vai lidar com um filho que chegou da aula aprendendo que ser preconceituoso é algo errado? Uma família fortemente religiosa vai gostar de ver seu filho questionando a Bíblia e a religião dela? Certamente não. E nenhum pai gostaria de ser repreendido por um filho que aprendeu que fazer malandragem é errado.

Por fim, lembremos das escolas particulares, cursinhos e faculdades pagou-passou -o certamente eles não gostariam de se verem desnecessários devido a um ensino público de qualidade e acessível a todos os alunos interessados (algo diferente do "liberou geral" que alguns propõem, e que certamente irá atrair muitos maus alunos ou alunos mais-ou-menos).

Se um dia o ensino for além de preparar para vestibular/concurso público e de melhorar indicadores em português e matemática, se um dia ele formar pessoas que pensem, que questionem, que critiquem, que rejeitem, que digam não muita gente sairá incomodada. O governo vai perder muito dinheiro com os impostos que ele deixa de arrecadar com a redução do consumismo, as camadas mais intolerantes da igreja vão se ver em maus lençóis quando os dogmas bíblicos forem questionados... ou seja, tudo que vai de encontro aos interesses de camadas influentes na sociedade.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O mimimi do preço justo

Recentemente houve uma motivação da internet brasileira pelo movimento do preço justo, que para muitas pessoas virou o movimento do queremos gadgets mais baratos. Além da inefetividade desses protestos on-line (servem para mobilizar a população talvez, mas têm valor legal nulo), temos outras coisas a mudar antes de querer jogos e gadgets mais baratos.

Vamos a um fato: Gadget não é produto de primeira necessidade. Pode ser importante para uma sociedade conectada, mas está muito longe de ser algo fundamental e necessário. Adianta tablet e colocar tudo na nuvem quando a conectividade à internet ainda não chegou a todos os lugares, nossas operadoras de celular são péssimas, etc... ?

Sabemos que o Brasil tem uma séria carência de inovação tecnológica e de pesquisa e desenvolvimento nas empresas. Não temos condição de ter um produto competitivo se compararmos com a China, onde os impostos e custos são baixos. Não quero defender o modelo horrível de industrialização chinês, mas por quê não reduzem o preço (tanto no aspecto impostos, quanto nos subsídios) de componentes eletrônicos, máquinas e ferramentas industriais, softwares que a indústria usa etc...? Seria um bom passo para criar uma indústria moderna, fabricando tecnologia de ponta aqui.

Não temos profissionais capazes de projetar tablets, smartphones etc... aqui? Certo que temos. O problema é fazer isso quando um componente que lá fora sai por US$1, chega aqui custando R$ 10. Simplesmente não há competitividade, especialmente com uma China que não respeita direitos autorais, trabalhistas ou ambientais. Óbvio que não podemos desrespeitá-los, mas podemos sim baixar os impostos sobre as matérias-primas e incentivar as boas ideias.

Por quê não taxar junk-food, cigarro, bebida alcoólica, agrotóxicos etc... e cortar os impostos dos produtos e alimentos produzidos de forma sustentável? Criar uma taxa que puna os carros e veículos mais poluidores, assim fazendo com que as pessoas que ainda pensam que não existe poluição, é bobagem etc... paguem sua poluição pelo bolso? Que "recompense" quem compra produtos fabricados localmente, quem troca aquela geladeira de 40 anos atrás por um modelo mais eficiente, quem economiza energia, ou quem troca a carne por alternativas mais limpas? Sustentabilidade para as massas, de forma que elas sintam no bolso a vantagem.

Comprar software? Quem tem cartão internacional pode muitas vezes comprar por download. E mesmo que você não possa pagar, para 90% das necessidades de muita gente por aí existe software livre ou mesmo alternativas de menor custo.

E mesmo que os impostos sobre jogos sejam baixados, vai adiantar muito para o carinha que compra 5 por 10 real no camelô ou baixa terabytes de jogos piratas num único torrent, ou que faz todas as suas compras no Paraguai ou de fontes duvidosas? Se baixar os preços dos softwares e dos gadgets, vai realmente haver impulso para a legalização, ou simplesmente vai se aprofundar a nossa dependência de tecnologias restritivas e atoladas de DRM? Se os impostos baixarem, ainda vai haver desculpa para a vista-grossa que se faz em relação à pirataria?

Por fim, quem garante que a redução de impostos será de fato repassada ao consumidor em sua totalidade? Prevejo empresas simplesmente reajustando os preços e lucrando mais. Ou mesmo comemorando a redução do custo operacional e portanto... mais lucro, sem que nenhuma melhoria aconteça para os usuários.



Já tivemos há algum tempo atrás uma redução de impostos para carros, e a consequência foi que muitas pessoas compraram e deixaram de usar o transporte coletivo de pobre. Enquanto isso, quem não dirige sai prejudicado devido ao quase sucateamento dos transportes públicos. Onde estão os incentivos fiscais para ônibus, trens, etc...?


O que é mais importante? Reduzir impostos sobre gadgets e jogos, apenas para incentivar o consumismo de produtos com obsolescência programada e que restringem a liberdade dos seus usuários, sem que com isso haja um retorno para o país, ou reduzir os impostos daquilo que é bom para a sociedade e o país - explorar boas ideias aqui, gerar empregos, preservar o meio-ambiente etc...? Certamente a segunda opção, mas ela não é tão chamativa para a maioria das pessoas.




Nota 1: Antes que comentem sobre o preço dos livros, lembremos que eles não pagam impostos. Os altos custos deles são culpa da ganância inerente as editoras, que fabricam novas edições incompatíveis com as outras, apenas para obrigar bibliotecas e professores a comprarem livros novamente e dificultarem a situação de quem quer comprar livro usado. O problema não é só brasileiro, basta ir na Amazon e procurar livros lá - igualmente caros. E-books provavelmente não vão resolver o problema, devido ao DRM - um preço muito grande para quem não usa Windows ou Mac, mas esse não é o mérito desse post.

Nota 2: Entendo que o movimento quer reduzir os impostos sobre vários produtos, mas por quê não vemos protestos reduzam o preço dos componentes eletrônicos ou reduzam os impostos sobre os alimentos orgânicos? Certamente é por não haver tanto apelo para a molecada que pensa estar fazendo um grande serviço assinando num sitezinho aleatório.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Anotações sobre o uso de tablets na sala de aula

Vejo muitas sugestões de empregar tablets na educação, com os autores afirmando que é necessário dinamizar o ensino, que o aluno de hoje já é muito mais conectado que há 10 anos atrás, etc.... E até certo ponto, concordo: é sim preciso repensar a forma em que o conteúdo é passado, como as avaliações são feitas, entre outros. Porém, há certos pontos que muitos autores ignoram:
  • Só haverá a verdadeira inclusão digital se o tablet e os conteúdos que nele rodarem forem livres. De forma contrária, simplesmente se aprofunda a dependência tecnológica, fomenta-se a pirataria (o aluno com um iPad vai precisar do iTunes, por exemplo - o qual obrigatoriamente precisa do Windows ou do Mac OS X), a dependência de formatos proprietários e o não-desenvolvimento de soluções, além da obsolescência programada chamada DRM - uma obsolescência a qual não pode ser contornada de forma lícita.

    O livro em papel pode ser um dinossauro, pode estar "obsoleto" (duvido muito), mas ele será legível para sempre se bem-conservado; podemos dizer o mesmo dos e-books? Daqui a 20 anos eu poderei reler um e-book que comprei hoje? Acredito que não, devido à maravilhosa mina de ouro que é o DRM.
  • Não adianta o modelo de aula eu tenho o mundo aos meus dedos se, na hora da avaliação, todos recaem àquela prova teórica, que exige decoreba de fórmulas e de fatos. Tampouco tablets são úteis em regiões onde o acesso a internet é limitado ou inexistente.
  • Imaginemos aquele aluno que mora em uma região afetada pela violência, e que sempre vai de ônibus para a aula. Há como garantir que ele não será assaltado simplesmente para levarem o tablet dele?
    Uma das soluções que pensei seria um sistema análogo àquele usado para rastrear caminhões, cujo acesso seria restrito à diretoria das escolas, às polícias e às secretarias de Educação, e que permitisse facilmente acompanhar onde está um tablet roubado.
    Porém, isso suscita questões relativas à privacidade e o mau uso dessas ferramentas, que permitiriam um diretor mal-intencionado saber onde um aluno está.
  • E aquele aluno bagunceiro, que vai para a aula apenas para arranjar confusão e chamar os outros de "viado"? Ele merece um tablet, que provavelmente será usado para assistir pornografia e dar um jeitinho de entrar no Orkut e no MSN durante a aula? Acredito que não.
  • Muitos professores não querem se renovar, posto que chegaram na sua zona de conforto; é bem possível que eles usem os tablets como porta-copos, ou não queiram mudar suas aulas. 
  • Por fim, considero que nossos problemas na educação são low-tech: é hipocrisia falar em tablets na sala de aula quando muitos alunos sequer têm salas adequadas para estudar, quando muitos professores são impotentes perante os alunos mal-educados, e quando não se pode garantir que o tablet não será roubado na próxima esquina para trocar por uma pedra de crack. 
Mais do que simplesmente ensinar os alunos a consumirem conteúdo, é preciso promover a verdadeira inclusão digital através da criação, com tecnologias livres e abertas, assim formando pessoas que saibam fazer mais do que Office e internet. Fazê-los pensar, refletir e expressar isso, em vez de simplesmente preparar pessoas para marcar bolinhas em uma folha óptica em um vestibular/concurso.



Gostaria de ver alunos aprendendo a se expressar, a desenvolver o raciocínio lógico, usando softwares livres para criar pequenos projetos: sites, programas etc... Claro que um aluno  não vai sair do ensino médio criando patches para o kernel ou fundando uma startup da Web 2.0, mas garanto que de dentro de uma aula dessas podem sim sair excelentes ideias - o que dificilmente aconteceria se os alunos se posicionassem de forma passiva, apenas recebendo conteúdo, e precisando de um Mac pra rodar o SDK do iPad.

É totalmente possível fazer isso com software proprietário, porém realmente é certo obrigar os alunos a piratearem um software para usar em casa, ou viver de esmolas disfarçadas de doação de licenças?
É certo obrigar eles a serem dependentes de uma empresa e dos seus caprichos?
É certo alienar os alunos e criar uma geração dependente de um único fabricante, assim aprofundando o oligopólio das grandes empresas? Acredito que não, e tampouco que isso tudo seja aceitável e adotado em nome da "modernização" do nosso ensino, quando nossos problemas são muito mais prosaicos e se resolvem sem nenhuma tecnologia mais avançada.